Rosto humano? A escultura medieval rara que pode ser de origem picta
Fragmento de pedra descoberto na Escócia apresenta o que parece ser um rosto humano, com olhos, nariz e até uma linha de cabelo

Um fragmento de pedra esculpida, com aproximadamente dez centímetros, foi descoberto no forte de East Lomond, em Fife, Escócia. O artefato traz gravado o que parece ser um rosto humano e pode oferecer novas perspectivas sobre a forma como os pictos representavam sua identidade e sua arte. A peça encontrada já é considerada de grande relevância para os estudos sobre esse povo enigmático.
A descoberta foi feita por Jodie Allan, estudante de arqueologia da Universidade de Aberdeen, que participava como voluntária de escavações no local. Allan peneirava o solo de um edifício medieval quando notou um fragmento de tom esverdeado e metálico do material, que chamou sua atenção. Ao mostrar a peça ao professor Gordon Noble, a surpresa foi imediata: o fragmento apresentava um rosto, com olhos, nariz e até uma linha de cabelo.
“Eu não tinha ideia de que estava segurando algo significativo”, contou Allan em comunicado oficial divulgado em setembro deste ano, segundo o portal All That’s Interesting.
“Mas eu dei uma olhada mais de perto por causa de seu tamanho e porque a cor — uma espécie de verde acobreado oxidado — chamou minha atenção. Mostrei ao professor Noble, que deu uma olhada na pedra e sua reação me disse que era algo especial — com o que parece ser um rosto esculpido nela.”
East Lomond
O achado se insere em um contexto arqueológico de grande interesse. East Lomond, onde foi encontrado, é um forte associado a um assentamento que teria marcado a fronteira mais ao sul do território picta. Escavações recentes revelam que a região não estava isolada, mas conectada a redes comerciais que abrangiam diferentes partes da Europa.
Foram identificadas, por exemplo, cerâmicas de Oxfordshire, na Inglaterra, e o chamado E-ware, proveniente do norte da França, evidências de trocas que situam East Lomond no coração das interações culturais da Alta Idade Média.
O trabalho no local é liderado desde 2022 por Gordon Noble e Joe Fitzpatrick, do Falkland Stewardship Trust, em colaboração com estudantes, especialistas e membros da comunidade. O edifício em que o fragmento foi recuperado pertence ao que os arqueólogos acreditam ser a fase final de ocupação do sítio, datada entre os séculos 5 e 7.

Descoberta especial
Para Noble, a descoberta tem um peso especial. “É incrivelmente raro encontrar uma representação de rosto humano desse período. Teremos que olhar para todos os paralelos, mas se realmente for um rosto humano, é bom pensar que poderia ser um retrato rudimentar de um picto local que viveu em East Lomond”.
A maioria das esculturas desse tempo, explica ele, é simbólica ou abstrata, sem a intenção de retratar indivíduos. O fragmento, portanto, abre uma janela para práticas mais íntimas, possivelmente voltadas a usos familiares ou comunitários.
A importância do sítio cresce a cada escavação. Em 2025, além da pedra esculpida, foram recuperados uma cabeça de enxada de ferro em ótimo estado e fragmentos de armamento. As sucessivas lareiras e edificações sobrepostas também indicam ocupação contínua e investimento cultural, reforçando a hipótese de que East Lomond era um centro de alto status. “East Lomond está se tornando um local incrível”, resume Noble.
Próximos passos
Para aprofundar as conclusões, a equipe planeja realizar datações por radiocarbono das camadas associadas ao edifício, o que ajudará a definir a idade exata da escultura. Além disso, comparações com exemplos da arte medieval europeia podem esclarecer seu estilo e possíveis influências. Noble observa que o rosto lembra representações humanas encontradas em manuscritos iluminados do início da Idade Média, sugerindo um elo entre tradições pictas e outras correntes artísticas da época.
O significado do achado, contudo, vai além da estética. Caso seja confirmado como um rosto humano, o fragmento pode refletir modos locais de expressar identidade picta. “O rosto sugere que os pictos aqui estavam fazendo esculturas mais convenientes, talvez algo para os membros da família que moram no local, em vez de exibição pública como as pedras símbolo pictas mais famosas”, explica.