O indivíduo que foi atingido por flecha há 4 mil anos e sobreviveu
Homem que viveu nos Pirineus espanhóis há mais de 4 milênios foi ferido por flecha durante um confronto com um clã rival e sobreviveu

Uma ponta de flecha de sílex encontrada incrustada na costela de um indivíduo que viveu nos Pirineus espanhóis há mais de 4 mil anos provavelmente foi disparada durante um confronto com um clã rival. É o que dizem pesquisadores que estudam o caso.
“É uma evidência direta de um episódio de conflito violento”, aponta Carlos Tornero, líder da equipe que recuperou o osso em uma caverna a cerca de 1.800 metros de altitude, próxima à fronteira entre Espanha e França. A descoberta foi anunciada em 8 de julho.
O local, conhecido como Roc de les Orenetes (“Rocha das Andorinhas”, em catalão), já havia revelado milhares de ossos humanos em escavações anteriores. Muitos apresentavam fraturas e marcas de cortes atribuídas a armas da Idade do Bronze inicial, como lanças com pontas de pedra, flechas, machados e punhais de cobre ou bronze — e estudos publicados no ano passado apontaram que essas lesões eram fruto de embates entre grupos. A nova descoberta reforça essa conclusão.
“Esta descoberta extraordinária é uma prova direta e confirma nossa hipótese inicial”, diz Tornero, que é arqueólogo da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e pesquisador do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA), segundo o portal National Geographic.
Grupo rival
Não se sabe exatamente quem disparou a flecha, mas a equipe acredita que foi obra de um grupo inimigo que travou uma disputa violenta contra aqueles que, mais tarde, foram enterrados na caverna. O motivo? Possivelmente por território ou recursos. Os episódios de violência teriam ocorrido entre os anos de 2550 e 2150 a.C.

Segundo Tornero, as vítimas pertenciam, provavelmente, a um único clã de agricultores, enquanto os agressores poderiam ser caçadores nômades. O disparo atingiu o indivíduo pelas costas, penetrando a caixa torácica abaixo da omoplata.
Sem dúvida, a pessoa que foi atingida tinha pouca capacidade de reagir a tempo de evitá-lo”, comenta o arqueólogo.
Sinais de cicatrização
Quase todas as pontas de flecha encontradas no local, diz ele, estavam cravadas no corpo das pessoas ali sepultadas. No entanto, nesse caso específico, a costela apresenta sinais de cicatrização, o que indica que o atingido sobreviveu por um longo período após o ataque.
Descoberta em 1969, Roc de les Orenetes já revelou restos de cerca de 60 indivíduos, muitos deles com marcas de combate, embora apenas um terço do sítio tenha sido escavado.
Para Tornero, a ponta de flecha localizada recentemente é mais uma prova dos conflitos sangrentos da pré-história e um indício de que aqueles que repousam na caverna nem sempre foram apenas vítimas, mas também autores de violência mortal.