Cordão de cabelos humanos pode revelar mais sobre método de contagem dos incas
Análise inédita de antigo quipu inca revela que registro de informações não era exclusivo à nobreza no auge do império inca; entenda!

Uma análise inovadora de um quipu confeccionado com cabelo humano tem o potencial de transformar a compreensão sobre a documentação de informações durante o período do Império Inca, considerado o maior império das Américas antes da chegada dos europeus.
O artefato em questão, que possui cerca de 500 anos e mede aproximadamente um metro de comprimento, é um exemplo raro desse sistema de registro, conhecido como quipu (ou khipu). Este método, que utiliza cordões e nós para contabilizar bens, registrar eventos e, possivelmente, coletar impostos, foi por muito tempo associado exclusivamente à elite inca. Entretanto, a descoberta recente feita pela Universidade de St. Andrews, na Escócia, apresenta uma nova narrativa sobre quem realmente poderia estar envolvido na criação desses objetos.
Diferentemente dos quipus tradicionais, geralmente feitos de lã de lhama ou alpaca, este exemplar específico é inteiramente composto por fios de cabelo humano. A equipe que analisou o artefato acredita que o uso deste material carrega um significado simbólico profundo dentro da cultura andina, representando a “essência” do doador.
A pesquisa química liderada pela especialista Sabine Hyland examinou os elementos presentes no cabelo, revelando uma dieta predominantemente composta por tubérculos e leguminosas, com escassa ingestão de carne e milho e sem sinais de consumo de peixe. Esses dados sugerem que seu proprietário pertencia a um estrato social mais humilde, desafiando a percepção anterior que associava o manuseio dos quipus apenas à elite.

Essa descoberta indica que a prática de registrar informações através dos quipus pode ter sido realizada também por indivíduos comuns, não se limitando à nobreza. O sistema quipu se destaca como uma das principais evidências da economia e contabilidade inca, especialmente considerando que esta civilização era predominantemente oral e não costumava manter registros escritos.
No caso dos quipus, detalhes como o comprimento dos cordões, o número de nós e bolinhas neles contidos e a disposição desses elementos são fundamentais para transmitir informações sobre quantidades e tipos de materiais armazenados.
Foi um choque total”, comentou Hyland à Science News. “Meu palpite é que era usado para registrar oferendas rituais. Deve ter sido algo muito especial para a pessoa sacrificar o seu próprio cabelo”.
A publicação desta pesquisa na revista Science Advances marca um marco importante na história da arqueologia andina. Embora já tenham sido encontrados fios humanos em outros quipus, este é o primeiro caso onde todo o cordão principal é feito unicamente desse material durante a era inca.

Desmentindo relatos espanhóis
As implicações dessa descoberta são profundas. Se confirmada a hipótese de que camponeses eram capazes de produzir quipus, isso questionaria as narrativas tradicionais baseadas nos relatos dos cronistas espanhóis, que viam essa prática como um privilégio exclusivo da elite. Essa nova perspectiva poderia estabelecer conexões com práticas contemporâneas nas comunidades rurais andinas que ainda utilizam quipus para registrar informações agrícolas ou cerimônias funerárias.
Ademais, essa análise pode iniciar uma revisão crítica das coleções em museus ao redor do mundo. Para Hyland, esse artefato vai além de um simples objeto curioso; ele representa uma conexão tangível com a vida cotidiana de alguém que viveu há mais de cinco séculos e cuja história provavelmente foi marginalizada na narrativa histórica tradicional, repercute a Revista Galileu.