‘Como um Relâmpago’: o chocante assassinato de um presidente retratado em série da Netflix
Conheça a história do assassinato de James A. Garfield, o 20º presidente dos Estados Unidos, que virou tema de minissérie da Netflix

“Como um Relâmpago“, nova minissérie da Netflix dividida em quatro episódios, retoma o atentado que matou o 20º presidente dos Estados Unidos James A. Garfield, em meio ao cenário político caótico da Washington de 1881. Criada por Mike Makowsky e produzida por David Benioff e D. B. Weiss, a produção conta ainda com Michael Shannon no papel do político que saiu da pobreza com ideais reformistas e a intenção declarada de moralizar o governo federal. No contraponto, Matthew Macfadyen encarna Charles J. Guiteau, um admirador ressentido que se tornaria um assassino.
Em busca de recompensa
Antes mesmo que James A. Garfield surgisse como candidato republicano em 1880, um homem já acreditava ter desempenhado um papel fundamental em sua ascensão. Tratava-se do advogado fracassado e propagandista oportunista Charles J. Guiteau, que estava convencido de que seu discurso político — uma peça confusa e cheia de divagações — havia garantido a vitória do novo presidente. Inicialmente escrito como apoio à candidatura de Ulysses S. Grant, o texto fora adaptado às pressas para Garfield quando Grant demonstrou não ter votos suficientes para a indicação. Para Guiteau, não importava quem liderasse a chapa.
Quando Garfield venceu por margem estreita o general democrata Winfield Scott Hancock, diz o portal Smithsonian, Guiteau acreditou que chegara o momento de receber sua recompensa. Exigia nada menos que um cargo diplomático prestigioso, preferencialmente a missão em Viena ou o consulado em Paris. Escreveu insistentes cartas ao secretário de Estado James G. Blaine e a qualquer republicano influente que encontrasse em Washington. Invadiu repartições, abordou a primeira-dama e apresentou-se repetidamente no Departamento de Estado até Blaine, exasperado, encerrar a conversa com um ultimato: “Nunca mais me incomode com o consulado de Paris enquanto você viver.”
O inimigo e seu cúmplice
A verdade era que Garfield mal sabia quem Guiteau era. O discurso que o advogado tanto vangloriava jamais tinha sido lido por ninguém de relevância política. Guiteau não possuía experiência diplomática, tampouco havia trabalhado para o Partido Republicano. Quando se deu conta da realidade, surgiu em sua mente uma ideia paranoica, a convicção de que havia uma conspiração que impedia seu destino divinamente ordenado. Blaine era o grande inimigo. Garfield, cúmplice. O sistema de espólios estava sendo destruído por reformadores que rejeitavam favorecimentos políticos, e ele seria a primeira vítima dessa nova era. Restava apenas uma solução: remover o presidente.
Enquanto isso, Garfield vivia um momento improvável. Entrara na Convenção Nacional Republicana de 1880 sem intenção de concorrer. Seu papel era, segundo a fonte, apenas discursar em apoio ao secretário do Tesouro John Sherman. Mas suas palavras, carregadas de metáforas náuticas e entusiasmo retórico, incendiaram o salão. Delegados começaram a sussurrar que aquele homem, nascido na pobreza, autodidata e honrado, talvez fosse o verdadeiro nome de consenso. E após diversas votações estagnadas entre Grant, Blaine e Sherman, Garfield emergiu como o candidato surpresa. Mais tarde, foi eleito presidente, tendo Chester A. Arthur como vice.

Disparos
Enquanto Garfield assumia o cargo tentando conter as rivalidades internas do partido, Guiteau vagava por Washington alimentando sua obsessão. Em 2 de julho de 1881, na estação ferroviária Baltimore & Potomac, aproveitando-se da publicidade dos movimentos presidenciais, posicionou-se entre a multidão. Às 9h20, disparou dois tiros. O primeiro roçou o ombro do presidente; o segundo atravessou suas costas. Capturado quase imediatamente, Guiteau proclamou: “Arthur é presidente agora.”
Garfield, porém, não morreu ali. Sua agonia se estenderia por oitenta dias em uma tortura lenta, agravada por erro médico. O doutor Willard Bliss, resistente às práticas antissépticas já difundidas por Joseph Lister, insistiu em manipular a ferida com instrumentos não esterilizados. Reabriu o canal do tiro repetidas vezes em busca da bala e impediu Alexander Graham Bell de examinar adequadamente o paciente com seu detector de metais experimental. A infecção avançou, e Garfield morreu em 19 de setembro de 1881, vítima de septicemia.
Enviado de Deus
Durante o julgamento, Guiteau insistiu que era um enviado de Deus. Declarou-se inocente, alegando que apenas disparara — os médicos haviam matado o presidente. Sua defesa argumentou insanidade, mas o júri rejeitou a justificativa. Assim, Guiteau foi enforcado em 30 de junho de 1882, deixando como últimas palavras um poema que dizia expressar sua paz espiritual. Nas últimas décadas, especialistas sugeririam que ele sofria de uma doença mental, talvez agravada por malária crônica ou sífilis cerebral.
A morte de Garfield transformou também a vida e a carreira de Chester A. Arthur. Até então um fiel servidor da máquina política do senador de Nova York Roscoe Conkling, Arthur ficou devastado com o crime cometido em seu “benefício”. A hostilidade pública era tão forte que temia por sua vida. Mas algo nele mudou. Distanciou-se de Conkling e rompeu com o sistema de despojos. Em 1883, sancionou a Lei Pendleton, a primeira grande reforma do serviço público nos Estados Unidos, que estabelecia critérios de mérito em substituição ao favoritismo político.