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Gotye: O que aconteceu com o cantor que plagiou música brasileira?

Músico fez sucesso com o hit 'Somebody That I Used To Know', que, no entanto, revelou-se um plágio de um compositor brasileiro

Gotye no clipe de 'Somebody that I Used To Know - Crédito: Divulgação/vídeo/Youtube/Gotyemusic

Em 2011, o cantor belga-australiano Gotye lançou a faixa “Somebody That I Used To Know“, em parceria com a neozelandesa Kimbra. O single, parte do álbum Making Mirrors, se tornou um fenômeno mundial: atingiu o topo das paradas em 50 países, vendeu mais de 9 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos, foi certificado 11 vezes platina na Austrália e acumulou mais de 2 bilhões de visualizações no YouTube.

Mas o sucesso global de Wouter De Backer — o verdadeiro nome do artista — trouxe também polêmica. Afinal, logo após o lançamento, revelou-se que a base da canção havia sido retirada de “Seville”, composição do violonista brasileiro Luiz Bonfá, lançada em 1967. O uso do sample não foi autorizado, e a família de Bonfá — já falecido — entrou com um processo contra Gotye.

O caso terminou em acordo: Bonfá foi reconhecido como coautor da faixa, com direito a receber cerca de 50% dos royalties. Em 2013, estimava-se que o espólio do brasileiro já tivesse arrecadado mais de 1 milhão de dólares com a música.

Gotye, por sua vez, aceitou a divisão sem contestar nos tribunais. “Decidi que fazia mais sentido focar em coisas criativas e não ficar preso a dinheiro, advogados e tribunais”, declarou em entrevista concedida ao news.com.au no ano de 2017.

Longe dos holofotes

Depois do estrondoso sucesso, muitos esperavam que De Backer desse sequência a uma carreira pop de alto impacto. No entanto, o cantor tomou outro rumo: em 2012 fez uma turnê mundial e, desde então, não lançou mais nenhum álbum solo como Gotye.

Em 2014, publicou um comunicado em que afirmava não haver planos imediatos para novas músicas sob esse nome artístico — decisão que alimentou rumores até mesmo sobre sua morte. A verdade, segundo o portal The Music, é que ele nunca abandonou a música, apenas deixou de lado o estrelato.

Um dos aspectos mais marcantes da trajetória de Gotye após o hit foi sua postura em relação ao mercado. A fonte destaca que, em 2017, o músico revelou que optou por não monetizar seus vídeos no YouTube, abrindo mão de milhões de dólares em publicidade.

“Não estou interessado em vender minha música”, afirmou na ocasião. Além disso, ele também se recusa, em regra, a ceder suas faixas para propagandas, mas libera gratuitamente o uso delas em projetos estudantis.

O músico Gotye no clipe de ‘Somebody that I Used To Know – Crédito: Divulgação/vídeo/Youtube/Gotyemusic

“Eu sou assim com todas as minhas músicas. Eu geralmente não quero sincronizar minha música para produtos.” Ele continua: “Os anúncios estão chamando nossa atenção para qualquer lugar do mundo. Se você pode fazer algo com o qual se importa e com o qual outras pessoas se importam e mantê-lo fora desse mundo que parece que é tudo sobre ‘ei, compre essas coisas’, então isso é uma coisa boa.”

Novos projetos

Longe dos holofotes, Gotye continuou produzindo em outras frentes. Ele cofundou a gravadora independente Spirit Level, dedicada a artistas experimentais, e seguiu ativo em sua banda The Basics, formada em 2003, com a qual já lançou diversos álbuns e fez milhares de apresentações ao redor do mundo.

Além disso, também se dedicou a pesquisar e restaurar gravações raras do pioneiro da música eletrônica Jean-Jacques Perrey e o instrumento Ondioline, criado em 1941. Após anos de trabalho ao lado de engenheiros e produtores, Gotye conseguiu remasterizar algumas das primeiras gravações de Perrey no Ondioline. O resultado foi o álbum de compilação “Jacques Perrey Et Son Ondioline”, lançado em maio de 2017.

Sua dedicação, porém, foi além do estúdio: ele formou a The Ondioline Orchestra, um grupo de seis músicos, com o qual passou a apresentar ao vivo a obra do compositor francês. Em 2018, dentro do Festival de Sydney, levou ao palco do Carriageworks o espetáculo “Gotye Presents A Tribute To Jean-Jacques Perrey”, reafirmando seu compromisso em preservar e difundir o legado do pioneiro da música eletrônica.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.