Os fragmentos de crânio humano primitivo encontrados debaixo d’água
Recente descoberta de dois fragmentos de crânio revelou que hominídeos se deslocaram por áreas da atual Indonésia hoje submersas

Durante um período glacial ocorrido há cerca de 140 mil anos, o nível do mar na região de Sundaland estava muito mais baixo do que hoje. Por esse motivo, as atuais ilhas da Indonésia se conectavam por extensas faixas de terra, formando uma paisagem de savanas abertas, cortadas por rios e cercadas por trechos de floresta. Nesse ambiente prosperavam diversas espécies, como crocodilos, tubarões de água doce, elefantes, hipopótamos, rinocerontes e grandes lagartos carnívoros. Além disso, esse cenário também favorecia a ocupação humana.
Durante muito tempo, acreditou-se que o Homo erectus estivesse restrito à ilha de Java. No entanto, a descoberta recente de dois fragmentos de crânio, recuperados do fundo do mar durante obras de dragagem, revelou que esses hominídeos se deslocaram por áreas hoje submersas, utilizando antigas pontes de terra para se espalhar pela região.
Embora a espécie tenha sido inicialmente identificada em Java, onde ficou conhecida como “Homem de Java”, até então não havia registros fósseis no leito marinho entre ilhas como Java, Bali, Sumatra e Bornéu. Logo, a nova evidência sugere que esses grupos humanos ocuparam áreas próximas a antigos rios, que forneciam água e alimento em abundância.
Condições ideais
Segundo o arqueólogo Harold Berghuis, que liderou o estudo, o ambiente do Pleistoceno Médio na região oferecia condições ideais para a sobrevivência. Como mencionou uma matéria do portal Popular Mechanics, rebanhos de herbívoros e grupos humanos dependiam desses rios permanentes, que funcionavam como verdadeiros eixos de vida nas planícies.
Nesses locais, os hominídeos encontravam uma ampla variedade de recursos: árvores frutíferas garantiam alimento constante, enquanto rios e áreas costeiras ofereciam peixes e outros organismos aquáticos. Há indícios, inclusive, de que esses grupos utilizavam conchas de moluscos como ferramentas — possivelmente o registro mais antigo desse tipo de uso —, além de realizarem gravações nelas.
Hábitos de caça
Os pesquisadores também destacam que os vestígios mostram hábitos de caça. Afinal, ossos de tartarugas e de animais semelhantes a bovinos apresentam marcas de corte e fraturas, indicando o consumo de carne e de tutano. Embora espécies humanas mais recentes, como neandertais e denisovanos, já fossem conhecidas por caçar grandes mamíferos, essa evidência levanta a possibilidade de que técnicas de caça tenham sido compartilhadas entre diferentes grupos humanos, ou até que tenha havido algum grau de interação entre eles.
A configuração geográfica da época também permitia a circulação de animais entre o continente e as ilhas. Espécies como o hipopótamo asiático, hoje extinto, e o dragão-de-Komodo conseguiam se dispersar por essas áreas conectadas, de modo a ampliar a diversidade da fauna local.
Um marco importante
Do ponto de vista evolutivo, o Homo erectus representa um marco importante, destacam os especialistas envolvidos na descoberta. Essa espécie já apresentava características físicas mais próximas das dos humanos modernos, como maior estatura, pernas mais longas e braços proporcionalmente menores, adaptações que favoreciam deslocamentos mais rápidos e eficientes, além de possivelmente melhorar suas habilidades de caça. O aumento do tamanho corporal também estava associado a cérebros maiores — mais de 50% superiores aos dos australopitecos, embora ainda menores do que os do Homo sapiens.
Para os pesquisadores, a descoberta é especialmente relevante porque o período em questão foi marcado por grande diversidade e mobilidade entre populações humanas. Além disso, esses novos fósseis ajudam a preencher lacunas sobre como esses grupos se distribuíam e interagiam em ambientes hoje desaparecidos.
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