Túmulo dos inocentes: Fossa em lar irlandês pode conter restos de 800 crianças
Autoridades da Irlanda iniciam investigação em Tuam, onde corpos de bebês e crianças podem ter sido descartados clandestinamente entre 1925 e 1961, expondo os horrores do sistema de lares para mães solteiras

O governo da Irlanda deu início nesta semana a uma escavação delicada e de grande importância histórica: a busca pelos restos mortais de quase 800 crianças no terreno de um antigo lar católico para mães e bebês, em Tuam, no condado de Galway. O local funcionou entre 1925 e 1961, e é apontado como cenário de práticas sistemáticas de abandono e ocultamento de mortes infantis.
Os trabalhos de exumação começaram na última segunda-feira, 28, supervisionados pela agência estatal Office of the Director of Authorised Interventions. Estima-se que os corpos estejam enterrados de forma irregular numa antiga fossa séptica, descoberta em 2017 após uma investigação conduzida por uma comissão independente.
A descoberta
O caso veio à tona graças ao trabalho da historiadora Catherine Corless, que identificou a morte de 796 crianças no lar e não encontrou registros de enterros para a maioria delas. Segundo as investigações, muitas das vítimas eram bebês filhos de mulheres solteiras, internadas compulsoriamente em instituições geridas por ordens religiosas, onde davam à luz em condições precárias, sofriam abusos e tinham seus filhos separados à força.
A exumação utilizará equipamentos de escavação controlada e tecnologia de imageamento para identificar restos humanos. A expectativa é encontrar ossadas que, após análise forense, possam ser identificadas e devolvidas às famílias para enterro digno. Trata-se de uma medida central no processo de reparação histórica para as vítimas e sobreviventes desses lares.
Hoje é um dia importante para todas as famílias envolvidas e para o país como um todo. A escavação em Tuam é um passo necessário para reconhecer as injustiças cometidas por décadas contra mulheres e seus filhos”, declarou o ministro da Infância da Irlanda, Roderic O’Gorman.
Estima-se que cerca de 56 mil mulheres grávidas tenham sido internadas em lares semelhantes entre os anos 1920 e 1998. Destas, mais de 9 mil crianças morreram — número superior a 15% do total de nascimentos registrados. Os dados constam no relatório final da Comissão de Investigação sobre Casas para Mães e Bebês, publicado em 2021, que detalha negligência médica, maus-tratos e uma cultura sistemática de vergonha imposta às mães.
Ainda que o escopo da escavação em Tuam seja limitado, o caso tem forte impacto simbólico. Ele escancara a cumplicidade entre Igreja, Estado e sociedade civil na manutenção de um sistema opressivo contra mulheres fora dos padrões morais vigentes à época.
As escavações devem durar vários meses. Os restos localizados passarão por análise de DNA e, sempre que possível, serão entregues a familiares vivos. O governo também anunciou apoio psicológico contínuo para os sobreviventes e familiares afetados, repercute o Independent.