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A peça de jade admirada pelo imperador chinês Qianlong

O imperador chinês Qianlong era grande admirador de peças feitas de jade; a grande favorita se chamava "A Montanha de Jade de Da Yu Regulando o Rio"

A pedra conhecida como "A Montanha de Jade de Da Yu Regulando o Rio" - Crédito: Google Arts & Culture

Associada à pureza moral, à sabedoria e à imortalidade, a pedra de jade foi tratada durante milhares de anos como um material dotado de virtudes espirituais na China. Entre os grandes admiradores dessa gema esteve o imperador Qianlong (1711-1799), um dos mais longevos soberanos da história chinesa e figura central da Dinastia Qing. Apaixonado por jades, acredita-se que ele tenha reunido uma coleção superior a 300 mil objetos esculpidos, tendo até mesmo nomeado seus filhos em homenagem à pedra.

Entre todas as peças que patrocinou, destaca-se uma chamada “A Montanha de Jade de Da Yu Regulando o Rio“. A obra presta homenagem a Yu, o Grande, personagem lendário reverenciado por controlar as enchentes devastadoras que assolavam a antiga China. De acordo com a tradição, suas realizações permitiram o florescimento da agricultura e abriram caminho para a formação do primeiro governo dinástico, ligado à Dinastia Xia.

Uma peça que impressiona

Hoje preservada no Museu do Palácio, a escultura de cerca de 2,24 metros de altura por quase um metro de largura, é considerada uma das mais complexas obras já talhadas em jade e impressiona tanto por seu tamanho quanto pela riqueza narrativa que percorre toda sua superfície. Conforme informações do portal China Daily, o material foi extraído de depósitos localizados na atual região de Xinjiang, famosa desde a Antiguidade pela qualidade excepcional de suas jazidas.

O bloco escolhido apresentava variações naturais de verde e branco que os artesãos souberam explorar com maestria, transformando as nuances da pedra em efeitos visuais que sugerem névoas, rochas e cursos d’água.

Ao observar a peça, o espectador encontra um cenário minucioso no qual pinheiros agarram-se a encostas íngremes, desfiladeiros se abrem entre rochas escarpadas e filetes de água parecem descer por gargantas naturais. No centro da composição está Da Yu, representado em plena tarefa de domar as enchentes. Ao seu redor, trabalhadores manejam alavancas e martelos, abrindo canais para redirecionar o fluxo das águas. Enquanto isso, no verso da obra, um poema escrito pelo próprio imperador Qianlong celebra o feito heroico e associa o governante mítico à responsabilidade moral do soberano ideal.

Esforços logísticos

É importante destacar que a criação dessa peça monumental exigiu esforços logísticos extraordinários. Mesmo o transporte do enorme bloco de jade desde Xinjiang até Pequim foi, por si só, uma façanha de engenharia. O China Daily lembra que uma carroça especial teve de ser construída. O veículo tinha um eixo de cerca de 11 metros de comprimento, projetado exclusivamente para suportar o peso da pedra. A carroça era puxada por ao menos cem cavalos, enquanto cerca de mil homens se revezavam empurrando-a por trás.

A jornada, de quase 5.520 quilômetros, levou não menos que três anos. Para permitir a passagem, trilhas precisaram ser abertas em terrenos montanhosos e pontes foram erguidas sobre rios. Durante o inverno, trabalhadores lançavam água sobre o caminho, criando uma camada de gelo que facilitava o deslizamento do bloco.

Quando finalmente chegou à capital, a pedra ainda não havia sido esculpida. Artesãos produziram primeiro um modelo detalhado em cera, que serviu como guia tridimensional para o projeto. Em seguida, a pedra foi transportada pelo Grande Canal da China até Yangzhou, importante centro artesanal na província de Jiangsu. Ali, autoridades imperiais selecionaram os melhores escultores do império para executar o trabalho, que exigia precisão absoluta.

Temendo que o calor do verão deformasse o modelo original, foram criadas versões adicionais em madeira para orientar o processo. O entalhe definitivo levou cerca de seis anos.

De volta a Pequim

No 52º ano do reinado de Qianlong, a montanha de jade foi enviada de volta a Pequim e instalada no Cidade Proibida, mais precisamente no Palácio da Longevidade Tranquila. No ano seguinte, o poema do soberano foi gravado na própria escultura.

Não existem registros completos sobre o custo total da produção da peça, mas estimativas podem ser feitas a partir da comparação com outra escultura imperial de jade, “Viajando nas Montanhas do Outono”, de dimensões menores. Documentos históricos indicam que essa obra consumiu cerca de 150 mil dias de trabalho e 15 mil taéis de prata. Cada tael correspondia a aproximadamente 35 gramas do metal. Considerando que a Montanha de Jade de Da Yu é cerca de quatro vezes maior, pode-se dizer que os recursos empregados teriam sido imensamente superiores.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.