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Primeiros americanos tinham DNA denisovano, diz novo estudo

Pesquisadores acreditam que DNA denisovano pode ter desempenhado um papel crucial na defesa dos primeiros americanos contra doenças

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

Uma pesquisa recente trouxe à luz informações fascinantes sobre as origens genéticas dos primeiros habitantes das Américas. Esses pioneiros, que atravessaram continentes há milhares de anos, possuíam fragmentos de DNA que podem ser rastreados até duas linhagens humanas extintas: os Neandertais e os Denisovanos. A pesquisa sugere que esses componentes genéticos poderiam ter desempenhado um papel crucial na defesa dos primeiros americanos contra doenças encontradas em seu novo habitat.

Segundo Fernando Villanea, geneticista populacional da Universidade do Colorado Boulder e coautor do estudo, “todos os seres humanos vivos hoje são o resultado da combinação de três espécies diferentes”. Esta afirmação ilustra a complexidade da evolução humana e a troca genética ao longo das eras.

A coautora Emilia Huerta-Sanchez, geneticista populacional da Universidade Brown, destacou que os humanos primitivos possuíam variações arcaicas que lhes permitiram enfrentar novos patógenos sem esperar por mutações recentes. Em vez disso, eles podiam utilizar um arsenal de variantes genéticas herdadas de outros grupos humanos.

Análise genética

No estudo publicado na revista Science, a equipe analisou o gene MUC19, que desempenha funções diversas, incluindo a codificação da consistência do muco. Os resultados revelaram que aproximadamente um em cada três mexicanos possui uma versão do gene MUC19 similar à dos Denisovanos, uma espécie enigmática que habitou partes da Ásia entre 200 mil e 30 mil anos atrás.

Segundo o Live Science, a pesquisa sobre o gene MUC19 em populações indígenas americanas abordou duas vertentes distintas: enquanto alguns estudos indicaram que indivíduos com ancestralidade indígena americana apresentam um número elevado de variantes antigas do MUC19, outros mostraram que a frequência desse gene aumentou ao longo do tempo nas populações indígenas da América do Norte devido a vantagens evolutivas.

No entanto, a nova análise revelou que o segmento de DNA MUC19 derivado dos Denisovanos aumentou com o tempo nas populações e foi encontrado associado a DNA dos Neandertais em uma configuração inesperada. Villanea descreveu essa descoberta como “surpreendente”, pois marca a primeira vez que um gene Denisovano foi identificado como tendo sido transmitido aos humanos por meio dos Neandertais.

Variantes

Para avaliar se as variantes específicas do MUC19 derivadas dos Denisovanos eram benéficas para os indígenas americanos, a equipe comparou dados genéticos de mexicanos modernos, peruanos, colombianos e porto-riquenhos com sequências genéticas de 23 indivíduos indígenas que viveram nas Américas antes do século XIII, além de três Neandertais e um Denisovano.

Os resultados indicaram que os mexicanos contemporâneos apresentam a maior frequência das variantes do MUC19 relacionadas aos Denisovanos, com cerca de 33% da população carregando essa versão genética. Em comparação, aproximadamente 20% dos peruanos possuem a variante, enquanto apenas cerca de 1% dos colombianos e porto-riquenhos apresentam essa característica. Os pesquisadores sugerem que isso pode ser atribuído ao fato de os mexicanos possuírem uma quantidade maior de DNA indígena americano em seus genomas em comparação com as outras populações estudadas.

Ao investigar qual grupo humano arcaico havia transmitido essas variantes genéticas, os cientistas ficaram surpresos ao descobrir que o segmento gênico proveniente dos Denisovanos estava intercalado entre o DNA específico dos Neandertais. A explicação mais plausível é que os Neandertais adquiriram essas variantes através da reprodução com os Denisovanos e posteriormente transmitiram-nas aos humanos modernos durante cruzamentos posteriores.

Ripan Malhi, antropólogo molecular da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e não envolvido no estudo, elogiou o trabalho afirmando que a equipe conseguiu decifrar padrões complexos dentro do contexto de eventos demográficos passados da humanidade. Ele também ressaltou a importância de aprofundar na compreensão da função do gene MUC19 oriundo dos Denisovanos.

Próximos passos

A próxima etapa para Villanea e sua equipe envolve explorar novas coleções de amostras biológicas contendo dados genômicos e características fenotípicas de pessoas latinas ou indígenas americanas para determinar como as variantes específicas dos Denisovanos influenciam a função proteica. Dependendo da função exata dessa variante MUC19, ela pode contribuir para o sistema imunológico combater patógenos específicos ou regular respostas imunes particulares. Villanea expressou sua expectativa de que esses genes possam ter funções significativamente diferentes das variantes modernas conhecidas.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.