Marquesa de Maintenon: A insólita história da segunda esposa de Luís XIV
Com origem humilde, Françoise d'Aubigné ascendeu socialmente e casou-se com o rei Luís XIV, o Rei Sol, em cerimônia secreta numa noite de 1983

Em plena Era do Absolutismo, a França teve um monarca que representou muito bem a ideia do monarca absoluto: o rei Luís XIV, que ficou mais conhecido na história como Rei Sol. Idealizador de Versalhes e principal nome da concentração do poder do Estado Moderno na Europa, e definiu bases fundamentais para o que se tornaria a monarquia francesa do século 17.
No entanto, mesmo sendo uma figura extremamente importante e detendo tamanho poder que qualquer uma de suas vontades praticamente seria realizada, no outono de 1683 ele preferiu realizar uma cerimônia de casamento secreta, contando com a presença apenas de seu confessor e do arcebispo de Paris. Esse era o segundo casamento de Luís XIV, então com 45 anos; e a noiva era a Marquesa de Maintenon, uma mulher cuja história certamente já intrigou muitos historiadores.
Ao longo da história, ela já foi retratada como uma mulher generosa tal como uma princesa da Disney; enquanto outros já a acusaram de ser meramente uma alpinista social extremamente fria. Entenda!
Françoise d’Aubigné
Françoise d’Aubigné — como era conhecida inicialmente — nasceu no dia 27 de novembro de 1635 em uma prisão em Niort, no oeste da França. Seu pai, Constant, estava preso lá por inúmeros crimes, e ela era fruto da união do detento com a jovem Jeanne, filha do diretor da prisão, Agrippa d’Aubigné.
Agrippa, conforme repercute o National Geographic, era um poeta renomado e membro respeitado da pequena nobreza francesa. Porém, Jeanne não seguiu bem os passos do pai, e passou a vida bebendo, jogando e se aproveitando de fraudes por toda a França.
Decepcionado com a filha “miserável”, Agrippa até mesmo deserdou Jeanne, que então ficou sob os cuidados apenas de Constant e à mercê de seus caprichos. E uma dessas aventuras envolveu viajar até as Antilhas Holandesas, no atual Caribe, com a mulher e os filhos, dois anos após conseguir sua libertação, em uma tentativa de iniciar uma plantação e retomar a vida.
Na prática, não demorou para que Constant abandonasse a família e retornasse à França, onde morreu pouco depois. Assim, sem dinheiro, Jeanne retornou à França com a filha, Françoise, e os outros dois filhos de Constant, Charles e Constant, onde passaram por maus bocados; que, inclusive, levaram a pequena Françoise, de apenas 12 anos, a mendigar comida pelas ruas de La Rochelle.
Durante a adolescência, Françoise morou brevemente com uns tios huguenotes em sua propriedade, e também na casa da mãe de sua madrinha, Madame de Neuillant, que a enviou a um convento ursulino esperando convertê-la ao catolicismo, religião dominante na França na época. A princípio, ela resistiu, mas eventualmente abraçou a religião — muito graças à amizade que formou com a freira Irmã Céleste.
Mas quando Neuillant se recusou a seguir pagando as taxas, Françoise acabou perdendo seu lugar no convento e, com apenas 16 anos, casou-se com o escritor Paul Scarron. Sua biografia conta que ele era mais de 20 anos mais velho que ela, e nesse momento já estava gravemente deformado pela artrite reumatoide, o que tornou o primeiro encontro dos dois especialmente duro para a jovem.
Ainda assim, mesmo sendo considerada belíssima, ela decidiu aceitar a proposta por ainda ser órfã e não possuir dote. Se não fosse por isso, sua única opção seria voltar a um convento. Porém, o que ela não esperaria é que a união mudaria completamente o curso de sua vida.

Conexões sociais
Mesmo que a doença tenha afetado muito sua aparência, Paul Scarron ainda era um homem bastante inteligente e com boas conexões sociais. Ele era anfitrião de um salão libertino famoso em Paris, onde recebia várias figuras notórias da literatura, filósofos e aristocratas abastados.
Nesse ambiente, Françoise — que era apelidada pelos frequentes nos salões parisienses de “la belle indienne“, devido à pele bronzeada —, que era extremamente inteligente graças às estadias com os tios e à educação que teve no convento, aprimorou ainda mais seus conhecimentos, se envolvendo e observando atentamente aquela elite refinada que frequentava o salão.
Claro que ela reconhecia que não podia competir com as mulheres elegantes e privilegiadas que por ali passavam, mas por isso adotou uma estratégia incomum. “Incapaz de atuar à la mode, ela representou um contraponto tático, vestindo-se com simplicidade deliberada e desprezando até mesmo as joias mais simples que poderia ter usado”, escreveu Veronica Buckley em uma biografia.
Essa imagem modesta, por sua vez, conseguiu encantar os nobres que frequentavam o salão, e Françoise — então conhecida como Madame Scarron — pôde construir uma rede de conexões bastante refinada. É dito inclusive que ela construiu relacionamentos com os escritores Jean Racine e La Fontaine, além da lendária cortesã Ninon de Lenclos.
Chegando à realeza
Com apenas 25 anos, Françoise ficou viúva, e com muitas dívidas pendentes de Paul Scarron. Felizmente, os amigos que fez ao lado dele a ajudaram a conseguir uma pensão da Rainha Mãe, mas foi outro contato em um salão de beleza que lhe rendeu uma oportunidade verdadeiramente especial: Madame Athénaïs de Montespan.
Madame Montespan era pouco mais velha que Françoise, com apenas 29 anos, mas era membro da alta nobreza francesa, sendo amante oficial do rei Luís XIV, que tinha 31 anos. E justamente nesse momento que Françoise precisava de ajuda, Montespan também precisava de uma governanta que pudesse criar discretamente seus filhos — ela teve sete filhos, ao todo, com o monarca.
Françoise aceitou a proposta, e, de início, o rei pensou que a jovem governanta era uma puritana recatada — enquanto ele tinha uma vida de muita luxúria e excessos —, e a descartou como “insuportável”. Mas, como passar dos anos, a opinião mudou, em especial com ele se encantando pelo amor que ela demonstrava por seus filhos.
Ainda no início da década de 1670, uma amizade próxima se estabeleceu entre Françoise e o rei, que se impressionava com a inteligência e o comportamento calmo e racional da governanta, que já tinha quase 40 anos. O vínculo ficou ainda mais próximo depois que ela se mudou com os filhos ilegítimos de Luís para o palácio de Saint-Germain-en-Laye, depois que ele decidiu os legitimar — o que muitos acreditam que pode ter sido feito por indução de Françoise.
Com isso, os dois passaram ainda mais tempo juntos, compartilhando conversas profundas. Em demonstração de gratidão, Luís aumentou substancialmente seu salário, e lhe ofereceu generosas doações em dinheiro.

Relacionamento e influência
Com o dinheiro, Françoise comprou um castelo em estilo renascentista em Maintenon, e lá ganhou diretamente do Rei Sol o título de Marquesa de Maintenon. Vários historiadores acreditam que eles começaram um relacionamento romântico em torno de 1680, depois que o rei teria se cansado de Montespan e de sua vida boêmia, já em sua meia-idade e após enfrentar doenças, buscando alguém estável e sério com quem estar junto.
Embora não se saiba quando exatamente o relacionamento começou, fato é que nesse período notou-se várias mudanças na corte francesa, muitas possivelmente com algum toque e influência de Maintenon. As festas depravadas do rei acabaram, e Montespan foi deixada de lado; além disso, o mulherengo rei também começou a ser mais gentil com sua esposa, a rainha Maria Teresa, que por muito tempo foi negligenciada, a pedido de Maintenon.
A cerimônia de casamento “secreta” entre o rei e Maintenon só aconteceu vários meses após a morte da rainha, em 1683. A união foi mantida em segredo devido ao status social inferior de Françoise, mas muitos cortesãos suspeitavam da verdade; e então o monarca abandonou suas aventuras em busca de uma vida mais saudável.
Durante muito tempo, figuras que cruzavam com ela pela corte já acusaram-na de ser uma dissimulada e sedenta por poder, tendo se aproximado do rei tão rapidamente, em uma sociedade em que o status era tudo. Por isso, a memória de Maintenon é bastante dúbia, com aqueles que acreditam que ela ascendeu socialmente ao cair nas graças de todos, e outros que a acusavam de tudo que fosse para desmerecer sua imagem.
Historiadores argumentam que, embora não fosse confirmado, ela certamente tinha grande influência política e poder de opinião no governo do Rei Sol, aconselhando o monarca, e até mesmo participando de discussões conciliares e nomeando embaixadores durante a Guerra da Sucessão Espanhola.

Fim da vida
Apesar da história com Luís XIV, acredita-se que Maintenon teve como grande paixão o internato que fundou nos arredores de Versalhes, em Saint-Cyr, o Maison Royale de Saint-Louis. Lá, as alunas eram moças pobres de famílias nobres — assim como ela própria já foi —, que recebiam educação digna da elite e dotes.
Após a morte do Rei Sol em 1715, Maintenon, já idosa, retirou-se para a escola, onde seguiu recebendo vários visitantes ilustres. Ela faleceu somente quatro anos após o monarca, no dia 15 de abril de 1719, aos 83 anos, e foi sepultada na capela da escola.
Vale mencionar também que, perto do fim de sua vida, Madame de Maintenon queimou milhares de suas cartas pessoais que tinha guardadas, incluindo grande parte da correspondência que tinha com Luís XIV. Ainda assim, uma frase que ela disse a uma amiga em seus últimos anos preservou-se pela história: “Minha vida… foi um milagre!“.