O mistério do navio Mary Celeste, abandonado há 153 anos sem qualquer problema aparente
Encontrado à deriva e sem sua tripulação em 5 de dezembro de 1872, o navio Mary Celeste se tornou um dos maiores enigmas da história marítima

Em 5 de dezembro de 1872, o capitão do brigue britânico Dei Gratia, David Morehouse, avistou no Atlântico um navio à deriva, balançando no mar revolto, sem ninguém no convés. Aproximando-se com cautela, reconheceu a embarcação: era o Mary Celeste, que havia partido de Nova York oito dias antes dele e que, em teoria, já deveria ter alcançado Gênova, na Itália. Morehouse imediatamente mudou o rumo para oferecer ajuda, sem imaginar que estava prestes a entrar em um dos maiores enigmas da história marítima.
A equipe enviada ao Mary Celeste encontrou um cenário no mínimo inquietante. No convés inferior, mapas revirados, pertences dos tripulantes em seus lugares e um navio plenamente abastecido, com comida e água suficientes para seis meses. A carga de 1.701 barris de álcool industrial estava praticamente intacta. Mas havia sinais de algo errado. O único bote salva-vidas desaparecera, uma das bombas de esgoto estava desmontada e três pés e meio de água balançavam no porão. Nada que justificasse o abandono — e, no entanto, ninguém estava ali.
Assim nascia o mistério que atravessaria séculos: o que aconteceu com as dez pessoas a bordo do Mary Celeste? Ao longo do tempo, a falta de respostas concretas alimentou especulações que iam de motim a pirataria, até mesmo criaturas marinhas. Em 1884, Arthur Conan Doyle popularizou o caso com um conto fantasioso, e Hollywood adicionou ainda mais drama anos depois. Por muito tempo, faltou investigação real. Então, mais de um século depois, a documentarista Anne MacGregor decidiu retomar o caso.
O mistério do navio
A fatídica viagem da Mary Celeste começou em 7 de novembro de 1872, com sete tripulantes, o capitão Benjamin Spooner Briggs, sua esposa Sarah e a filha do casal, Sophia, de apenas 2 anos. De acordo com o portal Smithsonian, durante duas semanas, o bergantim enfrentou mau tempo até chegar aos Açores. A última entrada do diário de bordo foi registrada às 5h de 25 de novembro.
Quando o Dei Gratia rebocou o navio até Gibraltar, a audiência de salvamento deveria ter sido simples, mas o procurador-geral Frederick Solly-Flood desconfiou de crime. Foram mais de três meses de investigação, sem achar prova de violência. A tripulação do Dei Gratia recebeu apenas um sexto do valor devido pelo salvamento, sinal de que a autoridade ainda tinha dúvidas.
O caso poderia ter desaparecido com o tempo se não fosse o impacto cultural que ganhou, especialmente após o texto de Conan Doyle. Quando Anne MacGregor decidiu revisitar tudo em 2002, encontrou uma história coberta por camadas de mitos.
Com o objetivo de encontrar respostas, ela descartou primeiro o impossível. Monstros marinhos? Piratas? Improvável, dada a integridade do navio. A teoria do motim também caiu por terra. Após entrevistar descendentes dos tripulantes, ela descartou qualquer comportamento violento ou indisciplina. A hipótese de vapor de álcool causando uma explosão também não se sustentava, já que a escotilha principal estava fechada e não havia cheiro de fumaça. Os poucos barris vazios eram de carvalho vermelho, madeira mais porosa, portanto naturalmente propensa a vazamentos.
A chave estava em entender por que um capitão experiente e respeitado como Briggs abandonaria um navio que não estava prestes a afundar. Para isso, era preciso descobrir onde ele realmente estava no momento da decisão.
Analisando pistas
As transcrições da lousa de navegação — onde os registros eram anotados antes de irem para o diário — indicavam que, na manhã de 25 de novembro, o Mary Celeste estava a apenas seis milhas da ilha de Santa Maria, nos Açores. Já a tripulação do Dei Gratia afirmou ter encontrado o navio cerca de 400 milhas a leste dez dias depois.
MacGregor então pediu que Richardson reconstruísse o trajeto entre esses dois pontos. Ele explicou que precisaria de dados de vento, correntes e temperatura da água. As informações foram obtidas no banco ICOADS, que reúne registros marítimos desde o século 18. Com esses dados, a documentarista, seu marido Scott e Richardson calcularam se o Mary Celeste poderia realmente ter derivado sozinho durante esses dez dias.
Com isso em mãos, MacGregor concluiu que a ordem de abandono provavelmente ocorreu na manhã de 25 de novembro, quando o navio estava à vista da terra. Santa Maria era o último ponto seguro antes de centenas de milhas de oceano aberto. Fazia sentido considerar que, se Briggs pretendia alcançar algum abrigo, aquele era o momento.
Nesse ponto, as anotações do procurador-geral Solly-Flood tornaram-se fundamentais. Elas foram a base para que MacGregor e Richardson reavaliassem as posições do navio à luz dos dados do ICOADS. Foi então que descobriram: Briggs estava, na verdade, cerca de 120 milhas a oeste do local que acreditava estar, provavelmente por causa de um cronômetro impreciso. Pelos cálculos equivocados, ele esperava avistar terra três dias antes.
No mar agitado
Outra observação de Solly-Flood reforçou a hipótese: no dia anterior ao avistamento real dos Açores, Briggs havia alterado o rumo e seguido ao norte da ilha de Santa Maria, possivelmente buscando abrigo diante de condições adversas.
E essas condições eram severas. Na noite anterior à última entrada no diário, o Mary Celeste enfrentou mar agitado e ventos superiores a 35 nós. Porém, como nota MacGregor, nem mesmo isso explicaria, por si só, o abandono de um navio sólido por um capitão experiente. Faltava um elemento decisivo.
Esse elemento surgiu quando MacGregor investigou a história do navio. Na viagem anterior, o Mary Celeste transportara carvão e, pouco antes da tragédia, fora reformado. É provável que poeira de carvão e resíduos de obras tenham obstruído e danificado as bombas, o que justificaria a bomba desmontada encontrada pela equipe do Dei Gratia. Sem elas, Briggs não tinha como medir a quantidade exata de água que entrava no casco.
Diante disso, MacGregor acredita que Briggs, enfrentando dias de mau tempo, enxergando terra mais tarde do que deveria e sem conseguir saber se o navio estava sendo tomado pela água, tomou a decisão mais prudente que um capitão responsável poderia imaginar: abandonar o Mary Celeste.