Matérias / Charlie Sem-Rosto

Charlie Sem-Rosto: A comovente história por trás da lenda que assombra a Pensilvânia

Em meados de 1950, surgiu a lenda de um homem sem rosto que vagava pela noite e assombrava a região; mas a história não era tão ficcional quanto muitos imaginam

Foto de Raymond Robinson - Creative Commons

Oeste da Pensilvânia, Estados Unidos. Meados da década de 1950. Uma lenda sobre uma figura misteriosa começa a assombrar a região. Segundo dizem, um homem desconhecido vagava pelas estradas escuras à noite. 

Versões variam da história. Umas chamam o personagem de “Homem Verde”, outras de “Charlie Sem-Rosto”. Elas apontam que o sujeito seria o espírito de um operário que caiu em um tanque de ácido; o que teria lhe deixado desfigurado. 

Além disso, a criatura de forma espectral ainda brilharia em verde. A lenda aponta que o Homem Verde afugentava adolescentes estacionados na rua e até mesmo fazia os carros que tocava pararem devido a uma “carga” elétrica que ele podia produzir.

Mas a verdade é uma só. Charlie Sem-Rosto não era uma criatura mítica perigosa: ele era um morador local chamado Raymond Robinson.

Quando criança, Robinson acabou sofrendo uma grave eletrocussão. Embora tenha escapado com vida, sofreu sequelas significativas: perdeu grande parte do seu rosto. 

Na fase adulta, para evitar ser ridicularizado por sua aparência, tinha o costume de caminha pela noite. 

Raymond não era perigoso, mas sua natureza solitária e aparência chocante deram origem ao mito de um bicho-papão que rondava a zona rural da Rodovia Estadual 351. Conheça sua história completa!

++ Caos cretense e a vingança divina: conheça a lenda do minotauro

A lenda do Homem Verde

Como já dito, a lenda do Homem Verde surgiu em algum momento dos anos 1950, quando moradores que dirigiam pela Rodovia Estadual 351, no oeste da Pensilvânia, tarde da noite, avistaram Raymond Robinson em seu passeio noturno. 

As testemunhas oculares passaram a espalhar para amigos e familiares o avistamento de uma figura sem rosto que surgia nos faróis de seus carros e desaparecia na escuridão. Os demais detalhes foram ganhando forma através da imaginação popular. 

Logo a notícia se espalhou. Tratavam-no como uma figura cambaleando pelo acostamento que podia ser vista em noites sem lua. Chamavam-no de Homem Verde ou Charlie Sem-Rosto. Era um fantasma sem rosto, brilhando em um verde pálido na escuridão.

Os contos mudaram, dependendo de quem contasse sua história. O mais básico de tudo era que o personagem era o espírito de um jovem que havia morrido em um terrível acidente décadas antes. 

Raymond Robinson no final da década de 1950 – Foto pessoal de Paul Bauer

Algumas versões dizem que ele havia tocado em um fio elétrico caído durante uma tempestade. Outros diziam que ele fora atingido por um raio enquanto passava por uma ponte. Alguns sussurravam que ele foi atropelado por um trem, tendo o rosto completamente desfigurado.

Independente da causa, seu destino era certo: estava amaldiçoado a vagar eternamente pelas estradas; um espectro sem rosto em busca de algo que jamais encontraria — talvez seu próprio reflexo perdido, talvez a paz.

Os que diziam tê-lo visto sempre relataram que o Homem Verde era inofensivo. Ele simplesmente caminhava pelas ruas, sem nunca falar com ninguém ou se aproximar dos motoristas. 

E de vez em quando, alguém encontrava uma tampa de garrafa de cerveja na beira da estrada ou uma bituca de cigarro ainda levemente quente e se perguntava: Será que era mesmo só uma lenda?

A verdadeira história 

Apesar da lenda relatar que o Homem Verde perseguia ou assustava as pessoas, isso era a mais pura invenção. Apesar disso, o restante não era distante da realidade. 

Em 1919, o The Daily Times reportou que Raymond Robinson tinha oito anos quando levou um choque ao tentar alcançar um ninho de pássaro em uma ponte. Robinson tocou por acidente um fio de alta tensão, recebendo uma carga de 11 mil volts. 

Só restam buracos onde ficavam seus olhos”, descreve a reportagem. “Uma de suas mãos sumiu e ambos os braços estão em péssimo estado. A parte superior do corpo apresenta marcas de queimaduras graves.”

Antes do fatídico episódio, porém, Raymond era uma criança normal. Nascido no Condado de Beaver em 1910, ele tinha diversos amigos. Certo dia, ele e seu grupo foram para um lago próximo quando avistaram um ninho de pássaro no topo de uma ponte de bonde.

A construção já tinha fama de ser extremamente insegura. Afinal, um ano antes, um menino de 12 anos, Robert Littell, brincava na estrutura quando tocou em um fio de alta tensão e morreu devido a queimaduras elétricas.

Apesar de saberem da história, Robinson e seus amigos estavam decididos a ver o que havia dentro do ninho. Quando Raymond subiu na ponte, ele acidentalmente tocou em um fio de alta tensão. O choque de alta voltagem tão forte que arrancou boa parte do rosto.

Apesar dos médicos não acreditaram que ele sobreviveria, ele escapou — mas sem os olhos, o nariz e parte de um dos braços. 

Depois que recebeu alta médica, Raymond Robinson passou a viver isolado em casa na casa de sua família, na Pensilvânia. Por lá, ele fabricava cintos, carteiras e capachos, em troca de alguns trocados. 

Raymond só saia de casa na calada da noite, a fim de evitar ser ridicularizado por sua aparência.

Encontro com Charlie Sem-Rosto 

Foi em uma dessas caminhadas noturnas que a lenda do Homem Verde, ou Charlie Sem Rosto, surgiu. Tudo começou quando estudantes do ensino médio o avistaram às margens da Rodovia Estadual 351. 

O apelido de Homem Verde, muito provavelmente, surgiu pela forma como os faróis dos carros refletiam em suas roupas, quando o iluminavam pela noite. 

Em 2018, em entrevista ao Pittsburgh Post-Gazette, uma moradora local relembrou de ter visto Robinson uma vez. “Fiquei tão assustada que parecia surreal.”

Apesar de algumas pessoas ficarem assustadas com ele, outras se tornaram suas amigas e frequentemente lhe traziam bebidas e cigarros para seus passeios noturnos. 

A gente costumava sair e dar cerveja para ele”, disse Pete Pavlovic, outro morador local, ao Post-Gazette. Ele observou que as pessoas frequentemente se encontravam na lanchonete onde trabalhava antes de saírem para tentar avistar o Homem Verde.

Raymond Robinson na companhia de alguns adolescentes – Arquivo Pessoal

Pavlovic acrescentou que aqueles que não conheciam Raymond Robinson muitas vezes ficavam chocados e aterrorizados ao vê-lo: “Eles queriam chamar a polícia. Você tinha que explicar. Depois, geralmente, eles voltavam para procurá-lo.”

O morador também relatou que muitas pessoas ofereciam carona para Robinson, mas ao invés de levá-lo para casa, elas deixavam ele em um local desconhecido, apenas como uma brincadeira cruel. 

Apesar desse tratamento, Robinson era um “cara muito legal”, segundo Phil Ortega, natural de Koppel e colega de escola da irmã de Robinson

Raymond Robinson faleceu em 11 de junho de 1985, aos 74 anos, por causas naturais.Apesar de sua morte, a lenda do Homem Verde ou do Charlie Sem-Rosto permanece viva ainda hoje. 

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!