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Arma mais antiga do mundo pode ter mais de 400 mil anos; veja candidatos!

Lança de Clacton, armas de Schöningen e pontas de Kathu Pan disputam o título de armamento mais antigo já identificado por arqueólogos; confira!

Ponta de lança de Clacton / Crédito: Divulgação/Annemieke Milks

A busca pela arma mais antiga do mundo leva a um passado muito anterior às tecnologias militares modernas. Embora atualmente o termo costume ser associado a armas de fogo, lâminas ou mísseis, evidências arqueológicas demonstram que seres humanos e outros hominídeos utilizavam instrumentos para caça e combate há centenas de milhares de anos.

Entre os principais candidatos ao título estão artefatos produzidos há mais de 400 mil anos. Alguns deles preservaram apenas fragmentos, enquanto outros chegaram quase intactos aos dias atuais, oferecendo pistas sobre a evolução tecnológica e o comportamento dos antigos grupos humanos.

De forma geral, armas são definidas como objetos empregados para causar danos a outros seres vivos. Segundo Ben Fitzhugh, professor de antropologia da Universidade de Washington, em Seattle, essa definição engloba tanto instrumentos utilizados em conflitos entre hominídeos quanto aqueles empregados na caça.

Entretanto, nem todo objeto capaz de causar ferimentos é automaticamente considerado uma arma pelos arqueólogos. De acordo com Rolf Warming, diretor fundador da Sociedade de Arqueologia de Combate e doutorando em arqueologia na Universidade de Estocolmo, o contexto em que o artefato é encontrado e sua provável finalidade são fundamentais para essa identificação.

Os especialistas analisam fatores como a presença de ossos de animais abatidos, ferramentas usadas na fabricação de armas, os materiais empregados na produção dos objetos e marcas de desgaste ou resíduos preservados nas peças. Esses elementos ajudam a determinar como os artefatos eram utilizados.

Com base nas evidências arqueológicas disponíveis, três descobertas são frequentemente apontadas como os exemplos mais antigos de armamentos já encontrados: a lança de Clacton, as lanças e bastões de arremesso de Schöningen e as pontas de lança de Kathu Pan 1.

Lança de Clacton

A lança de Clacton é considerada um dos mais antigos exemplos conhecidos de arma produzida por hominídeos. Os cientistas estimam que o artefato tenha mais de 400 mil anos.

O objeto preservado corresponde à ponta de uma lança, com cerca de 37 centímetros de comprimento. Pesquisadores acreditam que ela fazia parte de uma haste maior, que pode ter sido quebrada acidentalmente durante uma caçada ou deliberadamente em algum tipo de ritual. A extremidade restante da arma nunca foi localizada.

Esculpida em madeira de teixo e cuidadosamente trabalhada até formar uma ponta afiada, a peça foi descoberta em 1911, em Clacton-on-Sea, no condado de Essex, na Inglaterra. Atualmente, encontra-se exposta no Museu de História Natural de Londres, onde é apresentada como o fragmento preservado de lança de madeira mais antigo conhecido.

Os arqueólogos atribuem sua fabricação ao Homo heidelbergensis ou aos neandertais, espécies que antecederam o Homo sapiens. Como os fósseis mais antigos da espécie humana moderna têm aproximadamente 300 mil anos, a arma parece ter sido produzida antes do surgimento do Homo sapiens.

O formato, as dimensões e o material utilizado indicam que se tratava de uma lança destinada à perfuração, sugerindo ainda que seus fabricantes empregavam estratégias cooperativas de caça.

Armas de Schöningen

Armas de Schöningen / Crédito: Divulgação/Volker Minkus

Outro importante conjunto arqueológico foi encontrado em Schöningen, na Alemanha. Desde 1992, escavações revelaram entre 20 e 25 armas de madeira, incluindo lanças inteiras, fragmentos e bastões de arremesso confeccionados principalmente em madeira de abeto e pinheiro.

Segundo o Museu de Pesquisa de Schöningen, esses exemplares representam as armas de madeira completamente preservadas mais antigas já descobertas. Atualmente, as estimativas situam sua produção entre 200 mil e 300 mil anos atrás.

Inicialmente, acreditava-se que as armas haviam sido produzidas pelo Homo heidelbergensis. Estudos mais recentes, publicados em 2025, sugerem que elas podem ter sido fabricadas por neandertais.

As lanças medem, em média, pouco mais de dois metros de comprimento. Cientistas acreditam que fossem utilizadas tanto para estocadas quanto como armas de arremesso durante a caça de grandes mamíferos, como cavalos. Já os bastões de arremesso, menores, possuem aproximadamente 65 centímetros.

“Na verdade, as [armas de Schöningen] foram encontradas junto a cavalos abatidos”, observou Fitzhugh. As análises também indicam que as lanças passaram por processos de afiação, endurecimento e exposição ao fogo. “Esses objetos foram moldados de uma forma dinamicamente sofisticada”, disse ele ao Live Science.

Para Warming, o conjunto de Schöningen demonstra que esses grupos dominavam diferentes materiais e adaptavam suas estratégias de caça conforme a distância entre os caçadores e suas presas.

Pontas de Kathu Pan 1

Ponta de lança de Kathu Pan / Crédito: Divulgação/Jayne Wilkins

Outro candidato ao título de arma mais antiga do mundo foi encontrado em Kathu Pan, na África do Sul.

Nesse sítio arqueológico, pesquisadores descobriram pontas de pedra com cerca de 500 mil anos. As peças apresentam marcas de desgaste nas bordas e um formato compatível com o de pontas de lança fixadas em cabos de madeira.

Caso essa interpretação esteja correta, as armas seriam anteriores tanto ao Homo sapiens quanto aos neandertais e poderiam ter sido produzidas pelo Homo heidelbergensis, que ocupava regiões do sul da África naquele período.

Os arqueólogos sugerem que essas lanças eram utilizadas em ataques de emboscada.

Apesar disso, nem todos os especialistas concordam com essa interpretação. Alguns pesquisadores classificam as evidências como indiretas ou até controversas, já que nenhum cabo de madeira foi encontrado junto às pontas de pedra para confirmar definitivamente que elas eram armas e não apenas ferramentas.

Armas ainda mais antigas podem ter existido

Embora esses três conjuntos estejam entre as evidências mais importantes disponíveis, especialistas acreditam que armas ainda mais antigas possam ter existido.

Segundo Warming, materiais orgânicos como madeira, fibras vegetais, tendões e adesivos provavelmente eram empregados na fabricação desses objetos. No entanto, esses elementos tendem a se decompor ao longo do tempo, reduzindo significativamente as chances de preservação.

Além do interesse histórico, essas descobertas ajudam os pesquisadores a compreender aspectos fundamentais do comportamento humano.

Para Warming, as armas antigas representam muito mais do que instrumentos de violência. Elas revelam a capacidade de combinar materiais, desenvolver soluções técnicas, compartilhar conhecimentos e cooperar dentro dos grupos.

Mesmo diante dos diferentes candidatos apresentados pelo registro arqueológico, o pesquisador considera que há um artefato que reúne as evidências mais sólidas. “Clacton é a resposta mais segura“.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.