Quando passageiros foram sugados para fora de um avião

Em 24 de fevereiro de 1989, passageiros que partiam de Honolulu com destino a Auckland foram sugados junto com seus assentos para fora de uma aeronave

A aeronave envolvida na tragédia - Crédito: Divulgação/National Transportation Safety Board (NTSB)

Na madrugada de 24 de fevereiro de 1989, passageiros de um voo que cruzava o Pacífico viveram um verdadeiro filme de terror. A aeronave em questão pertencia à United Airlines e havia partido de Honolulu, no Havaí, com destino a Auckland, na Nova Zelândia, como parte de uma rota maior entre Los Angeles e Sydney. A bordo estavam 337 passageiros e 18 tripulantes.

Curiosamente, um dos viajantes, o advogado americano Bruce Lampert, trabalhava representando vítimas de acidentes aéreos. Ele viajava em suas primeiras férias em três anos e planejava passar o trajeto dormindo.

Um estrondo repentino

Os primeiros 17 minutos transcorreram normalmente. A subida foi suave, o serviço de bordo ainda nem havia começado, e o avião seguia estável. Mas logo um estrondo metálico foi ouvido pelos passageiros.

De repente, a gente passou de uma situação em que tudo estava perfeitamente normal para tudo terrivelmente errado. Em um nanossegundo houve uma explosão, uma descompressão, e tudo o que não estava preso ao chão ou a um assento estava suspenso no ar. Eu lembro de ver o lustre que ficava pendurado em cima da escada que levava para a primeira classe, no andar superior, sendo arrancado”, lembrou Lampert em declaração dada ao programa Witness History, da BBC, no ano de 2012.

Para desespero de todos, a porta dianteira do compartimento de carga havia se aberto em pleno voo. O impacto arrancou parte da fuselagem, abrindo um buraco gigantesco no lado direito da aeronave. A diferença de pressão entre o interior da cabine e o exterior, rarefeito a grande altitude, produziu um efeito brutal: passageiros foram sugados para fora junto com seus assentos.

O cenário dentro do avião era caótico. O vento atravessava os corredores com violência ensurdecedora e alguns sobreviventes relataram ter visto pessoas desaparecerem subitamente. O pânico se espalhou entre passageiros e tripulantes, muitos convencidos de que haviam sido vítimas de um atentado. E não era sem motivo. Apenas dois meses antes, o mundo havia assistido à destruição de um jato sobre Lockerbie, na Escócia, após a explosão de uma bomba que matou 270 pessoas.

Assim ficou o interior da aeronave – Crédito: Cortesia de Bruce Lampert

O piloto reage

Enquanto isso, na cabine de comando, o experiente capitão David Cronin reagia rapidamente. Com mais de três décadas de carreira e próximo da aposentadoria, ele precisou tomar decisões em segundos. A prioridade era levar a aeronave a uma altitude mais baixa, onde o ar fosse respirável, já que a cabine não conseguia mais manter a pressurização adequada.

O avião desceu para cerca de quatro mil metros, manobra que ajudou a estabilizar a situação para os sobreviventes. Mesmo assim, apenas dois dos quatro motores continuavam operando, e parte das superfícies de controle das asas havia sido danificada. Cronin decidiu retornar imediatamente a Honolulu. Era uma corrida contra o tempo.

Dentro da cabine, o barulho começou a diminuir à medida que a aeronave estabilizava. Passageiros, ainda em choque, agarravam-se uns aos outros. Muitos, inclusive pensavam em seus familiares, acreditando que aqueles seriam seus últimos momentos.

Àquela altura, o aeroporto já estava preparado para a emergência e equipes de resgate aguardavam o avião na pista. As condições eram terríveis e, sem todos os flaps funcionando e com potência reduzida, a aeronave precisou pousar em velocidade maior que a habitual. Ainda assim, Cronin conseguiu manter o controle e realizar o pouso cerca de 21 minutos após a explosão.

Para os passageiros, foi indescritível o alívio ao perceber o contato das rodas com o solo. A evacuação ocorreu rapidamente, e em questão de 45 segundos todos os sobreviventes haviam deixado o avião.

Um enorme estrago

Do lado de fora, os sobreviventes puderam visualizar a dimensão do estrago na aeronave. O rombo na fuselagem era colossal e se estendia do compartimento de carga até as janelas do convés superior.

O balanço final foi devastador: oito passageiros haviam sido arrancados do avião com seus assentos e lançados ao mar. Um nono foi sugado e acabou atingido por um dos motores. Apesar das buscas intensas, nenhum dos corpos foi encontrado.

O capitão Cronin foi posteriormente homenageado por sua atuação decisiva, sendo considerado responsável direto por salvar centenas de vidas. Ele faleceu em 2010, aos 81 anos de idade.

No fim, as investigações concluíram que o acidente não havia sido causado por bomba, mas por uma falha elétrica que permitiu a abertura indevida da porta de carga. O problema levou a mudanças técnicas e operacionais para evitar repetição do evento. Após reparos e modificações, a aeronave voltou a operar menos de um ano depois.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.