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Galeão San José: o navio considerado o ‘santo graal’ dos naufrágios

Considerado o 'santo graal' dos naufrágios, o galeão San José carregava uma enorme remessa de tesouros quando naufragou há mais de 300 anos

Marinha Colombiana disse que descobriu o "verdadeiro" naufrágio de San José em 2015 - Crédito: Divulgação/Armada da Colômbia

Atacado por forças britânicas durante a Guerra da Sucessão Espanhola, o galeão San José era uma imensa fortaleza flutuante de 64 canhões, carregava, segundo relatos da época, uma das maiores remessas de tesouros já transportadas por uma embarcação europeia. A carga, avaliada em até 20 bilhões de dólares, era composta por ouro, prata, esmeraldas e outras riquezas destinadas a financiar o esforço de guerra da Espanha.

Por mais de 300 anos, caçadores de tesouros, historiadores e governos perseguiram a localização do chamado “santo graal” dos naufrágios. A busca se intensificou ao longo do século 20, com expedições sucessivas que tentaram decifrar registros de navegação imprecisos, enfrentar correntes traiçoeiras e vasculhar vastas áreas do fundo do mar. Só em 2015 a Marinha Colombiana anunciou a descoberta do que afirma serem os destroços autênticos do San José, identificados com o auxílio de um veículo subaquático autônomo e de consultores internacionais. Mesmo assim, o achado trouxe mais perguntas do que respostas.

Uma grande disputa

De acordo com informações do portal All That’s Interesting, uma dúvida fundamental surgiu logo após a descoberta: a quem pertence o San José? A Colômbia argumenta que o naufrágio está em águas territoriais colombianas e foi descoberto por sua Marinha. A Espanha, por sua vez, reivindica que o navio, sendo militar e espanhol, continua sendo propriedade do Estado espanhol. Já grupos indígenas da Bolívia e do Peru defendem que parte do tesouro lhes pertence, pois teria sido extraído de minas nos Andes.

A disputa se complica ainda mais com a participação da Sea Search Armada, empresa americana que afirmou ter localizado o naufrágio nos anos 1980 e que teria direitos sobre parte do conteúdo. A companhia chegou a firmar acordos com o governo colombiano. Porém, divergências sobre os termos acabaram desencadeando décadas de disputas judiciais. Em 2007, a Suprema Corte dos EUA decidiu que caberia à Colômbia o direito sobre quaisquer artefatos classificados como “patrimônio cultural nacional”.

Para além da batalha legal, existe uma discussão ética e arqueológica: até que ponto o local deve ser explorado? Afinal, o San José é também um túmulo de guerra: cerca de 600 pessoas morreram na explosão que desencadeou seu naufrágio. Muitos especialistas defendem mínima intervenção, argumentando que mexer na estrutura pode danificar informações históricas valiosas.

O presidente colombiano Gustavo Petro examinando um canhão do naufrágio de San José – Crédito: Divulgação/Presidência da Colômbia

Da construção ao naufrágio

Construído por volta de 1698, o San José representava o auge da engenharia naval espanhola na época. Era robusto, veloz e preparado para transportar a riqueza extraída das colônias americanas. Quando zarpou de Portobelo, no Panamá, em maio de 1708, carregava toneladas de metais preciosos e esmeraldas. Registros oficiais falam em cerca de 200 toneladas, mas estimativas não oficiais sugerem muito mais, levando em conta o contrabando comum na época.

A missão do navio tinha peso estratégico. A Espanha, alinhada à França, enfrentava uma coalizão liderada pela Grã-Bretanha. O rei Filipe V dependia do tesouro para pagar tropas e sustentar sua autoridade. Enquanto a frota espanhola se aproximava de Cartagena, o esquadrão do Comodoro Charles Wager emboscou o San José. A batalha que se seguiu é registrada com detalhes fragmentados, mas todas as versões concordam no ponto central: durante o confronto, o paiol de pólvora do galeão explodiu. Em questão de instantes, o navio se partiu e desapareceu nas águas profundas. Apenas 11 pessoas sobreviveram.

A perda do tesouro debilitou a capacidade militar espanhola e, segundo alguns historiadores, influenciou o desenrolar da guerra. A lenda sobre a fortuna submersa, porém, passou a circular quase imediatamente após o desastre, alimentando três séculos de busca.

Descobertas

Desde a confirmação oficial da localização, em 2015, estudos não invasivos têm sido realizados. Em 2025, a revista Antiquity publicou resultados indicando a presença de macuquinas — moedas coloniais de formato irregular — além de canhões de bronze e porcelanas no local. Embora ainda haja incerteza sobre quanto do suposto tesouro realmente permaneceu intacto, imagens subaquáticas revelam indícios promissores.

O governo colombiano quer resgatar partes do navio e expor o acervo em um museu, mas questões sobre preservação, riscos técnicos e disputas de propriedade continuam a atrasar qualquer ação decisiva.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.