Como Getúlio negociou a entrada do Brasil na Segunda Guerra?
Inicialmente neutro no conflito, o governo de Getúlio Vargas aguardou a evolução da guerra antes de se alinhar aos Aliados

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em setembro de 1939, o Brasil era governado por Getúlio Vargas sob o Estado Novo, regime autoritário implantado dois anos antes. Embora o presidente demonstrasse simpatia por aspectos dos regimes fascistas europeus, sua política externa foi marcada, nos primeiros anos do conflito, por uma postura pragmática de neutralidade.
Naquele momento, a maior parte dos países da América do Sul também optava por permanecer fora da guerra. A neutralidade permitia ao Brasil manter relações comerciais tanto com os países do Eixo quanto com os Aliados, exportando matérias-primas estratégicas para ambos os lados enquanto observava o desenrolar do conflito.
A posição brasileira começou a mudar gradualmente a partir de 1941. Em agosto daquele ano, Estados Unidos e Reino Unido divulgaram a Carta do Atlântico, documento que estabelecia princípios para a organização do mundo no pós-guerra. Vargas aderiu posteriormente ao texto, movimento interpretado como um primeiro gesto de aproximação diplomática com os Aliados, embora o governo continuasse negociando com diferentes parceiros comerciais.
Ao mesmo tempo, a guerra alterava seu equilíbrio militar. Em junho de 1941, a Alemanha rompeu o pacto de não agressão com a União Soviética ao lançar a Operação Barbarossa. Poucos meses depois, em dezembro, o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor levou os Estados Unidos a entrarem oficialmente no conflito. A partir daquele momento, Washington intensificou seus esforços para consolidar alianças no continente americano.
Outro fator decisivo para a mudança de posição do Brasil foram os ataques de submarinos alemães e italianos contra navios mercantes brasileiros. Diversas embarcações foram torpedeadas no Atlântico, provocando centenas de mortes e despertando forte reação da opinião pública. Manifestações contra o Eixo ocorreram em diferentes cidades, aumentando a pressão para que o governo abandonasse a neutralidade.
A entrada do Brasil na guerra
Em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, tornando-se o único país sul-americano a enviar tropas para o front europeu. A decisão também abriu caminho para uma cooperação militar sem precedentes com os Estados Unidos.
Um dos principais pontos do acordo envolvia a instalação de bases aéreas norte-americanas no Nordeste brasileiro. A mais importante delas foi construída em Natal, no Rio Grande do Norte, cuja localização era estratégica por representar o trecho mais curto entre a América do Sul e o continente africano. A estrutura tornou-se fundamental para o deslocamento de tropas, aeronaves e suprimentos rumo aos campos de batalha na África e, posteriormente, na Europa.
Em janeiro de 1943, o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt fez uma escala em Natal ao retornar da Conferência de Casablanca, no Marrocos. Durante o encontro com Getúlio Vargas, os dois chefes de Estado consolidaram os principais termos da cooperação entre os dois países, ampliando os compromissos assumidos após a declaração de guerra.
Além da cessão de bases militares, o governo brasileiro concordou em criar a Força Expedicionária Brasileira (FEB), unidade que desembarcaria na Itália em setembro de 1944 para atuar ao lado dos Aliados na campanha contra as tropas alemãs.

Em contrapartida, o Brasil foi incluído no programa norte-americano Lend-Lease, criado para fornecer assistência econômica e militar aos países aliados. Por meio desse acordo, o país recebeu aviões, navios, armamentos, veículos militares, equipamentos de comunicação e treinamento para integrantes da recém-criada Força Aérea Brasileira, da Marinha e do Exército.
Os recursos também financiaram projetos considerados estratégicos para a economia nacional. Entre eles estavam a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ), concebida para ampliar a produção de aço, e investimentos em infraestrutura ligados ao chamado Acordo de Washington, que impulsionou a extração de borracha na Amazônia durante a chamada Batalha da Borracha.
Outra iniciativa beneficiada pelos recursos foi a Estrada de Ferro do Amapá, construída para facilitar o escoamento de minérios e outros produtos destinados ao esforço de guerra aliado. As obras integravam um conjunto de investimentos que contribuíram para a modernização da infraestrutura brasileira durante o conflito.
A estratégia adotada por Vargas refletia uma política externa baseada na negociação entre interesses econômicos, militares e diplomáticos. Ao adiar sua decisão enquanto observava a evolução da guerra, o governo brasileiro conseguiu ampliar seu poder de barganha junto aos Estados Unidos e transformar o alinhamento aos Aliados em uma oportunidade para fortalecer as Forças Armadas e acelerar projetos de industrialização.
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