Os vestígios encontrados na Inglaterra que podem ser evidência mais antiga de domínio do fogo
Conjunto de evidências indica que neandertais teriam acendido e mantido uma fogueira no sítio arqueológico de East Farm há cerca de 400 mil anos

Escavações em um sítio arqueológico conhecido como East Farm, localizado no leste da Inglaterra, revelaram algo que pode alterar a forma como entendemos o processo do domínio do fogo pelos hominídeos. Um conjunto de evidências, entre as quais estão camadas de silte avermelhado, machados de mão de pederneira deformados pelo calor e fragmentos de pirita de ferro, aponta para a possibilidade de que um grupo antigo de neandertais tenha acendido e mantido uma fogueira no local há cerca de 400 mil anos.
“Em mais de 36 anos de trabalho de campo e estudos geológicos na região, nunca encontramos pirita antes”, afirma Nick Ashton, arqueólogo do Museu Britânico e autor sênior do estudo publicado na revista Nature em 10 de dezembro. “E agora, a única vez que a encontramos é ao lado de machados de mão quebrados pelo calor e sedimentos assados.” Para Ashton, essa coincidência dificilmente pode ser explicada como resultado de processos naturais.
Apesar de o conjunto de indícios ser robusto, identificar o uso intencional do fogo por humanos tão antigos é um desafio. Os vestígios deixados por incêndios naturais e por fogueiras controladas costumam ser muito semelhantes no registro arqueológico. Ainda assim, se a interpretação se confirmar, o achado de East Farm empurraria para trás em mais de 350 mil anos a data mais antiga conhecida de produção deliberada de fogo e reforçaria a ideia de que os neandertais dominaram as chamas de forma independente, sem influência do Homo sapiens.
O local da descoberta
Localizado a cerca de 110 quilômetros a nordeste de Londres, próximo à vila de Barnham, o sítio de East Farm é conhecido pela arqueologia há mais de um século, sendo que escavações iniciais já haviam revelado ferramentas de pedra com mais de 400 mil anos, pertencentes ao Paleolítico Inferior.
Segundo o portal National Geographic, acredita-se que, naquele período, grupos de caçadores-coletores de hominídeos primitivos — possivelmente Homo heidelbergensis — ocupavam a região e que a Grã-Bretanha ainda estava conectada ao continente europeu por uma extensa ponte terrestre, conhecida como Doggerland. Para Ashton, East Farm pode representar os restos de um acampamento sazonal utilizado repetidamente ao longo do tempo.
Outros sítios pré-históricos próximos também apresentam sinais de fogo antigo, mas, até agora, os pesquisadores não conseguiram determinar se esses incêndios foram provocados intencionalmente ou se resultaram de queimadas naturais. Sabe-se que hominídeos como o Homo erectus já se beneficiavam de incêndios florestais há mais de um milhão de anos, capturando e preservando chamas para uso temporário. O diferencial de East Farm, segundo Ashton, está na presença dos fragmentos de pirita de ferro, que sugerem um método ativo de produção de fogo.

Mineral que produz faíscas
A pirita é um mineral composto por dissulfeto de ferro. Quando golpeada contra pederneira, produz faíscas intensas capazes de inflamar materiais altamente combustíveis, como raspas de madeira ou certos tipos de fungos secos. Embora a pirita possa se formar naturalmente no solo, o coautor do estudo Andrew Sorensen, especialista em fogo pré-histórico da Universidade de Leiden, ressalta que, em East Farm, esse mineral costuma ocorrer a centenas de metros de profundidade. “Não se conhecem afloramentos com pirita ou depósitos geológicos nesta região, o que sugere que foram trazidos por hominídeos.”
Outras análises reforçam essa interpretação. Alterações no geomagnetismo dos sedimentos ao redor da suposta lareira indicam que o fogo foi aceso repetidas vezes no mesmo local. Exames por espectroscopia infravermelha revelaram que os sedimentos foram aquecidos a temperaturas superiores a 700 °C. Além disso, foram identificados hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, compostos químicos tipicamente formados pela queima de madeira. “Todas essas coisas contribuem para nossa compreensão de que não foi um incêndio natural”, afirma Ashton.
Importância do fogo
O controle do fogo é considerado um dos grandes pontos de inflexão da história humana. Além de fornecer calor, luz e proteção contra predadores, o elemento permitiu o cozimento dos alimentos, com impactos profundos na dieta, na biologia e na organização social.
Para Rob Davis, arqueólogo do Museu Britânico e autor principal do estudo, essa habilidade teria influenciado as evoluções tanto biológica quanto social dos hominídeos, além de possibilitar a ocupação de ambientes mais frios e hostis.
Até agora, as evidências mais antigas amplamente aceitas de produção deliberada de fogo associadas aos neandertais vinham de sítios na França com cerca de 50 mil anos. Como o Homo sapiens já habitava a Europa nesse período, muitos pesquisadores sugeriam que os neandertais teriam aprendido a técnica com nossa espécie. Os achados de East Farm, no entanto, antecedem em pelo menos 100 mil anos o surgimento do Homo sapiens na África, indicando que o domínio do fogo pode ter sido uma herança compartilhada entre linhagens humanas.
Ainda assim, nem todos estão plenamente convencidos. Wil Roebroeks, arqueólogo da Universidade de Leiden e especialista no uso pré-histórico do fogo, considera a descoberta relevante, mas acredita que os autores extrapolam algumas conclusões. Outros, como Dennis Sandgathe, da Simon Fraser University, acreditam se se trata de um estudo promissor, embora alertem que, mesmo se confirmado, o uso do fogo nessa época provavelmente era extremamente raro.