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A estatueta de 2 mil anos encontrada na América do Sul que representava um ancião sentado

Estatueta em questão foi produzida por artesãos da cultura Tumaco-Tolita, que habitava regiões costeiras do que hoje correspondem à Colômbia e ao Equador

Estatueta de argila retrata um ancião do povo Tumaco-Tolita, que viveu próximo à fronteira entre Equador e Colômbia há mais de 2.000 anos - Crédito: Divulgação/Metropolitan Museum of Art; Doação de Gertrud A. Mellon, 1982

Uma escultura de cerca de dois mil anos vem intrigando estudiosos em razão do significado simbólico que carregava. Criada por artesãos da cultura Tumaco-Tolita, que habitava regiões costeiras do que hoje correspondem à Colômbia e ao Equador, a peça revela o alto nível técnico alcançado por esse povo pré-colombiano. A estatueta, atualmente preservada no Metropolitan Museum of Art, mede cerca de 63,5 centímetros de altura e apresenta um retrato extraordinariamente detalhado de um homem idoso.

Detalhes impressionantes

A estatueta conta com sulcos profundos no rosto e pele flácida sob os olhos. Além disso, restam poucos dentes à figura e uma barba curta cai de seu queixo. A cabeça apresenta formato achatado, sinal provável de modificação craniana realizada ainda na infância — uma prática cultural usada para indicar identidade étnica ou posição hierárquica, conforme análise do arqueólogo Hugo Ikehara-Tsukayama, que estudou a obra em 2022.

Embora mamilos marcados apareçam com mais frequência em representações femininas na arte Tumaco-Tolita, a ausência de uma saia longa, típica dessas imagens, torna o gênero da figura incerto. Já os pequenos orifícios esculpidos no nariz, nas orelhas e nos mamilos sugerem que a figura já foi adornada com enfeites, possivelmente de ouro.

Como destaca o portal Live Science, a peça foi moldada com uma pasta de argila cinza característica dessa cultura e teria exigido vários dias de trabalho para ser concluída, dada a complexidade do modelo. É provável que, originalmente, tenha sido polida e pintada, mas os pigmentos desapareceram ao longo dos séculos.

O personagem aparece sentado em um pequeno banco, elemento que, nas antigas sociedades americanas, simbolizava autoridade. Isso reforça a hipótese de que se tratava de um líder espiritual ou político. A postura rígida, a coluna saliente e a pele enrugada lembrariam a aparência de uma iguana, associação simbólica que, segundo estudiosos, poderia estar ligada ao poder ritual do xamã e à sua conexão com o mundo animal e sobrenatural.

Uma das primeiras representações

De acordo com o museu, essa escultura está entre as primeiras representações conhecidas de um líder sentado nessa região andina. Em várias culturas pré-colombianas, figuras masculinas que concentravam autoridade religiosa e secular eram posteriormente chamadas de caciques.

A estatueta em questão pode ter sido exibida ou transportada durante cerimônias importantes, embora sua função específica permaneça incerta. Em entrevista divulgada pelo museu, o arqueólogo Florencio Delgado Espinoza explicou que tais líderes eram profundamente reverenciados, mas também temidos: sua autoridade espiritual inspirava simultaneamente devoção e receio.

Além da cerâmica refinada, os Tumaco-Tolita destacaram-se pela metalurgia. Eles viviam em uma região rica em ouro natural e produziram ornamentos e figuras desse metal com alto grau de sofisticação. A cultura, no entanto, desapareceu de sua área original por volta do ano 500 d.C., possivelmente após a dispersão de seus grupos para outras partes da América do Sul.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.