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“Advogado de Deus” torna dilemas espirituais um drama humano

O diretor Wagner Assis e as atrizes Beth Goulart e Lorena Comparato detalham como o Advogado de Deus articula justiça divina e livre-arbítrio

Advogado de Deus capa
Cena de Advogado de Deus - Ilque Esteves/Divulgação

Como transformar conceitos abstratos como justiça divina, karma e vidas passadas em uma experiência cinematográfica acessível e envolvente? Essa foi uma das principais questões enfrentadas por Wagner Assis em Advogado de Deus, novo longa que aposta na interseção entre espiritualidade e drama humano. Em entrevista ao Aventuras na História, o diretor e as atrizes Beth Goulart e Lorena Comparato discutiram os caminhos encontrados para dar forma a uma narrativa que equilibra tensão dramática, conflitos éticos e reflexões existenciais.

Advogado de Deus: a obra original

Segundo Assis, o ponto de partida foi um material já consolidado: o livro que inspira o filme. Para o diretor, essa base literária ofereceu uma vantagem decisiva na construção da adaptação. “Ali já existem todos os mecanismos dramáticos para se construir uma história”, explicou, destacando que o trabalho de transposição para o cinema consistiu em identificar os elementos mais humanos da trama e traduzi-los em linguagem audiovisual. A proposta, segundo ele, não é didatizar conceitos espirituais, mas inseri-los organicamente em uma história envolvente.

O cineasta enfatiza que o filme se ancora em conflitos reconhecíveis — relações familiares, crimes, injustiças e vínculos afetivos complexos — para então expandi-los sob uma perspectiva espiritual. “A gente quer olhar o que fala mais ao humano, com esses olhos espirituais”, afirmou. Nesse sentido, Advogado de Deus constrói sua tensão a partir do contraste entre leis humanas, frequentemente falhas, e uma ideia de justiça maior, que atravessa o tempo e as existências.

Essa abordagem, no entanto, não se apoia apenas em conceitos abstratos. Para Assis, valores como amor, perdão, compaixão e até sentimentos como raiva e injustiça já fazem parte da experiência cotidiana. “Não adianta dizer que a gente não entende as leis divinas, porque elas pulsam dentro da gente”, disse. A aposta do filme, portanto, está em reconhecer esses valores como expressões de algo maior, ainda que nem sempre plenamente compreendido.

Construção das personagens

No campo da atuação, Beth Goulart mergulhou em uma personagem marcada por traumas que atravessam diferentes existências. Para construir essa dimensão, a atriz descreve um processo intenso de investigação emocional e psicológica. “Foi um mergulho interno muito grande”, afirmou. A preparação envolveu tanto referências externas — especialmente histórias de mulheres que viveram relações abusivas ao longo da história — quanto uma busca interna por estados emocionais que dialogassem com a experiência da personagem.

Goulart destaca que o livro original foi uma fonte essencial para aprofundar nuances que não caberiam integralmente no roteiro. “No livro você encontra uma série de informações de situações de vida que esse personagem passou”, explicou. Esse material permitiu à atriz construir uma base emocional consistente, capaz de sustentar a complexidade da personagem, que vive em um ambiente opressivo, mas ainda assim mantém uma crença na justiça divina.

Apesar de reconhecer momentos de passividade na trajetória da personagem, Goulart enfatiza sua capacidade de transformação. “Eu vejo luz no fim do túnel”, disse, apontando que a personagem busca redenção por meio de ações positivas, como a caridade e o desejo de proteger a filha. Essa dualidade — entre opressão e esperança — é central para a construção dramática, revelando uma figura que, mesmo fragilizada, ainda acredita na possibilidade de mudança.

Lorena Comparato destacou a complexidade de Lídia, personagem que ocupa um papel central no entrelaçamento entre passado e presente. Para a atriz, um dos critérios fundamentais ao aceitar o papel foi identificar se a personagem possuía um arco próprio, independente das relações com outros personagens. “É um teste meu como atriz”, afirmou.

Beth Goulart (à esq.) e Lorena Comparato (à dir.) como Maria Julia e Lídia em Advogado de Deus – Ilque Esteves/Divulgação

Lídia, segundo Comparato, vai além de sua inserção em um triângulo amoroso. Sua trajetória também é marcada por conflitos familiares profundos, especialmente em um contexto de violência doméstica. Filha de uma mãe vítima e de um pai agressor, a personagem vive o dilema entre permanecer e fugir. “Existe uma sensação de impotência muito grande”, explicou a atriz, ressaltando como o medo pode limitar as possibilidades de ação.

Ainda assim, Lídia é descrita como uma figura potente, independente e “muito vocal”. Sua tentativa de romper com esse ciclo — seja ao desejar sair do país, seja ao confrontar a realidade familiar — revela uma personagem que busca afirmar sua autonomia, mesmo diante de estruturas opressivas. Ao retornar, no entanto, ela também demonstra um forte vínculo afetivo, especialmente com a mãe, o que intensifica seus conflitos.

Para Comparato, o filme também propõe uma reflexão sobre o poder das escolhas. “Todos os personagens estão escolhendo”, afirmou, destacando que a narrativa não se limita a vítimas e vilões, mas apresenta indivíduos que, em diferentes graus, decidem seus caminhos — seja para repetir padrões, seja para transformá-los.

Espiritualidade no cinema

Wagner Assis reforça essa ideia ao comentar o alcance do filme. Segundo ele, Advogado de Deus foi pensado tanto para quem já tem familiaridade com temas espirituais quanto para o público em geral. “A gente está apresentando uma obra narrativa de cinema que, por natureza, é ampla”, disse. A intenção é justamente evitar rótulos e permitir que diferentes espectadores se conectem com a história a partir de suas próprias experiências.

Ao refletir sobre sua trajetória, o diretor reconhece que o filme representa um aprofundamento em sua abordagem temática. “Todo filme coloca a gente em um lugar de aprendizado”, afirmou. Neste caso, o contato constante com a ideia de justiça divina influenciou sua própria forma de enxergar o mundo, especialmente diante de cenários de impunidade e desigualdade.

Para Assis, a noção de que todos responderão por seus atos — independentemente das falhas das instituições humanas — é um dos pilares da narrativa. Em Advogado de Deus, essa premissa não aparece como um discurso, mas como motor dramático de uma história que busca, acima de tudo, provocar o espectador a refletir sobre suas próprias escolhas.

Advogado de Deus estreou nos cinemas brasileiros no último dia 16 de abril, e seguem em cartaz nas telonas.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.