A verdade macabra que envolve a arte anatômica histórica

Conheça a verdade sombria por trás da arte anatômica histórica, agora revisitada por uma nova exposição no Museu de Medicina de Thackray, em Leeds, no Reino Unido

William Harvey dissecando o corpo de Thomas Parr - Crédito: Getty Images

Ao longo de séculos, corpos humanos reais serviram de base para que ilustradores científicos e artistas criassem imagens de notável complexidade e beleza. No entanto, por trás dessas representações minuciosas, escondem-se histórias sombrias, agora revisitadas por uma nova exposição.

O corpo retratado na famosa pintura A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (1632), de Rembrandt, por exemplo, tem a aparência idealizada de uma escultura clássica, com músculos definidos, postura quase heroica e uma luminosidade que remete ao mármore antigo. Ainda assim, não se trata de um herói da Grécia Antiga, mas de Adriaan Adriaanszoon, um homem executado e dissecado em público por ter cometido um crime banal: roubar um casaco de inverno.

Esse tipo de história atravessa os cinco séculos abrangidos pela exposição Beneath the Sheets: Anatomy, Art and Power (Sob os Lençóis: Anatomia, Arte e Poder), em cartaz no Museu de Medicina de Thackray, em Leeds, no Reino Unido. Como destaca uma matéria da BBC as gravuras anatômicas exibidas apresentam figuras quase sempre anônimas, expostas de forma muitas vezes perturbadora. Esses corpos ilustraram atlas médicos fundamentais para o avanço da medicina, consultados por anatomistas ou ostentados como peças de prestígio por colecionadores ricos. Nenhum deles, porém, consentiu que sua nudez e mutilação fossem eternizadas em livros ou penduradas em paredes.

Segundo Jamie Taylor, diretor de coleções, aprendizagem e programação do museu, a exposição convida o público a refletir sobre quem são os corpos que aparecem nos livros de anatomia, quem os desenhou e com que finalidade.

Os corpos retratados nestas páginas pertencem a pessoas que, ao longo da história, foram reprimidas, cujos direitos foram considerados secundários, negligenciáveis ou ignorados”, destaca.

Ilustrações problemáticas

Desde cedo, imagens foram consideradas essenciais para o ensino anatômico. O cirurgião e ilustrador John Bell, no século 18, chegou a afirmar que um livro de anatomia sem desenhos não era melhor do que um livro de geografia sem mapas. Suas gravuras detalhadas ajudaram a difundir conhecimentos sobre o corpo humano que poucos tinham visto fora dos teatros de dissecação. Contudo, essas imagens também refletem valores culturais, hierarquias sociais e visões de mundo de suas épocas.

Um exemplo revelador é a página de rosto de De Humani Corporis Fabrica (1543), de Andreas Vesalius, considerado o primeiro grande tratado anatômico baseado em dissecações reais. Nela, Vesalius aparece como protagonista de um espetáculo público, dissecando o corpo de uma trabalhadora do sexo executada. O gesto do bisturi revela à plateia — majoritariamente masculina — se a mulher estava grávida. A cena escancara a distância social e o desequilíbrio de poder entre o médico e o corpo examinado, enquanto o público-alvo dessas obras pertencia às elites, em contraste absoluto com os indivíduos representados.

No século 19, os avanços na litografia tornaram os livros médicos ainda mais luxuosos, com cores vibrantes e acabamento refinado. Obras como o Atlas Completo de Anatomia e Cirurgia Humana (1866), de JM Bourgery, eram tão valiosas que muitos compradores as exibiam em casa como se fossem peças de arte. Em certos casos, o próprio cadáver tornava-se um objeto expositivo. A história de Mary Billion ilustra esse extremo: após sua morte, em 1775, seu marido, com a ajuda do cirurgião William Hunter, embalsamou seu corpo e o exibiu vestido com o traje de noiva, primeiro na vitrine de um consultório e depois em casa, como estratégia para atrair clientes.

A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (1632), de Rembrandt – Crédito: Getty Images

Mercado clandestino

Mas as práticas perturbadoras não paravam por aí. Com a redução das execuções após leis que limitaram a pena de morte, surgiu um mercado clandestino de cadáveres liderado pelos chamados “homens da ressurreição”, que roubavam corpos recém-enterrados e os vendiam por altos valores às escolas de medicina. Assim, para proteger seus mortos, famílias abastadas utilizavam gaiolas funerárias ou mesmo lajes de pedra pesadas, enquanto pobres permaneciam vulneráveis. Em casos extremos, parentes recorriam a métodos drásticos, como danificar propositalmente os corpos para torná-los inúteis para dissecação.

Esse cenário culminou em crimes ainda mais graves. Na Escócia, William Burke e William Hare assassinaram ao menos 16 pessoas entre 1827 e 1828 para vender seus corpos ao anatomista Robert Knox. Uma das vítimas, Mary Paterson, foi mantida em conservação por meses após sua morte. Burke acabou condenado à forca, e, ironicamente, seu corpo foi dissecado publicamente. Hoje seu esqueleto se encontra exposto no Museu Anatômico da Universidade de Edimburgo.

Na exposição de Leeds, o corpo de Paterson aparece apenas como desenho, representado de forma sensual, inspirada na Vênus ao Espelho, de Velázquez. A escolha gerou intensos debates entre os curadores, pois, embora artisticamente sofisticada, a imagem perpetua a exploração de uma vítima de assassinato.

Corpos idealizados

Ao longo dos séculos, muitos atlas anatômicos idealizaram corpos. Ilustrações de Nicolas Henri Jacob, por exemplo, apresentam jovens mulheres dissecadas em poses clássicas, enquanto mãos masculinas examinam seus corpos. Pesquisadores como Michael Sappol argumentam que essas imagens revelam desejos, tensões e fantasias de seus criadores, mais do que pura objetividade científica.

Mesmo obras consideradas mais acessíveis, como Gray’s Anatomy, publicada na segunda metade do século 19 por Henry Gray, dependiam de corpos não reclamados de hospitais e asilos. Esses indivíduos, como observa a historiadora Ruth Richardson, entraram na memória coletiva apenas por meio das imagens, sem nome, história ou memorial.

Essa lógica se estendeu ao século 20, como demonstra o atlas de Eduard Pernkopf, produzido com corpos de prisioneiros do regime nazista, e chega até projetos modernos como o Visible Human Project, que digitalizou o corpo de um condenado à morte nos Estados Unidos. Embora o doador tenha consentido com o uso científico, dificilmente poderia imaginar a dimensão da exposição futura.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.