Os pronomes do inglês medieval que acabaram se perdendo com o tempo
De "wit" a "git": conheça os pronomes outrora utilizados mas que acabaram desaparecendo da língua inglesa

Narrativas escritas há cerca de mil anos revelam um conjunto fascinante de pronomes do inglês que hoje não são mais utilizados. Esses termos expressavam algo particular na forma como as pessoas concebiam a ideia de “duidade”.
Se você fosse se referir a si mesmo, diria “I” (“eu”), no singular. Para falar de si e de outras pessoas, usaria “us” (“nós”), no plural. Mas e quando a referência envolve apenas você e mais uma pessoa?
No inglês atual, não há um pronome específico para isso. Geralmente se recorre a “us” ou a expressões como “us two” ou “the two of us”. No entanto, há mais de mil anos, existia uma palavra própria para esse uso: “wit“.
Esse termo, usado de maneira quase íntima para designar duas pessoas juntas, fazia parte de um sistema mais amplo de pronomes que acabou sendo transformado ou abandonado ao longo de profundas mudanças sociais e políticas. Com o tempo, o inglês se simplificou, mas essa simplificação também eliminou nuances, abrindo espaço para ambiguidades.
Como o portal BBC explica, “wit” significava literalmente “nós dois” no inglês antigo, idioma germânico falado na Inglaterra até cerca do século 12. Ele integrava a chamada forma dual, que incluía também termos como “uncer” ou “unker” (o “nosso” de duas pessoas) e “git” (“vocês dois”). No entanto, essa categoria desapareceu por volta do século 13.
História própria
Segundo o professor Tom Birkett, especialista em inglês antigo e nórdico antigo da University College Cork, os pronomes carregam uma história própria, marcada por invasões, como as vikings e normandas, e por transformações culturais que moldaram a linguagem.
Apesar dessas mudanças, muitos pronomes do inglês antigo sobreviveram quase intactos ao longo de mais de mil anos, como “he”, “we”, “us”, “our”, “me” e “mine”. Outros passaram por pequenas alterações. É o caso de “hit”, que perdeu o “h” e se tornou “it”, e de “ic”, que evoluiu para “I”.
O mesmo não vale para a forma dual, que acabou sendo abandonada. Ainda assim, ela aparece com frequência em textos antigos, especialmente na poesia. Um exemplo é o poema “Wulf e Eadwacer|”, em que uma mulher lamenta a separação de seu amante. No verso final, a expressão utilizada “uncer giedd” transmite a ideia de “a canção de nós dois”, evocando uma ligação íntima e exclusiva.
Esse uso reforça a carga emocional do dual, frequentemente associado à proximidade entre duas pessoas. No épico “Beowulf”, por exemplo, o dual surge em uma passagem em que dois guerreiros enfrentam juntos os perigos do mar.
Embora a forma dual tenha sobrevivido por algum tempo após a conquista normanda de 1066, ela acabou fatalmente caindo em desuso, sendo que um de seus últimos registros aparece em “Havelok, o Dinamarquês”, por volta de 1300.

Tendência à simplificação
Embora ainda exista em idiomas como o árabe, o desaparecimento do dual no inglês pode ser explicado por uma tendência geral à simplificação. Como o plural “nós” também pode indicar duas pessoas, manter uma forma específica talvez tenha deixado de ser necessário.
Outros pronomes também foram substituídos ao longo do tempo. “She”, por exemplo, parece ter surgido da fusão de formas antigas como “heo”” e ‘seo”. Já “they”, junto com “them” e “their”, foi incorporado do nórdico antigo, trazido pelos vikings, e acabou substituindo o antigo “hie”, possivelmente por oferecer maior clareza, já que este último podia significar tanto “eles” quanto “ela”. Com o passar dos séculos, “they” também passou a ser usado no singular, uma prática já registrada no século 14 em textos como os de Geoffrey Chaucer.
Também vale destacar uma outra mudança importante ocorrida após a influência do francês normando: o uso de “you” tanto para o singular quanto para o plural. A verdade é que, até então, o inglês distinguia “thou” (singular) e “ye” (plural), mas o uso de formas plurais como tratamento respeitoso acabou se generalizando, levando ao desaparecimento de “thou” e suas variações. Hoje, alguns dialetos ainda preservam distinções, como “ye” na Irlanda ou “youse” em partes da Escócia. No cotidiano, também surgem soluções informais como “you guys” ou “y’all”.
Relativamente estáveis
Apesar de tantas transformações, os pronomes permanecem relativamente estáveis em comparação com outras classes gramaticais. Eles ainda conservam marcas antigas, como as variações de caso (“he”, “him”, “his”), que desapareceram dos substantivos.
No inglês antigo, por exemplo, palavras como “cyning” (“rei”) mudavam conforme a função na frase. Por exemplo, “hē is cyning” está no caso nominativo e significa “ele é rei”, enquanto que “mid Þæm cyninge” está no caso dativo e significa “com o rei”.
Essa resistência ajuda a explicar por que os pronomes são considerados a base da língua. São usados o tempo todo, em qualquer contexto, o que contribui para sua permanência.