‘Silvio Santos Vem Aí’ relembra tentativa de candidatura à presidência da República em 1989
Icônico apresentador chegou até mesmo a fazer campanha eleitoral, mas acabou sendo declarado inelegível dias após entrar na disputa

A eleição presidencial de 1989 foi um dos episódios mais marcantes da história política recente do Brasil. Afinal, foi nesse ano que o país voltou a escolher o presidente da República por voto direto após quase três décadas.
Mas houve também um outro motivo: nesse ano, uma figura conhecida de brasileiros de todas as idades, o apresentador Silvio Santos, decidiu entrar na disputa pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB), uma sigla pequena, que seria extinta logo após o pleito.
Silvio Santos, que morreu aos 93 anos em 17 de agosto de 2024, era uma figura central no cenário do entretenimento. Comandava o Programa Silvio Santos desde 1963 e liderava o SBT desde 1981. Quando sua candidatura foi oficializada, em 31 de outubro de 1989, faltavam apenas duas semanas para o primeiro turno. Ainda assim, seu nome rapidamente mexeu com o cenário eleitoral, alcançando cerca de 30% das intenções de voto em pesquisas da época, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O episódio é o tema central do filme ‘Silvio Santos Vem Aí’, estrelado por Leandro Hassum, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 20. Relembre a história!
Uma brecha
A entrada do apresentador na corrida presidencial só foi possível graças a uma brecha aberta após o veto do presidente José Sarney à data-limite de filiação partidária. Antes de optar pelo PMB, ele ensaiou conversas com partidos mais estruturados, como o PFL e o PL, mas as negociações não avançaram. Restou-lhe, portanto, chegar ao PMB, após a desistência do então candidato Armando Corrêa. Marcondes Gadelha, senador pela Paraíba, tornou-se seu vice.
De acordo com o portal G1, apesar do pouco tempo, Silvio gravou programas de campanha, apresentou um plano de governo centrado em alimentação, saúde, educação e habitação, e buscou explicar ao eleitorado o maior problema prático de sua candidatura: seu nome não aparecia na cédula de votação. Como a eleição de 1989 ainda era feita por voto impresso, as cédulas já tinham sido confeccionadas com o nome de Armando Corrêa e o número 26. Silvio precisava então convencer seus eleitores a marcar o X no nome do antigo candidato para, de fato, votar nele.

Reação imediata
A reação do mundo político foi imediata. A popularidade de Silvio preocupou adversários e provocou a abertura de 18 impugnações judiciais. Um dos pedidos foi apresentado pelo PRN, partido de Fernando Collor, então favorito na disputa. As ações questionavam tanto a legalidade do PMB, que não havia cumprido as exigências mínimas de convenções regionais e municipais, quanto a elegibilidade de Senor Abravanel. A legislação determinava que proprietários ou diretores de empresas concessionárias de serviços públicos deveriam se afastar de seus cargos seis meses antes da eleição. Mesmo sem constar formalmente como diretor do SBT, o apresentador era claramente considerado a figura de comando da emissora.
Em 9 de novembro de 1989, apenas dez dias após o início de sua campanha no rádio e na TV, o TSE julgou o caso. A Corte decidiu, por unanimidade, extinguir os efeitos do registro provisório do PMB e declarar Silvio Santos inelegível, encerrando sua breve jornada eleitoral. Sem possibilidade de recorrer, sua candidatura deixou a disputa e o cenário voltou ao patamar anterior, com Collor liderando e Lula e Brizola disputando o segundo lugar. Collor acabaria vencendo o segundo turno, em dezembro.
Bastidores
A história por trás da candidatura, porém, é cheia de bastidores. Marcondes Gadelha, em seu livro “Sonho sequestrado: Silvio Santos e a campanha presidencial de 1989”, relata negociações sigilosas, tentativas frustradas com outros partidos, reuniões madrugadas adentro e até fugas improvisadas de jornalistas para evitar vazamentos.
Na visão do ex-candidato a vice, havia uma “conspiração política” para impedir Silvio de seguir adiante, motivada pelo temor de que seu enorme apelo popular o tornasse imbatível nas urnas. Gadelha afirma que Silvio tinha convicção de que o tempo curto de campanha não seria um problema, pois “conhecia o povo” e acreditava que poderia governar com o apoio de “homens de bem”.
Mesmo cassada, a candidatura causou repercussão internacional, foi destaque em jornais como o New York Times e provocou forte reação entre os demais candidatos. Para setores alinhados à direita, a presença do comunicador tiraria votos de Collor, abrindo espaço para uma virada de Brizola ou Lula. Já para a esquerda, representava uma distorção do processo democrático e uma interferência perigosa do poder midiático na política.
Depois de 1989, Silvio ensaiaria mais alguns passos na vida pública. Em 1992, candidatou-se à prefeitura de São Paulo, mas novamente o partido que o lançou foi considerado ilegal. Em 2005, recusou um convite para voltar a disputar a Presidência, dizendo: “Falamos de tudo no mundo. Mas política, nunca mais”.