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A Biblioteca de Stalin: o lado intelectual do ditador que moldou a União Soviética

Em 'A Biblioteca de Stalin', Geoffrey Roberts investiga a relação obsessiva do ditador soviético com livros e como isso se tornou uma ferramenta de poder político

Josef Stalin / Crédito: Getty Images

A Matrix Editora lançou recentemente no Brasil “A biblioteca de Stalin – Os livros que formaram o poder e a mente do ditador”, obra do historiador britânico Geoffrey Roberts que investiga um aspecto pouco explorado da trajetória de Joseph Stalin: sua relação obsessiva com os livros.

Traduzido por Daniela Belmiro, o trabalho parte da análise da biblioteca pessoal do líder soviético, composta por cerca de 25 mil volumes, para apresentar uma interpretação que vai além da imagem tradicional do governante associado exclusivamente à violência e à repressão política. Ao examinar as leituras, anotações e hábitos intelectuais do dirigente, Roberts propõe compreender como a leitura se tornou uma ferramenta essencial na construção do poder stalinista.

Em entrevista exclusiva à Aventuras na História, o autor detalhou os achados de sua pesquisa. Especialista em história russa, política externa soviética e Segunda Guerra Mundial, Geoffrey Roberts descreve Stalin como um autodidata disciplinado, convencido de que as ideias possuíam força concreta na transformação histórica.

Capa do livro ‘A Biblioteca de Stalin’ e fotografia de Geoffrey Roberts / Crédito: Divulgação

Anotações e leitura de rivais

A partir de 1925, o líder soviético organizou sua coleção bibliográfica segundo um rígido sistema de catalogação, e reuniu obras de filosofia, economia, história, ciência, literatura, política internacional e estratégia militar. Mais do que a dimensão quantitativa do acervo, porém, o elemento mais revelador da coleção está nas chamadas pometki — observações escritas pelo próprio Stalin nas margens dos livros.

Essas notas incluem comentários críticos, ironias, elogios e discordâncias que permitem reconstruir parte do raciocínio político e intelectual do dirigente soviético. Segundo Roberts, as marcações demonstram que Stalin não era apenas um acumulador de livros, mas um leitor ativo e metódico, interessado em absorver conceitos úteis para a administração do Estado e para a manutenção do poder.

Embora o marxismo ocupasse posição central em suas leituras, Stalin também dedicava atenção sistemática às obras de opositores políticos e autores estrangeiros. Geoffrey Roberts ressalta que o governante procurava extrair ensinamentos práticos mesmo de intelectuais que combatiam o projeto soviético. “Stalin era um marxista dogmático com convicções comunistas inabaláveis. A maioria dos livros em sua biblioteca pessoal era de autores socialistas. Mas ele absorveu ideias e informações de diversas fontes, incluindo a leitura atenta de oponentes políticos como Karl Kautsky e Leon Trotsky.”

De acordo com o historiador, esse pragmatismo tornou-se ainda mais evidente ao longo da vida política do dirigente soviético. “Stalin foi um eterno aprendiz e, quanto mais velho ficava, mais realista e pragmático se tornava sobre o desenvolvimento do sistema soviético, embora mantivesse sua visão utópica do comunismo como uma alternativa radical ao capitalismo. Certamente, suas mudanças de posição foram motivadas pela experiência e pela conveniência, mas também moldadas pelo que aprendeu com a leitura”, afirma Roberts.

O interesse intelectual de Stalin também se estendia a figuras históricas associadas ao exercício do poder e da diplomacia. Entre os personagens estudados estavam Otto von Bismarck, responsável pela unificação alemã no século 19, e Winston Churchill, líder britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Roberts identifica nessas leituras possíveis influências sobre a maneira como Stalin conduziu a política externa soviética e consolidou sua autoridade interna.

“Muitas vezes as pessoas se perguntam o quanto Stalin foi influenciado por Maquiavel, mas seus dois grandes mestres foram Lenin e Trotsky, cuja defesa do autoritarismo e da violência bolchevique em ‘Terrorismo e Comunismo’ ele leu atentamente. Stalin conhecia Churchill pessoalmente e admirava sua liderança militar. A postura desafiadora de Churchill em relação a Hitler após a queda da França no verão de 1940 pode ter influenciado Stalin a adotar uma postura semelhante e intransigente quando os alemães se aproximaram de Moscou no outono de 1941. Mas ninguém ficou mais surpreso do que Stalin quando Churchill perdeu as eleições gerais britânicas em 1945”, segundo Roberts.

Winston Churchill e Josef Stalin / Crédito: Getty Images

O autor continua: “Stalin certamente tinha interesse em Bismarck, assim como Lenin, Marx e Engels. Foi a revolução de cima para baixo de Bismarck que unificou a Alemanha do século 19, e Stalin pode muito bem ter refletido sobre a semelhança com sua modernização da Rússia Soviética, impulsionada pelo Estado, nas décadas de 1920 e 1930. Stalin estava particularmente interessado na diplomacia e na política externa da realpolitik de Bismarck. Stalin era um ideólogo, mas sua ideologia era política e prática, e predominantemente realista na esfera da política externa.”

Engenharia da alma humana

A influência da leitura sobre Stalin não se restringia à formulação estratégica ou militar. Segundo Roberts, o dirigente soviético atribuía à cultura e à literatura um papel central na formação ideológica da sociedade. O governante supervisionava diretamente livros didáticos, interferia em textos oficiais e acompanhava de perto a publicação de obras consideradas fundamentais para o regime, como “História do Partido Comunista (bolchevique): Breve Curso”.

Nas estantes do líder soviético figuravam autores clássicos como Shakespeare, Tolstói, Dostoiévski, Balzac, Émile Zola e Cervantes. Para Stalin, a literatura tinha função política e educativa. A ideia de que escritores eram “engenheiros da alma humana” ajudou a sustentar o rígido controle cultural estabelecido pelo Estado soviético ao longo das décadas de 1930 e 1940.

A literatura e a arte eram ferramentas políticas, seu valor julgado pela sua contribuição à causa do socialismo, embora o controle político nem sempre fosse rígido – havia espaço para a criatividade artística e até mesmo para um certo grau de dissidência, desde que não ultrapassasse os limites”, explica Roberts.

Ainda assim, o historiador destaca que o regime respondia com severidade quando considerava que esses limites haviam sido rompidos. “Aqueles que fossem considerados como tendo ultrapassado os limites eram severamente punidos: dos 2.400 membros da União dos Escritores Soviéticos em meados da década de 1930, 600 foram presos. Houve expurgos após a Segunda Guerra Mundial, mas as punições, em geral, foram muito menos severas. Tanto na década de 1930 quanto na de 1940, Stalin estava atento aos temas patrióticos da literatura soviética, bem como ao seu conteúdo socialista. O objetivo era formar cidadãos soviéticos que fossem bons patriotas e bons comunistas.”

Grande Expurgo

A análise proposta por Geoffrey Roberts também revisita a lógica política por trás do Grande Expurgo, campanha repressiva conduzida na União Soviética durante a década de 1930. Em vez de atribuir o terror exclusivamente à paranoia individual do líder soviético, o historiador argumenta que a repressão estava ligada à própria estrutura ideológica do regime e à crença permanente na existência de conspirações internas.

A paranoia política de Stalin – sua crença de que inimigos internos eram aliados de adversários externos que buscavam derrubar o sistema socialista soviético – foi o principal motor do Grande Expurgo”, afirma Roberts.

O historiador observa, contudo, que a mesma liderança responsável por desencadear o terror em massa também foi decisiva para encerrá-lo. “Mas, embora tenha sido Stalin quem iniciou e sustentou o terror em massa que varreu a sociedade soviética em meados da década de 1930, foi também ele quem o encerrou. Paradoxalmente, foi a capacidade de Stalin de conter o expurgo que sinalizou sua ascensão ao poder supremo.”

Josef Stalin / Crédito: Getty Images

Ao reconstruir os hábitos intelectuais de Stalin, “A biblioteca de Stalin” propõe uma abordagem que conecta leitura, poder e construção ideológica. A obra apresenta os livros não apenas como objetos de formação pessoal, mas como instrumentos ativos na organização de um regime totalitário. Assim, a partir das anotações deixadas nas margens de milhares de páginas, Geoffrey Roberts investiga como ideias absorvidas, reinterpretadas e aplicadas pelo líder soviético contribuíram para moldar decisões políticas, estratégias militares e mecanismos de controle cultural que marcaram profundamente a história do século 20.


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Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.