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Mortes, doenças e crianças no comando: veja os maiores desastres de reality shows

Por todo o mundo, existe um histórico bastante preocupante de reality shows que saíram do controle e geraram verdadeiros desastres; confira!

Imagem de divulgação do reality show 'Kid Nation', da CBC de 2007 / Crédito: Divulgação/CBC

Nesta semana, um dos reality shows — e assuntos — mais comentados do Brasil de todos os anos teve início em sua edição de 2026: o Big Brother Brasil. Agora com um novo elenco composto por “pipocas” e “camarotes”, a casa mais vigiada do Brasil reúne 20 pessoas — mas apenas uma sairá com o prêmio recorde de 5,4 milhões de reais.

Com 25 edições concluídas, o BBB é um verdadeiro pilar do entretenimento televisivo brasileiro, já tendo colocado centenas de pessoas de todas as regiões do país como verdadeiros ídolos (ou vilões). Felizmente, por aqui, em terras tupiniquins, o reality nunca lidou com grandes tragédias — porém, em outros países, outros reality shows já foram marcados e até cancelados devido a incidentes lamentáveis e de proporções inimagináveis. Confira a seguir alguns dos maiores desastres dos reality shows:

Éden – Sobrevivendo ao Pesadelo

Durante anos, Katie Tunn evitou discutir sua experiência em ‘Éden‘, o que lhe causava mal-estar. Aos 38 anos, ela descreve os efeitos de ter participado do programa como algo similar ao transtorno de estresse pós-traumático.

Éden foi um experimento social filmado em 2016 que reuniu 23 estranhos em uma tentativa de viver de forma autossuficiente na costa oeste da Escócia, longe da sociedade. Inicialmente, o programa foi projetado para ser transmitido em tempo real, com os próprios participantes gravando as cenas. No entanto, devido a baixas audiências e invasões ao set por espectadores curiosos, a produção foi interrompida. “Estávamos vendo telespectadores indo de caiaque até a costa, trazendo cerveja e chocolate”, comenta Tunn.

Quando finalmente foi ao ar novamente em 2017 como uma série de cinco partes chamada ‘Éden – Sobrevivendo ao Pesadelo‘, ficou evidente que o que deveria ser uma experiência comunitária se tornara um verdadeiro pesadelo. “Foi uma experiência completamente diferente nos segundos seis meses em comparação com os primeiros seis meses”, relata Tunn. “Ficou muito sombrio”.

Éden é frequentemente lembrado como um dos programas mais desastrosos da história da televisão britânica devido às baixas audiências e às transgressões dos participantes mesmo após o término das gravações ao vivo. Tunn menciona que muitos participantes continuaram infringindo regras durante esse período. A situação se agravou durante o inverno: “foi quando tudo começou a mudar”, diz Tunn. “Nessa época, nossa saúde mental já estava um pouco abalada“.

Na ocasião, um grupo de participantes do sexo masculino dominou o acampamento, e passaram a adotar uma dieta focada em carne. Nesse contexto, eles forçaram um participante chamado Rob, que era veterinário, a abater uma quantidade excessiva de gado da comunidade.

Ele odiou isso”, conta Tunn. “Ele dizia: essas pessoas estão sendo horríveis comigo, e eu estou matando coisas de que gosto, esses animais que amo e cuido, por causa delas.”

Tunn relata episódios de bullying por parte de alguns homens do grupo — que se denominavam “Valley Boys” e se uniram por meio de “piadas sexistas” e comportamentos “de vestiário”, conforme narrou Tunn —: “Virou uma coisa tribal”. Ela menciona que sofreu pressões psicológicas constantes, que a levaram a precisar de terapia cognitivo-comportamental e antidepressivos para lidar com as consequências emocionais vividas no programa. “Eu estava um caos”, comenta.

Cena de ‘Éden – Sobrevivendo ao Pesadelo’ / Crédito: Divulgação/Channel 4

Kid Nation

Outro programa que causou grande polêmica foi o ‘Kid Nation‘, um reality show da CBS de 2007, que era como uma versão juvenil de ‘Survivor’. Nele, 40 crianças — cujas idades iam de 8 a 15 anos — eram colocadas para administrar sua própria cidade no Novo México durante 40 dias, sendo responsáveis por cozinhar, limpar e até definir suas próprias regras, sem qualquer participação de adultos ou luxos modernos como banheiros internos e eletricidade.

Laurel McGoff tinha apenas 12 anos quando participou do projeto e, embora afirma que gostou de fazer parte dele — descrevendo o experimento como “uma pequena comuna hippie” —, questiona a ética da produção. Um exemplo bastante óbvio de problema que envolvia o reality era que o elenco foi tirado da escola durante seis semanas para as filmagens, sem qualquer aula de reforço ou reposição posteriormente.

“Não havia crianças de Nova York ou Los Angeles no programa, porque essas cidades tinham leis trabalhistas infantis bastante rígidas, já que muitas filmagens acontecem lá. Mas nos outros 48 estados americanos não havia leis específicas sobre faltar à escola para fins de entretenimento”, comenta McGoff.

E assim como são nos reality shows de adultos, os produtores também davam alguns toques para manipular as crianças e fazê-las discutirem. “Às vezes, eles nos contavam o que as pessoas diziam nos depoimentos para obter nossa reação, o que é bem questionável para se fazer com crianças!”, recorda McGoff.

Isso tudo, é claro, sem mencionar as próprias condições desafiadoras às quais as crianças eram submetidas, dormindo no chão, podendo tomar banho somente a cada três dias, e tendo apenas uma refeição — um mero sanduíche — garantida na maioria dos dias. “Tudo bem quando adultos se inscrevem no ‘Survivor’ e concordam em comer mal e não escovar os dentes ou tomar banho, mas quando se trata de uma criança de oito anos que não tem todas as suas necessidades nutricionais atendidas, mesmo por um curto período de tempo, não sei se isso é exatamente legal.”

Uma ocasião mais preocupante se deu quando quatro crianças precisaram ser hospitalizadas após ingerirem água sanitária que havia sido deixada em copos limpos com o produto, pensando ser água comum. “Eu vi crianças dizendo: ‘Meu estômago está doendo muito, meu estômago está pegando fogo'”, conta McGoff. Inclusive, a mãe de uma das crianças que participou do reality processou a produtora, depois que a filha teve o rosto queimado por óleo fervente, enquanto tentava fritar batatas. Por razões óbvias, a produção não teve uma segunda temporada.

Apesar de todos os problemas, McGoff ainda comenta que o ‘Kid Nation’ foi a época mais feliz de sua vida. Porém, ela ainda tem queixas, ao recordar de quando os produtores incentivavam as crianças a se rebelarem umas contra as outras no final do programa: “isso é tão perigoso agora que penso nisso”. E também acrescenta que, na correria da ocasião, chegou a torcer o tornozelo e precisou ser levada ao hospital.

“Foi só quando eu estava na faculdade”, ela conta, “que recebi uma ligação de uma seguradora dizendo: ‘Ei, você deve dinheiro por causa dessa torção no tornozelo que você teve em 2007’, e eu pensei: ‘Ah, eu simplesmente presumi que a CBS, uma corporação multimilionária, cuidaria dessa conta médica simples, provavelmente pequena.’ Aqueles filhos da mãe não pagaram!”

Cena de ‘Kid Nation’ / Crédito: Divulgação/CBC

Outras tragédias

Os casos de ‘Éden’ e ‘Kid Nation’ estão longe de ser os únicos e mais graves de reality shows. Outro exemplo é o ‘The Ultimate Slip N’ Slide‘, uma competição de 2021 da NBC que foi cancelada antes mesmo do fim das filmagens, depois que mais da metade da equipe contraiu giardíase e sofreu com diarreias intensas.

Há também o programa ‘Who’s Your Daddy?‘, um reality de encontro familiar que foi exibido pela Fox em 2005, e acompanhava uma jovem criada por pais adotivos enquanto tentava descobrir qual dentre oito homens de meia-idade era seu pai biológico, morando com eles em uma mansão. Em um momento, um homem lhe disse: “quero que você saiba que foi concebida com puro amor”, enquanto ela se emociona e chora de alegria; porém, posteriormente é revelado que ele era apenas um ator, e a decisão da produção foi durante criticada por organizações de apoio à adoção, que alegaram que o ocorrido foi “destrutivo, insensível e ofensivo”, conforme repercute o The Guardian.

Mas há ainda desastres mais graves. Em 2013, a produtora francesa Adventure Line Productions precisou cancelar filmagens no Camboja de uma versão de ‘Survivor‘ depois que um participante de apenas 25 anos, Gérald Babin, sofreu uma parada cardíaca durante uma competição de cabo de guerra e morreu. A mídia da época especulou que a produtora poderia ter evitado a morte fornecendo um atendimento médico mais adequado; e, uma semana depois, o médico que tratou Babin, Thierry Costa, cometeu suicídio. Ele deixou uma carta em que escreveu: “tenho certeza de que tratei Gerald com respeito, como paciente e não como participante.”

E em 2015, a mesma produtora sofreu um revés durante as filmagens do reality show de sobrevivência ‘Dropped‘, um remake de um projeto sueco que acompanharia um grupo de oito atletas que seriam lançados vendados de um helicóptero em alguns dos lugares mais inóspitos do mundo, precisando sobreviver apenas com água e um GPS disponibilizados.

Porém, ao finalizar as filmagens em Ushuaia, na Patagônia argentina, o pretendido era levar três atletas — a velejadora Florence Arthaud, o boxeador Alexis Vastine e a nadadora medalhista de ouro olímpica Camille Muffat — para a província de La Rioja; mas a tarefa não foi concluída com sucesso. Isso porque o helicóptero da equipe de filmagem colidiu com o helicóptero dos participantes durante o trajeto, matando assim todos os atletas, além dos dois pilotos e cinco membros da equipe.

Após isso, os tribunais franceses culparam a produtora de 300 acusações de “violações das leis trabalhistas e das obrigações de segurança”, e o então presidente francês, François Hollande, classificou o acidente como uma “imensa tristeza” para toda a nação.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.