Cartas de amor revelam afetos e sacrifícios na história britânica
Mostra em Londres apresenta mensagens de reis, escritores, espiões e cidadãos comuns que revelam amor, lealdade e dor em cinco séculos da história britânica

Declarações de amor, lealdade e sacrifício produzidas ao longo de cinco séculos da história britânica estão reunidas em uma nova exposição inaugurada nos Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha. Intitulada “Cartas de Amor”, a mostra foi aberta ao público a tempo do Dia dos Namorados e apresenta correspondências escritas por monarcas, escritores, espiões, celebridades e cidadãos comuns.
A exposição está em cartaz nos Arquivos Nacionais, em Kew, Londres, com entrada gratuita até 12 de abril de 2026. Entre os documentos em destaque estão uma carta endereçada à rainha Elizabeth I, o testamento manuscrito de Jane Austen e um apelo pedindo a libertação de Oscar Wilde da prisão.
“Os Arquivos Nacionais guardam uma surpreendente variedade de expressões de amor — algumas criminalizadas, não consumadas ou tragicamente interrompidas — encontradas ao longo de 500 anos de registros estaduais”, afirma Vicky Iglikowski-Broad, principal especialista em registros do Conselho dos Arquivos Nacionais, em comunicado. Segundo ela, “esta exposição leva os visitantes a uma jornada de conexão emocional e reflexão, revelando como o amor conecta todos os tipos de pessoas e assume muitas formas, frequentemente nos lugares mais inesperados”.
Amores do passado
Um dos itens mais emblemáticos da exposição é a última carta enviada à rainha Elizabeth I por Robert Dudley, Conde de Leicester, um de seus principais pretendentes. Escrita pouco antes da morte de Dudley, em 1588, a carta foi encontrada ao lado da cama da monarca quando ela morreu, 15 anos depois. Elizabeth nunca se casou, e a missiva estava marcada com as palavras “sua última carta” [sic].

A mostra também evidencia como expressões de amor atravessam diferentes classes sociais. Um exemplo é uma petição de 1851 escrita por Daniel Rush, um tecelão desempregado de 71 anos, que implora às autoridades para que não o separem de sua esposa, enviando-os para asilos diferentes. O documento é exibido ao lado do Instrumento de Abdicação de Eduardo VIII, que renunciou ao trono em 1936 para se casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada.
Há muita conexão entre esses dois itens, embora à primeira vista pareçam muito diferentes”, disse Iglikowski-Broad à Associated Press. “Eles têm em comum esse sentimento humano de amor… a ideia de que o sacrifício realmente vale a pena por amor.”
Sacrifício e segredo também marcam a relação entre John Cairncross e Gloria Barraclough. Cairncross era um funcionário público britânico que mais tarde seria identificado como um espião que vazava informações para a União Soviética. Barraclough, ao que tudo indica, nunca soube que o amante levava uma vida dupla.
“Escrever para você parece ter um efeito mágico sobre mim”, escreveu Cairncross em uma carta de 1944. “Suas cartas têm uma leveza, vivacidade e alegria de viver… uma voz fresca de um passado requintado.”
As cartas entre Cairncross e Barraclough foram descobertas pelo filho dela, Tom Brass, escondidas em um exemplar da autobiografia do espião. Antes que ele pudesse questionar a mãe sobre o conteúdo, ela faleceu. “Minha mãe pertencia a uma categoria de mulheres cujas vidas eram consideradas de pouco ou nenhum interesse”, disse Brass ao The Guardian. “Mas essas cartas de amor… mostram que, antes de ser esposa e mãe, ela era amada por um espião por sua vivacidade e inteligência.”

Outras cartas
Nem todos os documentos da exposição tratam de amor romântico. Há também manifestações de afeto familiar, pedidos de justiça e expressões de indignação. O testamento de Jane Austen, escrito à mão em 1817, deixa todos os seus bens para sua irmã Cassandra. Já uma série de cartas escritas por cidadãos comuns defende Ira Aldridge, dramaturgo e um dos primeiros atores negros a interpretar obras de Shakespeare, que enfrentou o racismo ao longo da carreira.
Outro documento marcante é uma carta de Lord Alfred Douglas, destinatário de “De Profundis”, uma das mais famosas cartas de amor escritas por Oscar Wilde. Nela, Douglas implora à rainha Vitória que perdoe Wilde, preso por sua homossexualidade, conforme repercute a Smithsonian Magazine.

Reunindo histórias íntimas e documentos oficiais, a exposição “Cartas de Amor” revela como sentimentos pessoais atravessam a história e permanecem preservados nos arquivos do Estado britânico.