Um dos arpões para caça de baleias mais antigos do mundo é encontrado no Brasil
Tradicionalmente, a caça de baleias foi associada a populações do hemisfério norte — mas investigações recentes sugerem que a prática era comum também na América do Sul há milhares de anos

A caça às baleias é uma prática que remonta a tempos pré-históricos. Utilizando arpões e lanças projetadas para penetrar na espessa camada de gordura e na pele dessas majestosas criaturas marinhas, o ser humano desenvolveu técnicas de captura que foram se aperfeiçoando ao longo dos séculos. Recentemente, um estudo revelou que algumas das ferramentas mais antigas conhecidas para esse fim têm origem no Brasil.
Publicado em 9 de janeiro na revista científica Nature Communications, a pesquisa aponta que esses arpões foram utilizados em torno de 2.900 a.C. para a caça de baleias. Como destaca o portal Galileu, as ferramentas foram descobertas em sambaquis – formações arqueológicas compostas por conchas, ossos e outros resíduos deixados por comunidades costeiras antigas – na Baía de Babitonga, localizada no litoral norte de Santa Catarina.
Tradicionalmente, a caça de baleias tem sido associada a populações do hemisfério norte; no entanto, as investigações realizadas em sítios arqueológicos sul-americanos sugerem que essa atividade também era comum por aqui há milhares de anos.
Antes das novas evidências, acreditava-se que os restos ósseos de baleias encontrados em sambaquis eram resultado da coleta oportunista de animais encalhados ou carcaças levadas pela maré. O novo estudo desafia essa percepção, revelando que esses fragmentos estavam, na verdade, ligados a práticas intencionais de caça.
Descoberta de artefatos
A Baía de Babitonga foi uma área rica em sambaquis, que moldaram o cenário das águas quentes ao longo da costa. Contudo, as intervenções humanas nas décadas de 1940 e 1950 para expandir a malha rodoviária resultaram na destruição de muitos desses sítios, transformando-os em fontes acessíveis de cal para construção civil. Este processo, embora destrutivo, levou à descoberta de vários artefatos antigos, incluindo os arpões.
André Carlo Colonese, coautor do estudo, destacou em entrevista à Science que havia um consenso entre os pesquisadores de que as comunidades costeiras brasileiras apenas coletavam animais que encalhavam, uma vez que nunca haviam sido encontrados arpões grandes antes. A nova análise demonstra que a situação era bem diferente.
Através da análise minuciosa dos restos ósseos e das características estruturais dos arpões encontrados, os cientistas conseguiram identificar traços associados a ferramentas contemporâneas utilizadas em caça de baleias com pequenas embarcações na América do Sul. Elementos como o formato do cabo e o esculpimento das pontas chamaram a atenção dos pesquisadores.
A identificação da espécie utilizada para fabricar os arpões foi realizada por meio da extração de proteínas dos fragmentos ósseos. A maioria dos restos pertenciam à baleia-franca-austral (Eubalaena australis), conhecida por seus hábitos costeiros durante o período reprodutivo no Hemisfério Sul e por seu comportamento dócil. Esse contexto favorecia a possibilidade de captura por parte das antigas populações locais.