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O estudo brasileiro sobre o Sudário de Turim

Em entrevista, Cícero Moraes detalha o experimento geométrico com o Sudário, que compara um corpo tridimensional com o baixo-relevo em tecido

O designer 3D Cícero Moraes realizou pesquisa sobre o Sudário de Turim que ganhou grande repercussão - Crédito: Getty Images; arquivo pessoal

O pesquisador brasileiro Cícero Moraes afirma que sua análise do Sudário de Turim parte de uma abordagem experimental direta: testar, de forma prática, qual modelo geométrico produz um padrão mais compatível com a imagem impressa no tecido. O resultado, segundo ele, favorece a hipótese de uma matriz em baixo-relevo — e não a impressão de um corpo humano tridimensional.

Em entrevista, Moraes explicou que estruturou o estudo a partir da simulação de dois cenários distintos de transferência de padrão para um tecido. No primeiro, utilizou um corpo humano tridimensional como matriz. O resultado, de acordo com o pesquisador, foi uma figura robusta, com deformações acentuadas — incompatíveis com a imagem observada no Sudário.

Quando um tecido envolve um corpo tridimensional, inevitavelmente surgem distorções anatômicas”, afirmou. “Essas deformações não aparecem na imagem do Sudário.”

No segundo cenário experimental, a transferência foi feita a partir de um baixo-relevo. Nesse caso, segundo Moraes, o padrão resultante apresentou maior coerência geométrica com a figura conhecida. A comparação entre os dois modelos, afirma, permitiu avaliar qual apresentava maior compatibilidade estrutural com o tecido histórico.

Sudário e arte medieval

Além da análise geométrica, Moraes argumenta que as proporções e a composição da figura impressa no Sudário dialogam com padrões consolidados na arte medieval. Ele cita um estilo que começa a se firmar a partir do século XI em gravuras e, no século XII, em esculturas em baixo-relevo — especialmente na chamada arte tumular.

Elementos como as mãos cruzadas sobre o corpo, a postura em decúbito dorsal e a rigidez composicional são, segundo ele, recorrentes nesse contexto artístico. “Há uma adaptação simbólica da figura ao indivíduo representado”, explicou.

Para o pesquisador, esses paralelos sugerem afinidade estética com modelos medievais, mais do que com a impressão direta de um corpo humano real. A rigidez estrutural observada na imagem do Sudário, argumenta, aproxima-se de convenções artísticas daquele período, nas quais a representação simbólica prevalecia sobre a fidelidade anatômica.

A imagem dorsal

Entre os pontos frequentemente citados por defensores da autenticidade corporal do Sudário está a presença de uma imagem dorsal — a parte posterior do corpo. Moraes considera que essa característica pode ser explicada por uma adaptação artística do mesmo modelo composicional aplicado à frente da figura.

imagem raio-x sudário
Rosto revelado no sudário de Turim – Getty Images

Segundo ele, a rigidez estrutural permanece na representação dorsal, sem as curvas anatômicas naturais esperadas de um corpo tridimensional real envolvido por tecido. “O problema geométrico fundamental continua presente”, afirmou. “Se o tecido tivesse sido efetivamente envolvido ao redor de um corpo, haveria deformações inevitáveis.”

Para Moraes, a ausência dessas distorções reforça a hipótese de uma matriz bidimensional ou em baixo-relevo como origem do padrão.

Debate com a sindonologia

Questionado sobre por que muitos sindonologistas defendem que o Sudário teria pertencido a Jesus, Moraes disse observar no campo uma tentativa de conciliar fé e explicação científica.

Na visão dele, o Sudário funciona, para parte dos pesquisadores que defendem sua autenticidade corporal, como uma possível evidência material de um evento considerado milagroso. Assim, seriam propostas hipóteses técnicas complexas para sustentar a origem a partir de um corpo humano.

Contudo, o pesquisador sustenta que a própria morfologia da figura apresenta características contrárias a essa hipótese: rigidez estrutural, assimetrias marcantes, paralelos com arte tumular medieval e inconsistências geométricas na interação entre tecido e corpo.

Mesmo que futuras datações por carbono 14 indiquem um período histórico diferente do atualmente aceito, ele argumenta que as questões geométricas e estilísticas permaneceriam. “Nesse contexto, a interpretação de origem humano-divina torna-se altamente improvável”, avaliou.

Ainda assim, Moraes ressalta que o Sudário continua sendo uma das mais notórias peças da arte cristã e cumpre plenamente seu papel simbólico e devocional, independentemente da origem.

Próximos passos

Sobre futuras pesquisas, Moraes afirmou não ter planos imediatos de aprofundar essa linha de investigação. Considera que já apresentou os principais elementos que se propôs a demonstrar.

No entanto, diz estar aberto a responder a críticas técnicas ou questionamentos metodológicos que eventualmente surjam. Caso haja novos argumentos substanciais, afirma que poderá apresentar evidências adicionais e esclarecimentos.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.