Veja o porto submerso que pode levar ao túmulo de Cleópatra
Após duas décadas de escavações, a dominicana Kathleen Martínez acredita estar cada vez mais próxima de resolver o enigma de 2.000 anos

Advogada criminalista de formação e arqueóloga por vocação, Kathleen Martínez acredita estar cada vez mais próxima de encontrar o túmulo perdido de Cleópatra VII, a lendária rainha egípcia que desafiou Roma e selou seu destino ao lado de Marco Antônio.
Sua busca se concentra no templo de Taposiris Magna, a cerca de 48 quilômetros a oeste de Alexandria, na cidade costeira egípcia de Borg El Arab. Lá, nas ruínas de um santuário dedicado à deusa Ísis, a quem Cleópatra se identificava espiritualmente, a pesquisadora encontrou artefatos, inscrições e um túnel submerso que podem reescrever parte da história egípcia.
Agora, uma nova descoberta pode ser a peça que faltava nesse quebra-cabeça milenar: um porto submerso nas profundezas do Mar Mediterrâneo, que teria servido como entreposto marítimo do templo. O achado foi anunciado pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito e confirmado por uma equipe internacional de especialistas.
Isso torna o templo realmente importante”, diz Martínez. “Ele tinha todas as condições para ser escolhido para que Cleópatra fosse enterrada com Marco Antônio”.
Porto perdido
A descoberta subaquática foi feita com o apoio do renomado arqueólogo marinho Bob Ballard, famoso por localizar os destroços do Titanic. Juntos, Martínez e Ballard identificaram estruturas artificiais sob o mar — pisos polidos, colunas, blocos de pedra, ânforas e âncoras antigas — que indicam a existência de um porto ativo durante o reinado de Cleópatra.
“Os mergulhadores desceram — eles descobriram um porto!”, exclamou Martínez, emocionada, em uma das cenas registradas para o documentário “O Último Segredo de Cleópatra”, que estreia em 25 de setembro na National Geographic e chega ao Disney+ e Hulu no dia seguinte.
Ballard explica que o túnel encontrado em Taposiris Magna, escavado em 2022 e parcialmente inundado, aponta diretamente para o porto submerso, reforçando a conexão entre o templo e o litoral. “Começamos a ver construções colossais cobertas de sedimentos, dispostas em fileiras e com mais de seis metros de altura”, contou. “As evidências sugerem que pode ter sido um porto usado na época de Cleópatra”.
Cleópatra
Nascida em 69 a.C., Cleópatra VII ascendeu ao trono aos 18 anos, tornando-se a última governante da dinastia ptolomaica, instaurada por descendentes de Alexandre, o Grande. Admirada por sua inteligência e habilidade política, a rainha era, segundo Martínez, uma mulher à frente de seu tempo: “Ela era filósofa, médica, química e especialista em cosmetologia”.
Apesar de sua genialidade, Cleópatra foi vilanizada pelos romanos, que a retrataram como uma sedutora manipuladora. “Historiadores e artistas ocidentais perpetuaram essa imagem distorcida”, explica Sara E. Cole, curadora associada de antiguidades do Museu J. Paul Getty, que não participa da pesquisa. “Mas Cleópatra era uma estrategista brilhante, que usava o espetáculo e o simbolismo como armas políticas”.
Foi assim que ela conquistou e se uniu a Marco Antônio, general romano e sucessor de Júlio César, em uma aliança marcada por paixão e tragédia. Juntos, enfrentaram Otaviano, futuro imperador Augusto, na Batalha de Ácio (31 a.C.). Derrotados, fugiram para o Egito, onde Antônio tirou a própria vida e Cleópatra, recusando-se a ser exibida como prisioneira, cometeu suicídio aos 39 anos — supostamente com o veneno de uma cobra.
O túmulo
Desde a Antiguidade, acredita-se que Cleópatra e Marco Antônio foram sepultados juntos em Alexandria. Contudo, a cidade foi devastada por terremotos e um tsunami em 365 d.C., e grande parte do antigo bairro real permanece submersa a seis metros de profundidade.
Martínez, porém, acredita que a rainha elaborou um plano para desaparecer dos olhos de Roma. “Ela teve que escolher um local onde pudesse se sentir segura para sua vida após a morte com Marco Antônio”, diz. Para a arqueóloga, esse lugar seria Taposiris Magna — o templo de Ísis, símbolo da divindade com a qual Cleópatra se identificava.
Desde o início das escavações em 2005, sua equipe encontrou centenas de múmias, cerâmicas e mais de 300 moedas com a efígie da rainha. Em uma placa de fundação, inscrições em grego e hieróglifos confirmam que o templo foi dedicado à deusa Ísis.
Ela não queria morrer como prisioneira. Ela queria morrer como filha de Ísis”, diz Martínez.
Desafios
Os avanços em Taposiris Magna desafiam as dúvidas da comunidade acadêmica. “Até agora, descobrimos mais de 2.600 objetos em um lugar onde diziam não haver nada”, afirma Martínez. “Provei que todos estavam errados”.
Os novos estudos subaquáticos — realizados com o auxílio da Marinha Egípcia — revelaram também estruturas chamadas “Salam 5” e “Três Irmãs”, grandes formações rochosas e bases de estátuas idênticas às do templo em terra firme. Um mapa digital elaborado por Ballard identifica cerca de 10 quilômetros de áreas-chave a serem exploradas nas próximas expedições.
Martínez acredita que o corpo de Cleópatra pode ter sido transportado pelo túnel até esse porto, onde foi sepultado, longe do alcance dos romanos e das águas do tempo. “Ninguém pode me dizer que Cleópatra não está em Taposiris Magna”, insiste. “É preciso escavar tudo antes de afirmar isso”.
Com a determinação de quem já dedicou metade da vida a uma missão, Martínez promete continuar. “Não vou parar”, afirma. “Para mim, é apenas uma questão de tempo até encontrá-la”.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli