Os cemitérios de baleias que transformam os oceanos profundos no Ártico
Acúmulo de ossos de baleias em águas rasas revela impacto da caça e perda de nutrientes essenciais para a vida nas profundezas marinhas

No leste da Groenlândia, uma cena registrada sob o gelo marinho revela um fenômeno que vai além da estética impressionante: ela expõe como a intervenção humana pode alterar profundamente os ciclos ecológicos do oceano profundo.
A imagem, capturada pelo fotógrafo subaquático Alex Dawson, mostra um conjunto de esqueletos de baleias-anãs acumulados em águas rasas — um cenário incomum que contrasta com o destino natural desses animais após a morte.
Cemitério de baleias
A jornada até o local foi marcada por condições extremas. A equipe percorreu cerca de uma hora a pé e em motos de neve, enfrentando temperaturas de -20 °C e ventos intensos. Carregando equipamentos de mergulho, câmeras e suprimentos em trenós, os mergulhadores precisaram ainda abrir manualmente um buraco no gelo com aproximadamente um metro de espessura para acessar o oceano. O processo levou horas. Ao final, restou uma abertura triangular estreita que servia como única entrada e saída.
Foi por esse acesso limitado que Dawson iniciou a descida. Equipado com traje seco, capuz e luvas, ele mergulhou na água escura e gelada. Mesmo protegido, relatou o impacto do frio extremo. “Senti como se meu rosto estivesse se desprendendo”, afirmou. Preso a uma corda de segurança, avançou em direção ao fundo, onde a visibilidade era inicialmente quase nula. “É apenas o abismo negro abaixo de você. Você sente como se todas essas criaturas estivessem lá [nas profundezas], olhando para você”, disse.
À medida que seus olhos se ajustaram, a paisagem começou a se revelar. A cerca de cinco metros de profundidade, iluminados por uma luz azul filtrada pelo gelo, estavam espalhados os restos mortais de cerca de 20 baleias-anãs. “Comecei a olhar em volta e pensei: ‘Isso é incrível. Há tantos ossos por toda parte.’”

Oásis das profundezas
O cenário, apesar de impactante, não representava apenas um registro visual singular. Ele indicava uma ruptura em um processo ecológico essencial. Em condições naturais, baleias que morrem em alto-mar têm seus corpos afundados até o fundo do oceano, onde se tornam fontes concentradas de nutrientes em ambientes geralmente pobres. Esses chamados “cemitérios de baleias” funcionam como verdadeiros oásis de vida nas profundezas, segundo a BBC.
Segundo especialistas, a decomposição de uma baleia segue etapas bem definidas. Inicialmente, o corpo pode flutuar devido ao acúmulo de gases, sendo consumido por organismos da superfície, como aves marinhas e tubarões. Com o tempo, a carcaça afunda, atravessando diferentes zonas oceânicas até alcançar o leito marinho, muitas vezes a milhares de metros de profundidade.
Uma vez no fundo, inicia-se uma fase de intensa atividade biológica. “Há uma fase inicial de necrofagia por organismos necrófagos de águas profundas”, diz Adrian Glover. “Isso inclui vertebrados como peixes-bruxa e tubarões-dorminhocos, bem como anfípodes necrófagos – pequenos crustáceos como camarões. Eles comem a carne, expondo os ossos.” Esse processo pode levar meses, até que reste apenas o esqueleto.
Na etapa seguinte, organismos especializados passam a colonizar os ossos. Entre eles estão os vermes do gênero Osedax, conhecidos como “vermes comedores de ossos”. “Eles são parentes dos vermes tubulares de fontes hidrotermais”, explica Glover, “mas desenvolveram a capacidade de degradar o osso diretamente e consumir as gorduras e o colágeno dentro dele”. Paralelamente, substâncias liberadas pela decomposição, como lipídios e enxofre, alimentam bactérias e outros organismos, criando um ambiente rico em vida.
Esse estágio final, chamado de “sulfofílico”, pode durar décadas e sustentar uma diversidade biológica significativa. Estima-se que carcaças de baleias possam abrigar centenas de espécies, muitas delas exclusivas desses ambientes. Esses ecossistemas desempenham um papel fundamental na biodiversidade marinha profunda e podem funcionar como pontos de conexão entre habitats distantes.
Restos em águas rasas
No entanto, a cena registrada na Groenlândia mostra que esse ciclo pode ser interrompido. Em vez de afundarem até grandes profundidades, os restos das baleias permanecem em águas rasas. Isso ocorre porque, na região, a caça de subsistência ainda é praticada. Após a captura, os animais são levados até áreas costeiras onde comunidades locais removem a carne, a gordura e a pele. Restam apenas os ossos, que posteriormente são devolvidos ao mar pelas marés.
Esse processo impede que grandes quantidades de matéria orgânica cheguem ao fundo do oceano, reduzindo a oferta de nutrientes nesses ambientes. Mesmo em regiões onde a captura anual é relativamente pequena, o impacto pode ser significativo ao longo do tempo. A diminuição no número de carcaças que atingem as profundezas está associada à redução da biodiversidade e pode ter contribuído para o desaparecimento de espécies antes mesmo de serem identificadas.
Além da caça de subsistência, a história recente da exploração industrial de baleias também ajuda a explicar esse cenário. Ao longo do último século, a caça em larga escala levou à morte de milhões de indivíduos. Em muitos casos, apenas partes específicas dos animais eram aproveitadas, enquanto o restante era descartado em águas rasas ou próximo à costa, alterando ainda mais o ciclo natural de decomposição.
A fotografia de Dawson, premiada como Fotografia Subaquática do Ano de 2024, sintetiza visualmente esse impacto. O registro não apenas documenta um momento raro, mas também evidencia a ausência de processos ecológicos que deveriam ocorrer longe da vista humana, nas profundezas do oceano.

Vale mencionar que, mesmo com a redução populacional das baleias, ainda existem casos em que carcaças conseguem atingir o fundo do mar e sustentar ecossistemas complexos. No entanto, especialistas apontam que o número atual é significativamente menor do que no passado.
“Ainda estamos numa era de baixíssima população de baleias”, afirma Greg Rouse, curador de invertebrados bentônicos do Instituto Scripps de Oceanografia em San Diego, Califórnia. “Portanto, provavelmente há muito menos esqueletos de baleias no fundo do mar do que costumava haver. O que me impressionou é que ainda vemos ecossistemas prósperos formados por carcaças de baleias hoje em dia. Mas será que perdemos algo quando tivemos um declínio tão catastrófico na população de baleias? Não sabemos.”
A cena sob o gelo da Groenlândia, portanto, vai além de um registro visual impactante. Ela revela como mudanças aparentemente localizadas podem ter efeitos amplos em ecossistemas pouco visíveis, mas essenciais para o equilíbrio da vida marinha.