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Canadá mobilizou 10% da população na Segunda Guerra Mundial

Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, o Canadá enviou cerca de 1,1 milhão de pessoas às Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial

Canadá Segunda Guerra capa
Tropas da Força Aérea do Canadá em 1940 - Getty Images

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em 1939, o Canadá já possuía autonomia política em relação ao Reino Unido, embora os laços entre os dois países permanecessem extremamente fortes. O país havia conquistado sua independência em 1867 e teve sua soberania reconhecida plenamente apenas em 1931, com o Estatuto de Westminster, que encerrou seu status de domínio autônomo do Império Britânico. Ainda assim, a ligação histórica, política e militar com Londres fez do Canadá um dos principais aliados britânicos ao longo de todo o conflito.

Mesmo contando com uma população que ultrapassava pouco os 11 milhões de habitantes, o país realizou uma das maiores mobilizações proporcionais da guerra. Aproximadamente 1,1 milhão de canadenses serviram no Exército, na Marinha Real Canadense e na Força Aérea Real Canadense, o equivalente a cerca de 10% da população nacional da época. Essa participação ocorreu em praticamente todos os principais teatros de operações, incluindo Europa, Norte da África, Oceano Atlântico, Pacífico e Mediterrâneo.

O esforço humano teve um custo elevado. Segundo dados apresentados pelo historiador Edward Humphreys no livro Great Canadian Battles: Heroism and Courage Through the Years, aproximadamente 42 mil canadenses morreram durante a guerra, enquanto outros 55 mil ficaram feridos em combate.

Ao longo do conflito, tropas canadenses atuaram ao lado das forças de toda a Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth), desempenhando papéis relevantes em algumas das operações mais importantes da campanha aliada. Um dos momentos mais marcantes ocorreu em 6 de junho de 1944, durante o Dia D, quando a 3ª Divisão de Infantaria Canadense liderou o desembarque na Praia de Juno, uma das cinco áreas escolhidas para a invasão da Normandia.

A mobilização em várias frentes

A atuação militar do país não se restringiu ao litoral francês. A Marinha Canadense teve papel importante na longa Batalha do Atlântico, responsável por proteger comboios de abastecimento entre a América do Norte e a Europa. O país também participou da fracassada operação anfíbia de Dieppe, da campanha das Ilhas Aleutas, da invasão da Itália e da Batalha das Ardenas, defendendo posições estratégicas nas fronteiras entre Bélgica e Luxemburgo. Em menor escala, forças canadenses também contribuíram em operações no Pacífico, incluindo ações ligadas à libertação de Hong Kong.

Registro da Operação de Dieppe, em 1942 – Getty Images

Na fase final da guerra, o protagonismo canadense tornou-se ainda mais evidente. Entre as forças responsáveis pela ocupação da Alemanha após a rendição nazista, cinco divisões eram canadenses. Essas mesmas tropas também participaram da libertação da França e dos Países Baixos, consolidando a reputação do país como um dos pilares militares da coalizão aliada.

Além da participação militar, o Canadá tornou-se uma potência industrial durante o conflito. Sua indústria bélica ampliou significativamente a produção de armas, munições, veículos militares e equipamentos diversos destinados tanto às próprias forças quanto aos demais aliados.

O país também desempenhou papel estratégico no fornecimento de matérias-primas essenciais. Entre 1939 e 1945, produziu cerca de 140 mil toneladas de níquel, metal indispensável para a fabricação de aço inoxidável empregado em armamentos. Na época, o Canadá era o maior produtor mundial desse minério, superando amplamente outras regiões produtoras. O petróleo também ocupou posição estratégica no esforço canadense. O país fornecia aproximadamente 30 mil barris diários aos Aliados.

No setor agrícola, o Canadá também assumiu papel decisivo. Responsável por cerca de 13% das exportações agrícolas mundiais durante o conflito, tornou-se o segundo maior exportador de grãos e cereais, atrás apenas dos Estados Unidos. Trigo, centeio e aveia figuravam entre seus principais produtos.

Sua localização geográfica igualmente favoreceu o esforço aliado. O território canadense serviu como escala fundamental na principal rota marítima que conectava Estados Unidos e Reino Unido, permitindo que muitos navios evitassem áreas do Atlântico Norte onde submarinos alemães da classe U-boat operavam com maior intensidade.

O país ainda ofereceu suporte logístico, atendimento médico e abrigo para prisioneiros de guerra libertados, além de receber refugiados judeus que escapavam da perseguição nazista, inclusive após o encerramento do conflito.

Apesar da intensa participação na guerra, o território canadense sofreu poucos ataques diretos. O episódio mais grave ocorreu em 1942, durante a Batalha do Rio São Lourenço, quando submarinos alemães invadiram águas costeiras canadenses, afundaram cinco embarcações e provocaram a morte de cerca de 250 pessoas.

O Canadá ainda colaborou com o Projeto Manhattan, responsável pelo desenvolvimento da bomba atômica. O país forneceu água pesada — composta por óxido de deutério e utilizada como moderadora de nêutrons em reatores nucleares — a partir das instalações de Port Hope, em Ontário. Cientistas canadenses, como o físico-químico Louis Slotin, também participaram das pesquisas. Em 1944, foi construída a cidade de Deep River para abrigar o Chalk River Nuclear Laboratory, um dos centros de pesquisa ligados ao programa nuclear aliado.

A ferida social ao fim da guerra

Entretanto, a atuação canadense durante a guerra também foi marcada por políticas discriminatórias. Inspirado em medidas semelhantes adotadas pelos Estados Unidos, o governo canadense apoiou restrições direcionadas principalmente às populações de origem japonesa. Pessoas descendentes de japoneses enfrentaram limitações para se casar com cidadãos caucasianos, estudantes foram segregados em escolas e famílias sofreram diversas restrições de direitos civis.

Terminada a guerra, milhares de nipo-canadenses receberam a opção de serem repatriados para o Japão ou permanecerem no Canadá, desde que se mudassem para regiões localizadas a leste das Montanhas Rochosas. Em diversos casos, suas propriedades foram confiscadas e leiloadas pelo governo. Somente em 1988, 42 anos após o fim do conflito, essas famílias receberam indenizações oficiais, acompanhadas de um pedido formal de desculpas do Estado canadense.


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