Este crânio pertenceu a um cão que viveu há 33 mil anos
Crânio encontrado no ano de 1975 em uma caverna da Sibéria teria pertencido a um dos ancestrais mais antigos do melhor amigo do homem

Uma análise genética realizada no ano de 2013 confirmou que um antigo crânio encontrado em uma caverna da Sibéria pertenceu a um dos ancestrais mais antigos do melhor amigo do homem. O fóssil, descoberto nas Montanhas Altai, tem cerca de 33 mil anos.
A peça foi anunciada pela primeira vez em 1975, quando arqueólogos russos revelaram ter desenterrado, em uma caverna da região, um crânio antigo que lembrava o de um lobo. Décadas depois, em 2011, uma análise anatômica mais detalhada sugeriu que o animal apresentava características intermediárias: dentes grandes, semelhantes aos de lobos, mas com um focinho mais curto, típico de cães. Essa combinação levantou a hipótese de que o espécime pudesse representar um estágio inicial da domesticação, possivelmente um lobo parcialmente domesticado e, portanto, um dos ancestrais mais antigos dos cães modernos já identificados.
Apesar dessa interpretação, ainda faltava uma confirmação genética. O estudo publicado na revista científica PLOS ONE trouxe novas evidências ao analisar o DNA do fóssil. Os resultados indicam que o animal estava geneticamente mais próximo dos cães modernos do que dos lobos, o que levou pesquisadores a reconsiderar aspectos importantes da árvore evolutiva dos cães.
Análise de DNA
Para realizar o estudo, uma equipe liderada por Anna Druzhkova, da Academia Russa de Ciências, extraiu DNA mitocondrial de um dos dentes do crânio. Esse tipo de material genético é encontrado nas mitocôndrias, estruturas presentes nas células que possuem seu próprio DNA, distinto daquele localizado nos cromossomos do núcleo celular. O DNA mitocondrial é herdado exclusivamente da mãe e sofre poucas alterações ao longo das gerações, exceto pelas mutações que se acumulam gradualmente com o tempo. Por isso, ele é frequentemente utilizado em estudos de evolução para identificar relações de parentesco entre espécies e populações.
Os pesquisadores compararam o material genético do fóssil com o DNA de 70 raças modernas de cães, além de amostras de 30 lobos e quatro coiotes. A análise mostrou que o DNA do animal siberiano não correspondia exatamente a nenhum dos grupos avaliados, mas apresentava maior proximidade com os cães modernos. Entre as raças atuais, as maiores semelhanças apareceram com mastins tibetanos, terra-novas e huskies siberianos.

Sabe-se que os cães surgiram a partir da domesticação de lobos, mas ainda há muitas incertezas sobre quando e onde esse processo começou. Como destaca o portal Smithsonian, a maioria dos especialistas concorda que os cães foram domesticados antes do surgimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos. No entanto, algumas hipóteses sugerem que esse processo pode ter começado muito antes, possivelmente há até 100 mil anos.
Idade do crânio
A datação por radiocarbono do crânio das Montanhas Altai indica uma idade mínima de cerca de 33 mil anos, o que empurra a possível domesticação para um período muito mais antigo do que se pensava. Ainda assim, os pesquisadores consideram que o processo pode ter ocorrido várias vezes de forma independente. Nesse cenário, a linhagem representada pelo fóssil siberiano poderia ter desaparecido sem deixar descendentes diretos entre os cães atuais.
Há também evidências arqueológicas de que, com o início do Último Máximo Glacial, ocorrido há cerca de 26 mil anos, populações humanas da região da Sibéria podem ter interrompido a domesticação de cães, possivelmente por causa da escassez de recursos alimentares. Caso isso tenha ocorrido, a domesticação que originou os cães modernos poderia ter acontecido posteriormente em outras regiões.
Por outro lado, também é possível que a domesticação próxima às Montanhas Altai tenha contribuído para a disseminação inicial de cães pela Ásia e pela Europa, mesmo que essa linhagem tenha desaparecido localmente com o tempo. Antes dessa descoberta, muitos pesquisadores defendiam que a domesticação dos cães teria ocorrido no Oriente Médio ou no Leste Asiático. O fóssil siberiano, porém, sugere que a história pode ser mais complexa do que se imaginava. Segundo os autores do estudo, novas descobertas de restos antigos de cães serão fundamentais para esclarecer esse processo.