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Vitral que adornou igreja de Connecticut por mais de um século vai a leilão

Obra instalada em 1899 em igreja de Connecticut será levada a leilão e pode ser vendida por até 2 milhões de dólares, segundo estimativas

Vitral será leiloado em Nova York em junho - Crédito: Divulgação/Christie's

Por mais de um século, um vitral colorido encantou os frequentadores da Second Congregational Church of Winsted, no noroeste do estado. Agora, a obra será levada a leilão e pode alcançar até 2 milhões de dólares, segundo estimativas.

A peça, conhecida como Janela Memorial da Família Boyd (The Falls), foi instalada em 1899 acima da varanda da igreja. Criada pelo Tiffany Studios, ela será leiloada pela Christie’s, em Nova York no mês de junho, com o objetivo de financiar as atividades e projetos da igreja.

A janela foi encomendada por Ellen Wright Boyd em homenagem aos pais, John e Emily Boyd. John Boyd foi historiador, industrial do aço e também secretário de Estado de Connecticut. Em 1873, publicou Annals and Family Records of Winchester, obra que registra a história dos primeiros colonos da região de Winsted.

Como destaca o portal Smithsonian, o vitral apresenta uma composição rica em detalhes: de um lado, uma cachoeira desce por rochas em tons terrosos; do outro, flores como lírios e íris se destacam em meio à vegetação exuberante. Ao fundo, um pôr do sol em tons alaranjados se dissolve em um céu azul melancólico, recortado por montanhas arroxeadas. No topo, um medalhão circular exibe uma coroa dourada adornada com joias. Abaixo, estão inscritas as datas de nascimento e morte de John e Emily Boyd.

Um exemplo excepcional

Segundo Victoria Tudor, chefe do departamento de design da Christie’s, a peça representa “um exemplo excepcional do brilhantismo técnico, profundidade emocional e domínio da cor e da luz do [Tiffany] Studio”. Ela destaca ainda que vitrais com cachoeiras em primeiro plano são extremamente raros na produção da Tiffany.

A igreja abriga outras obras do Tiffany Studios, incluindo um mosaico dedicado a um diácono e um vitral intitulado Cristo com o Menino, possivelmente inspirado no versículo bíblico que convida as crianças a se aproximarem de Cristo. O edifício em si, erguido na década de 1890 por 60 mil dólares, foi projetado pelo arquiteto Arthur Bates Jennings em estilo gótico francês, utilizando granito e arenito locais, sob a liderança do reverendo Newell M. Calhoun.

O Tiffany Studios foi fundado no fim do século 19 por Louis Comfort Tiffany, filho de Charles Lewis Tiffany. Com apoio financeiro do pai, ele reuniu uma equipe de designers e artesãos para produzir objetos decorativos como vasos, luminárias, joias e vitrais.

Técnicas utilizadas

Embora utilizassem técnicas tradicionais da arte do vidro, Tiffany e sua equipe levaram esse ofício a um novo patamar, explorando possibilidades estéticas inovadoras. O estúdio se especializou no vidro opalescente, também chamado de vidro americano, que permitia variações de cor e textura em uma única peça, criando efeitos visuais que imitavam elementos como água e tecido.

Como lembra o Charles Hosmer Morse Museum of American Art, o pintor e designer John La Farge, considerado rival de Tiffany, foi o primeiro a patentear o vidro opalescente. A Tiffany, no entanto, aprimorou a técnica e desenvolveu sua própria versão, chamada de vidro “Favrile”.

O processo de criação dos vitrais envolvia esboços iniciais que evoluíam para desenhos detalhados. Em seguida, eram produzidos moldes para o corte das peças de vidro, que depois eram unidas com tiras de chumbo ou folhas finas de cobre, formando composições complexas e duráveis.

Apesar de sua popularização nos Estados Unidos no final do século 19e início do 20, o vitral é uma forma de arte muito mais antiga. Já no século 12, o monge alemão conhecido como Theophilus descrevia técnicas de produção de vidro colorido. Entre os séculos 12 e 16, vitrais ornamentaram catedrais, residências e edifícios públicos na Europa.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.