Rosa e Azul: A história chocante e dolorosa das meninas do quadro de Renoir

A partir de célebre pintura de Renoir, novo livro revela como riqueza e prestígio não impediram o impacto do Holocausto na França, com trajetória brutal de irmãs retratadas

'Rosa e Azul' e antiga fotografia de Renoir / Crédito: Getty Images / Domínio Público

Em 1881, Pierre-Auguste Renoir pintou o retrato de duas meninas em vestidos claros, sentadas lado a lado em um interior elegante. A imagem, conhecida hoje como ‘Les Filles de Catulle Mendès’ — ‘Rosa e Azul’ no Brasil, ou, de forma mais popular, ‘As garotas de Renoir’ — parece condensar um ideal de serenidade, infância e estabilidade social. É desse ponto de partida que Catherine Ostler constrói em seu novo livro, ‘The Renoir Girls’, uma narrativa que atravessa décadas de esplendor, assimilação social, antissemitismo e guerra para mostrar como a história pode corroer, de forma brutal, a aparência de permanência.

O centro do livro é a família Cahen d’Anvers, uma poderosa dinastia judaica de banqueiros inserida no coração da elite parisiense do fim do século 19. O pai, Louis, representa prestígio financeiro e respeitabilidade pública; a mãe, Louise, ocupa posição destacada na vida social da capital francesa, reunindo em seus círculos artistas, escritores e aristocratas. Nesse universo, arte, dinheiro e poder se reforçam mutuamente, compondo um ambiente em que o refinamento cultural parecia inseparável da segurança social.

Foi nesse contexto que Renoir, ainda consolidando sua reputação, recebeu a encomenda do retrato das irmãs Cahen d’Anvers. A pintura surgiu em um momento em que a França buscava reconstruir sua identidade após o trauma da Guerra Franco-Prussiana. Paris se reafirmava como capital cultural da Europa, enquanto a Belle Époque avançava como símbolo de modernização, prosperidade e confiança. Famílias judaicas como os Cahen d’Anvers, os Ephrussi e os Camondo participavam ativamente desse processo: financiavam arte, colecionavam obras, patrocinavam salões e ocupavam papel central na vida intelectual do país.

Mas, sob a superfície desse mundo sofisticado, havia um elemento de instabilidade. A posição dessas famílias dependia, em grande medida, de sua assimilação à sociedade francesa — um pertencimento que nunca era totalmente garantido. “Acho que sempre houve essa sensação de fragilidade”, diz Catherine Ostler a Guy Walters, do Independent, “mas houve uma tentativa de afastá-la acumulando, comprando e restaurando sinais visíveis de ‘francesidade’. Havia um jornal inteiro dedicado a ser grosseiro com os judeus, e um dos temas recorrentes era criticar os judeus ricos que compravam castelos franceses. Isso era muito mal recebido.”

A força do livro está justamente em transformar esse pano de fundo histórico em drama humano, acompanhando os destinos das três irmãs retratadas: Irène, Elisabeth e Alice. Embora tenham nascido no mesmo ambiente de privilégio, suas trajetórias acabariam profundamente marcadas pelas transformações políticas e sociais da França.

Trabalhadores deportados da França após retornarem para casa / Crédito: Getty Images

Irmãs Cahen d’Anvers

Irène, a mais velha, segue inicialmente o caminho mais previsível para uma mulher de sua posição. Casa-se com um membro da família Camondo, outra influente linhagem judaica de banqueiros, e permanece inserida no universo de luxo e estabilidade em que cresceu. Sua vida, à primeira vista, confirma a promessa de continuidade social que o retrato de Renoir parecia anunciar.

No entanto, essa estabilidade revela-se ilusória: sua filha Béatrice e os filhos dela seriam deportados e assassinados durante o Holocausto. O que antes parecia oferecer proteção — riqueza, prestígio, integração social — mostrou-se incapaz de resistir à radicalização política.

Elisabeth, retratada em azul, teve uma vida menos visível socialmente. Com o passar dos anos, afastou-se do centro da vida parisiense e acabou se convertendo ao catolicismo. A decisão pode ser lida como uma tentativa de redefinir sua identidade e se distanciar de sua origem. Já idosa, passou a viver de forma discreta na zona rural francesa; mas, ainda assim, esse recolhimento não a salvou.

Em janeiro de 1944, Elisabeth foi presa em uma pequena vila, em uma cena que Catherine Ostler reconstrói como um dos momentos mais devastadores do livro. Idosa, fragilizada e incapaz de andar sem ajuda, ela foi levada pelas autoridades e absorvida pela máquina da deportação. Sua conversão, seu anonimato e sua idade não alteraram o desfecho. O caso se torna símbolo da violência de um sistema em que as categorias impostas pelo Estado eram absolutas.

Alice, a irmã mais nova — de rosa na pintura —, teve um destino distinto. Ao se casar com um aristocrata inglês, tornou-se Alice Townshend e passou a viver em grande parte fora da França. A combinação entre casamento, deslocamento geográfico e transformação de sua identidade social a colocou à margem imediata da tragédia que atingiria suas irmãs. Ela sobreviveu à guerra, tornando ainda mais evidente o contraste entre vidas que tiveram origem comum, mas finais radicalmente diferentes.

Fissuras na sociedade francesa

Ao redor dessas histórias individuais, Ostler costura o contexto político da França moderna. O caso Dreyfus affair aparece como um momento decisivo para expor o antissemitismo latente no país. A condenação injusta de Alfred Dreyfus revelou fissuras profundas na sociedade francesa e desmontou a ilusão de segurança plena para famílias judaicas integradas à elite.

Como resume Ostler: “Não acho que a França tenha se recuperado completamente. Parece que sempre houve essas divisões na França sobre se deveria ser uma monarquia ou uma república, esquerda ou direita, católica ou laica, e depois há a questão extremamente controversa da imigração e das atitudes em relação aos judeus. Se você quiser um exemplo claro dessa longevidade da divisão, basta olhar para o prefeito da cidade de onde Elisabeth foi deportada para Auschwitz, que vinha de uma família extremamente anti-Dreyfus.”

A Primeira Guerra Mundial trouxe, por um breve período, a sensação de unidade nacional. Integrantes da família serviram, lutaram e se feriram. Mas esse sentimento se dissolveu nas décadas seguintes. A derrota francesa em 1940 e a ascensão do regime de França de Vichy escancararam a participação ativa de autoridades locais na perseguição aos judeus. O livro mostra que a tragédia não foi apenas produto da ocupação nazista, mas também da colaboração interna.

Parisienses segurando bandeira nazista em 1944 / Crédito: Getty Images

Ostler baseia sua narrativa em cartas, arquivos familiares e entrevistas com descendentes, compondo um retrato fragmentado, porém poderoso. “Encontrar todo o material foi um processo difícil, como você bem sabe”, diz Ostler, “e você tem que se virar com o que consegue. Algumas coisas, claro, você nunca vai saber. Eu tenho muitos patches, e também tive um daqueles momentos incríveis quando uma neta de 94 anos mandou trazer um baú do porão de sua casa em Kensington, e estava cheio de cartas e diários.”

No fim, o livro transforma o retrato de Renoir em algo mais do que um símbolo de beleza: ele passa a representar a fragilidade das certezas históricas. As meninas continuam imóveis na tela, serenas e luminosas, como se nada pudesse tocá-las. Mas, para quem conhece o que viria depois, a pintura deixa de ser apenas um retrato da infância privilegiada e se torna registro de um instante efêmero antes da ruptura.

Resgatando uma história familiar

Essa tensão entre beleza e tragédia também explica a força contemporânea do livro. Ao revisitar a trajetória das irmãs Cahen d’Anvers, Ostler não apenas reconstrói uma história familiar, mas também reflete sobre permanência do preconceito e da ignorância histórica.

“Fiquei horrorizada com o fato de esses temas ainda serem tão relevantes hoje em dia”, diz Ostler. “Todos nós lemos sobre tropos antissemitas e, meu Deus, eles persistem, como os tropos dos Rothschild e a acusação de assassinato ritual. E o que também me choca é a ignorância, e o fato de as pessoas serem tão ignorantes desses tropos é chocante por si só, pois demonstra uma completa falta de conhecimento histórico, e isso é um problema enorme.”

Ao devolver movimento e consequência à imagem pintada por Renoir, Catherine Ostler revela tudo aquilo que existia além da moldura: o peso do tempo, a vulnerabilidade da identidade e a rapidez com que um mundo aparentemente sólido pode se desfazer.

E, como a própria autora resume ao falar da obra: “As pessoas costumam dizer que essas pinturas são clichês”, diz Ostler, “porque são tão familiares e reproduzidas com tanta frequência. Mas quando você a vê pessoalmente, é muito diferente, principalmente por causa do tamanho, e você consegue perceber como ela é lindamente pintada e construída. Muitas pessoas adoram a pintura porque, sim, ela é muito bonita, e você vê muitas meninas tirando fotos ao lado dela. E aí você tem aqueles que sabem o que aconteceu com Elisabeth, e quando você olha para a pintura, ainda custa a acreditar.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.