A Bela e o Bester: A história real do documentário da Netflix
Thabo Bester enganou autoridades, fingiu sua morte e viveu em liberdade ao lado de uma médica famosa antes de ser recapturado

Thabo Bester, conhecido na África do Sul como o “estuprador do Facebook”, construiu sua reputação criminosa atraindo mulheres pela internet com falsas promessas de emprego.
Charmoso e manipulador, foi condenado em 2011 por estupro e roubo, e no ano seguinte recebeu prisão perpétua pelo assassinato da modelo Nomfundo Thyulu, sua então namorada.
Apesar da pena, Bester nunca demonstrou remorso. Segundo o psicólogo forense Gerard Labuschagne, que o entrevistou em 2011, ele sempre exibiu sinais de manipulação e frieza: “É uma pessoa que nunca mudou e que piorou ao longo do tempo”.
Agora, sua história é contada no novo minidocumentário da Netflix, ‘A Bela e o Bester’ — ou ‘Os Crimes de Bester e Nandipha’, que estreou nos últimos dias.
Enganando todos
Na madrugada de 3 de maio de 2022, um incêndio em uma cela de isolamento no Centro Correcional de Mangaung parecia ter encerrado a história de Bester. As autoridades anunciaram que o preso havia se suicidado, deixando para trás um corpo carbonizado.
Mas os exames de autópsia revelaram outra realidade. O cadáver apresentava traumatismo craniano, não havia inalado fumaça e exalava cheiro de acelerante químico, sugerindo que já estava morto antes do fogo. Pouco depois, descobriu-se que o corpo fora contrabandeado para dentro da prisão, usado como peça central em um plano de fuga.
Vestido como carcereiro e aproveitando falhas na vigilância, Bester saiu do presídio pela escada de emergência, com ajuda de subornos e cumplicidade interna.
Enquanto autoridades sustentavam a versão da morte, Bester levava uma vida de luxo em Joanesburgo, sob nova identidade, ao lado da dermatologista Nandipha Magudumana, de 35 anos.
Conhecida nas redes sociais por seu estilo glamoroso, viagens internacionais e vida de “supermãe”, ela visitava o criminoso desde 2017 e teria sido peça-chave no plano de fuga.
A agência de jornalismo investigativo GroundUp foi a primeira a desconfiar. Fotos obtidas por repórteres mostravam Bester fazendo compras em supermercados ao lado de Magudumana e seus filhos. A revelação abalou a narrativa oficial e expôs falhas gritantes na segurança da prisão administrada pela multinacional britânica G4S.
Escândalo e Incompetência
O caso não apenas indignou as vítimas de Bester, mas também levantou suspeitas de encobrimento. Uma comissão parlamentar ouviu depoimentos de autoridades segundo os quais a polícia e até o ministro da Justiça, Ronald Lamola, já sabiam da fuga em 2022, mas esconderam as informações por meses.
A G4S admitiu falhas graves, mas recusou-se a assumir total responsabilidade. Parte de seus funcionários foi demitida, e o governo assumiu o controle do presídio após o escândalo.
“Francamente, o que aconteceu é depravado”, afirmou Nathan Geffen, editor da GroundUp. “Os sul-africanos deveriam estar extremamente preocupados com a incompetência que permitiu isso”.
A captura
Com a pressão pública e a cobertura da mídia aumentando, autoridades intensificaram as buscas. Em abril de 2023, após meses de fuga, Bester e Magudumana foram presos em Arusha, na Tanzânia, durante uma operação conjunta entre polícia local, Interpol e empresas privadas de segurança. O casal carregava vários passaportes falsos e teria cruzado fronteiras de carro pela Zâmbia e pelo Zimbábue antes de chegar à Tanzânia.
De volta à África do Sul, Magudumana enfrenta acusações que incluem fraude e assassinato, relacionadas a três cadáveres supostamente usados no plano de fuga, entre eles o corpo encontrado na cela. No tribunal, sua imagem contrastou com o passado luxuoso: algemada e cabisbaixa, parecia frágil diante da multidão de jornalistas.
Já Bester, isolado em outro presídio de segurança máxima, manteve a postura fria. Na sua primeira audiência, encarou câmeras e fotógrafos sem demonstrar incômodo.
Para especialistas, seu caso levanta uma questão urgente: o sistema sul-africano não prevê prisão perpétua sem liberdade condicional. “Temos que aceitar que algumas pessoas não podem ser reabilitadas”, disse o Dr. Labuschagne. “Alguns indivíduos simplesmente nunca deveriam retornar à sociedade”.
Vulnerabilidade
O caso Thabo Bester é mais do que uma história de fuga espetacular. Ele escancarou vulnerabilidades de um sistema prisional falho, envolveu cumplicidade de autoridades e mostrou como um criminoso perigoso conseguiu viver livremente, sob identidades falsas, ao lado de uma parceira de prestígio.
Para as vítimas, cada manchete foi um lembrete doloroso. “Minha única oração é que ele permaneça na prisão e não machuque mais ninguém”, disse uma delas à BBC.
Enquanto isso, segundo a BBC, a África do Sul continua a lidar com a difícil questão: como garantir que criminosos como Bester nunca mais tenham a chance de escapar?
*Sob supervisão de Fabio Previdelli