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Marty Supreme: A vida escandalosa e cinematográfica de Marty Reisman

Conhecido como "The Needle", o lendário Marty Reisman transformou o tênis de mesa em um espetáculo de apostas, contrabando e estilo

Mart Reisman - Getty Images

Nova York, 1945. Um adolescente magro de 15 anos entra em um torneio nacional em Detroit com 500 dólares no bolso — uma fortuna para a época. Com a arrogância de quem já dominava os clubes de apostas do Lower East Side, ele tenta apostar o valor em si mesmo. O problema? O homem a quem ele entregou o dinheiro não era um bicheiro, mas sim o presidente da Associação de Tênis de Mesa dos Estados Unidos. O jovem foi prontamente expulso por um policial, mas ali nascia uma lenda: Marty Reisman, o maior “hustler” (trapaceiro/apostador) que o esporte já viu.

A vida de Reisman, que faleceu em 2012 aos 82 anos, foi tão repleta de excessos e reviravoltas que inspirou o filme Marty Supreme, de Josh Safdie. Para Reisman, o pingue-pongue nunca foi apenas um esporte de reflexos rápidos; era uma performance, um golpe e um meio de sobreviver com elegância em um mundo que ele via como um grande tabuleiro de apostas.

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O nascimento de um estrategista

Filho de um motorista de táxi e apostador compulsivo, Martin Reisman cresceu na pobreza de Manhattan durante a Depressão. Aos nove anos, após sofrer um colapso nervoso, um médico sugeriu que ele jogasse tênis de mesa para acalmar os nervos e melhorar a visão. O remédio funcionou, mas de uma forma que o médico jamais imaginou.

Aos 13 anos, Marty já era o campeão júnior da cidade. Ele trocou a escola pelos clubes enfumaçados de Nova York, onde jogava dez horas por dia valendo moedas. Foi nesses porões que ele desenvolveu o “Atomic Blast”, um golpe de direita tão rápido que a bola se tornava um borrão. Mas sua verdadeira arma era psicológica: ele “espetava” (needle) os oponentes com insultos e provocações, o que lhe rendeu o apelido de “The Needle”.

Marty e o contrabando

Reisman não se parecia com um atleta. Ele se via como um dândi. Vestia ternos de Savile Row feitos sob medida, chapéus Borsalino e óculos coloridos. Em sua autobiografia The Money Player (1974), ele admitiu que os melhores jogadores do mundo tinham que ser duas coisas: jogadores de azar ou contrabandistas. Ele foi os dois.

Marty Supreme capa
Marty Supreme: Ficção (Chalamet) X Real (Marty Reisman) – Divulgação; Getty Images

Em suas turnês mundiais na década de 1950, Marty aproveitava a falta de fiscalização alfandegária para militares e celebridades. Ele contrabandeava de tudo: de meias de nylon e canetas esferográficas (itens de luxo na época) a barras de ouro e relógios Rolex entre Hong Kong e Vietnã. Ganhou milhões e perdeu milhões. Reza a lenda que ele media a altura da rede de pingue-pongue usando uma nota de 100 dólares para ostentar sua riqueza.

A “Traição da Esponja”

A carreira competitiva de Marty sofreu um golpe fatal em 1952, no Campeonato Mundial em Bombaim. O culpado não foi um jogador melhor, mas a tecnologia. O japonês Hiroji Satoh apareceu com uma raquete revestida de uma espuma grossa (esponja), que permitia efeitos imprevisíveis.

Reisman, um purista da raquete de madeira revestida de lixa (o hardbat), ficou horrorizado. Ele chamou a raquete de esponja de “deceitful” (enganosa) e afirmou que ela arruinava o som e a pureza do jogo. Enquanto o mundo se adaptava, Marty se rebelou. Ele se recusou a mudar, preferindo se tornar um showman a “prostituir seu talento”, como costumava dizer.

Harlem Globetrotters e o Estrelato Tardio

Banido temporariamente das competições oficiais por comportamentos escandalosos — como cobrar jantares luxuosos na conta da federação inglesa —, Marty encontrou um novo lar. Durante três anos, ele viajou o mundo como o ato de abertura dos Harlem Globetrotters. Suas exibições incluíam cortar cigarros ao meio na boca de voluntários com uma bolinha de pingue-pongue a 180 km/h.

Mesmo idoso, Marty nunca perdeu o toque. Aos 67 anos, em 1997, ele chocou o mundo do esporte ao vencer o Campeonato Nacional de Hardbat dos EUA, tornando-se o campeão nacional mais velho da história em qualquer esporte de raquete.

Marty Reisman viveu sob seus próprios termos até o fim. Ele era um personagem que parecia ter saído de um filme noir, vivendo em um hotel de Manhattan cercado por microscópios (seu hobby secreto) e memórias de fortunas ganhas e perdidas. Como ele mesmo escreveu: “As multidões se levantavam e aplaudiam meu talento”. Agora, o cinema garante que os aplausos continuem para o eterno “Supreme” das mesas.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!