Tubarões podem estar com problemas dentários em todo o mundo, indica estudo
Mudanças climáticas vêm impactando diretamente na capacidade dos tubarões de reporem os dentes, segundo novo estudo; entenda!

Um novo estudo revela que tubarões ao redor do mundo estão enfrentando sérios desafios em relação à saúde de seus dentes, um fenômeno associado à acidificação dos oceanos e às mudanças climáticas.
Os tubarões, conhecidos por sua notável capacidade de regeneração dental, substituem seus dentes ao longo do tempo para se adaptarem à captura de presas. Essa habilidade é crucial para a sobrevivência da espécie. Contudo, uma pesquisa recente sugere que essa capacidade pode estar comprometida devido ao aumento da acidez das águas oceânicas, resultado do aquecimento global.
Realizado por uma equipe de cientistas da Universidade Heinrich Heine, em Düsseldorf, na Alemanha, o estudo analisou os dentes de tubarões expostos a diferentes níveis de acidificação. Os achados foram publicados na revista Frontiers in Marine Science, em um artigo divulgado na terça-feira, 26.
De acordo com o biólogo Maximilian Baum, principal autor do estudo, explica em comunicado que “apesar de serem compostos de fosfatos altamente mineralizados, os dentes ainda são vulneráveis à corrosão em cenários futuros de acidificação dos oceanos. Eles são armas altamente desenvolvidas para cortar carne, não resistir à acidez. Até mesmo as armas mais afiadas da natureza podem ter vulnerabilidades”.
A acidificação oceânica refere-se ao processo de redução contínua do pH das águas marinhas, que se torna cada vez mais ácida devido à absorção de CO₂ da atmosfera. Atualmente, o pH médio dos oceanos é cerca de 8,1, mas projeções indicam que esse valor poderá cair para 7,3 até o ano de 2300, tornando-se quase dez vezes mais ácido.
Efeitos da acidificação
No estudo mencionado, os pesquisadores examinaram os efeitos da acidificação nos dentes de tubarões-de-pontas-negras-do-recife (Carcharhinus melanopterus), utilizando amostras de água com pH variando entre 8,1 e os níveis previstos para o futuro.
Mergulhadores coletaram mais de 600 dentes descartados de tubarões em um aquário. Dentre eles, 16 dentes intactos foram utilizados para experimentos sobre pH e outros 36 para medições antes e depois das exposições. Após oito semanas em tanques separados com volumes de 20 litros, os resultados mostraram que os dentes expostos a ambientes com água mais ácida apresentaram danos significativos.
O professor Sebastian Fraune, coautor do estudo, observou no comunicado que houve “danos visíveis na superfície, como rachaduras e buracos, aumento da corrosão radicular e degradação estrutural”. Os dentes incubados a pH 8,1 mostraram menos deterioração comparativamente aos expostos a níveis mais ácidos.
A circunferência dos dentes também foi maior nos níveis mais altos de pH; no entanto, isso não indica um crescimento real — as superfícies tornaram-se irregulares, dando a impressão de maior tamanho. Embora uma superfície alterada possa inicialmente melhorar a eficiência na captura das presas, essa mudança pode comprometer a estrutura dos dentes e aumentar o risco de quebra.
A pesquisa focou apenas em dentes descartados e não levou em conta a capacidade natural de reparo dos tubarões vivos. Segundo Fraune, “em tubarões vivos, a situação pode ser mais complexa. Eles poderiam remineralizar ou substituir dentes danificados mais rapidamente, mas os custos energéticos disso provavelmente seriam maiores em águas acidificadas”.
Particularmente no caso dos tubarões-de-pontas-negras-de-recife (Carcharhinus melanopterus), que nadam com a boca constantemente aberta para respirar, seus dentes estão continuamente expostos à água. Em ambientes mais ácidos, isso resulta em danos diretos aos dentes.
“Mesmo quedas moderadas no pH podem afetar espécies mais sensíveis, com círculos de replicação de dentes lentos, ou ter impactos cumulativos ao longo do tempo”, conclui Baum. “Manter o pH do oceano próximo à média atual de 8,1 pode ser crucial para a integridade física das ferramentas dos predadores.”