As heranças da ditadura: marcas que o Brasil ainda sente
O regime militar aprofundou de forma deliberada as desigualdades sociais, cujos efeitos ainda recaem principalmente sobre a população mais pobre

A ditadura militar brasileira (1964-1985) deixou feridas que ainda não cicatrizaram. Seu legado não se limitou à censura e à repressão política: ele aprofundou desigualdades, normalizou a exclusão social e institucionalizou a negação da justiça.
As marcas deixadas por ela são sentidas principalmente pela população mais pobre. A desigualdade social e o aumento da pobreza não foram um efeito colateral do desenvolvimento, mas um projeto deliberado.
Pobreza: um projeto de Estado
O chamado “Milagre Econômico” trouxe crescimento acelerado do PIB e modernização industrial, mas o custo social foi devastador. Enquanto o regime exibia grandes obras de infraestrutura, os salários eram contidos e a renda se concentrava.
Nos anos 70, os 10% mais ricos detinham quase metade da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres sobreviviam com menos de 15%. Sustentado por alto endividamento externo, esse modelo gerou crises inflacionárias nas décadas seguintes e consolidou a pobreza estrutural.
O governo impôs um arrocho salarial que reduziu o poder de compra do salário mínimo em cerca de 20% logo nos primeiros anos, priorizando o lucro das empresas. Esse cenário, somado à explosão da desigualdade, agravou a fome: na década de 1970, estima-se que dois terços da população sofriam de desnutrição, enquanto o regime censurava dados sobre a miséria para manter uma imagem fictícia de progresso.
Sequelas urbanas: segregação e abandono
A modernização autoritária impôs ao Brasil um rodoviarismo radical. Para favorecer a indústria automobilística, o regime erradicou ferrovias e ignorou hidrovias, legando um sistema de transporte caro e dependente do petróleo.
Nesse modelo, o transporte público foi reduzido a concessões de ônibus precárias que, sem integração com os centros de emprego, tornaram-se barreiras econômicas. O trabalhador, empurrado para as margens da cidade, foi condenado a trajetos exaustivos, consolidando uma segregação que separava quem desfrutava da cidade de quem era apenas mão de obra.
Essa lógica de exclusão foi reforçada na habitação. O Estado substituiu o direito à moradia pela ótica da especulação: remoções forçadas destruíram assentamentos populares em áreas centrais para valorizar o solo urbano.
Financiadas pelo BNH, novas “cidades-dormitório” surgiram em periferias extremas, marcadas pelo vazio absoluto de saneamento. Ao concentrar investimentos apenas em áreas nobres, o regime institucionalizou o esgoto a céu aberto como regra para a periferia. A saúde tornou-se um privilégio: enquanto o atendimento público estagnava, o número de hospitais com fins lucrativos saltou de 944 para 2.121, consolidando uma “privatização branca” que punia os mais vulneráveis.
Um legado de violência e vigilância
A repressão militar institucionalizou a pobreza como uma questão de polícia, não de direitos. Nas periferias, o silenciamento de lideranças transformou o Estado em um agente do medo, nunca da cidadania. Esse vácuo de proteção, somado a um urbanismo focado no controle social, pavimentou o caminho para grupos de extermínio que evoluíram para as milícias que hoje asfixiam o país.
O que vemos em 2026 é o amadurecimento desse projeto de exclusão, garantido pela permanência de polícias que operam sob uma lógica de guerra. Ao manter as forças de segurança como instituições militarizadas voltadas ao combate de um “inimigo interno”, o Estado preservou o DNA da ditadura.
A tortura e a execução sumária — ferramentas oficiais do regime — foram naturalizadas como práticas cotidianas de uma segurança pública que mira, quase exclusivamente, o corpo negro e pobre.
Hoje, a letalidade policial recorde e o domínio das milícias são faces da mesma moeda. Esses poderes fortaleceram-se nas sombras de uma democracia que não desmantelou os porões de 1964. O resultado é uma sociedade que, moldada por décadas de repressão, passa a naturalizar a truculência estatal.
O policiamento de confronto deixa de ser visto como uma anomalia para ser aceito como ferramenta de controle, consolidando o arbítrio como regra de sobrevivência.
O sussurro dos desaparecidos
A questão dos desaparecidos na ditadura permanece como uma ferida aberta. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, ao menos 434 pessoas foram assassinadas ou desapareceram por motivações políticas, e centenas de famílias seguem sem paradeiro até hoje. Recentemente, o filme “Ainda Estou Aqui” resgatou essa memória, expondo como o silêncio imposto pelo regime foi uma forma continuada de crueldade. A obra não apenas retrata a violência física, mas a agonia da espera e a labirinto burocrático para obter respostas.
A luta da família Paiva por uma justiça mínima revela uma verdade ainda mais dura: se para uma família influente, com redes de apoio no Brasil e no exterior, a busca por respostas levou décadas, para os pobres o silenciamento é quase absoluto.
A história de Rubens Paiva dá rosto a uma tragédia coletiva, mas os desaparecidos das periferias e dos campos permanecem, em sua maioria, nomes sem rosto, sepultados pelo esquecimento.
Embora o cinema tente devolver a dignidade a essas vítimas, para muitas delas o direito à fala ainda é negado. São vozes interrompidas que hoje não passam de sussurros, gritos abafados pela poeira do tempo e por um Estado que, ao negar a memória e a justiça, insiste em manter o silêncio sobre sua própria história.
Sobre o autor: Felipe de Caux é pediatra e nefrologista pediátrico, formado pelo Instituto Superior de Ciências Médicas de Santiago de Cuba e especializado pela Santa Casa de Belo Horizonte. Mora há oito anos na Alemanha, onde passou por Berlim, Marburg e agora reside em Magdeburg. Enveredou pela área da saúde, mas cresceu em contato próximo com os grandes autores e sonhava em se tornar um escritor.

Como forma de sair da rotina, começou a escrever e publicou seu primeiro livro O presidente morreu (2022). Agora lança Entre montanhas e predições, obra de realismo fantástico que aborda a ditadura militar no Brasil.