De batalhas históricas a herança cultural: a Lapa que encanta
Localizada no Paraná, a região é marcada por heróis pouco conhecidos e costumes que moldaram o turismo

Quem disser que o Brasil sempre foi um país pacato e pacífico em matéria de batalhas, revoltas e revoluções está muito enganado. Com certeza não conhece a história desta terra.
Se atualmente na política temos uma polarização nacional, já tivemos em outros momentos polarizações regionais que nos trouxeram de luta em luta, luto em luto, até aqui, Brasil 2025.
Se atualmente damos apelidos aos partidos políticos — Mortadela e Gado — na Revolução Federalista, que aconteceu em 1893, tínhamos os Maragatos e Pica-Paus.
Assim como nos dias atuais, eles também usavam símbolos. Os Maragatos usavam lenços vermelhos e defendiam a descentralização do poder. Já os Pica-paus (também chamados Chimangos) usavam lenços brancos e defendiam um governo central.
As histórias antigas e atuais têm semelhanças inclusive no ponto em que as alcunhas são absorvidas pelos “rebeldes” que passam a identificar-se através dele, gerando um sentimento de simpatia e unidade.
Quaisquer semelhanças serão apenas meras coincidências?
Um dia, os Maragatos — contrários à dependência do Rio Grande do Sul como unidade federativa dentro do Brasil — decidiram marchar rumo ao Rio de Janeiro, então capital federal. No Paraná se encontraram com federalistas vindos do Rio Grande do Sul, também rumo ao Rio de Janeiro e na Lapa deu-se o encontro das duas forças, acontecendo o chamado Cerco da Lapa.
Assim, a Vila Nova do Príncipe, como era chamada na época, tornou-se em um sangrento campo de batalha por 26 dias. Ao todo, nesse período, aconteceu a morte de 639 homens entre forças regulares, civis e voluntários.
O passado transformado em cultura
Quando a História parece acabar ela vira cultura e a ânsia pela aquisição de cultura favorece o turismo. Ao chegar na Lapa nos deparamos com o Monumento dos Tropeiros uma obra criada por Poty Lazzaroto.
Caminhar pelas ruas da cidade preservada e observar seus casarios antigos que mantém o estilo e as cores da época do Cerco, é sentir que sim, neste país tivemos muitos heróis, ainda desconhecidos. O general Gomes Carneiro é um deles.
Incrível sentir por aqui cenas que vimos em muitos filmes, como o Teatro São João, o mais antigo do Paraná e que arquitetonicamente é um abastardado (reúne os estilos italiano, neoclássico e elisabetano). Inaugurado em 1876, ele era a sede da associação literária lapeana e em 1880 recebeu a visita da comitiva imperial de D. Pedro II. O Cerco, por sua vez, serviu como enfermaria para homens feridos.
No Museu Histórico, local onde o líder da Resistência faleceu, existe um retrato da cena, feito pelo pintor Theodoro De Bona.
Você sabia que…
… no local da atual Prefeitura Municipal, inaugurada em 1890, estilo neoclássico, com dinheiro doado por D. Pedro II, funcionou a primeira escola estadual do Paraná?
… a Casa Lacerda, residência típica de tradicional família luso-brasileira foi o local onde assinaram a Carta de Capitulação do Cerco?
… a Lapa sedia o maior santuário do planeta, dedicado a São Benedito?
… uma cidade tão antiga pode ter um Museu da Moda, com mais de cinco mil peças, desde a chegada de Cabral em 1500 até meados de 1900?
Nesse museu a passagem do tempo se registra através dos vestidos de noivas, leques, bolsas e sapatos. Afinal, onde vocês acham que estilistas, figurinistas buscam inspirações para suas coleções?
Turista tem fome de conhecimento, cultura e gastronomia
A ideia por aqui é comer comida de tropeiro, com gostinho do século 17. Quirera tropeira, paçoca de charque, torresmo, ovo frito, arroz e virado de feijão tropeiro.
A coxinha de farofa é uma iguaria típica lapeana, foi criada com sobras de farofa de frango e massa de pastel. E hoje é considerada patrimônio cultural “imaterial” (modo de dizer).
Vale finalizar esta matéria dizendo que em 2004 foi assinado um ato gemellagio entre a cidade da Lapa e Istrana — província de Treviso, no Vêneto, região nordeste da Itália.
“Irmãs para sempre”.
Você sabia de tudo isto? Isso é cultura!
Rosário Maiettini* é jornalista e escritora, com uma trajetória marcada pela curiosidade incansável e pelo interesse por diferentes áreas do conhecimento. Ela é autora de Volta ao mundo em 280 páginas – Do crepúsculo ao alvorecer, um guia com curiosidades culturais, históricas e linguísticas de diferentes países e também de Saber ou não Saber – Eis as Questões, que convida o leitor a testar e expandir os conhecimentos.
