Tectonismo faz Portugal e Espanha girarem lentamente, revela estudo
Pesquisa indica que pressão entre placas tectônicas da África e Eurásia provoca rotação gradual da Península Ibérica; entenda!

Um estudo publicado em janeiro na revista científica Gondwana Research indica que Portugal e Espanha estão girando lentamente no sentido horário como consequência da pressão exercida pela aproximação entre as placas tectônicas da Eurásia e da África. A pesquisa analisa a deformação da crosta terrestre na zona de contato entre essas placas no Mediterrâneo ocidental.
O trabalho foi liderado por Asier Madarieta, da Universidade do País Basco (EHU), e se concentra na forma como a compressão entre as placas afeta a Península Ibérica. Segundo o estudo, as placas Eurasiática e Africana convergem a uma velocidade de 4 a 6 milímetros por ano. Esse movimento, embora aparentemente discreto, gera tensões acumuladas ao longo do tempo geológico.
“O limite entre as placas ao redor do Oceano Atlântico e da Argélia é muito nítido, enquanto no sul da Península Ibérica o limite é muito mais difuso e complexo”, afirma Asier Madarieta. De acordo com a pesquisa, a zona de deformação se estende do Golfo de Cádis ao mar de Alborão e não apresenta uma falha única e claramente definida. Diferentemente de estruturas lineares como a falha de San Andrés, o limite tectônico nessa região é amplo, composto por fraturas dispersas e movimentos assimétricos que influenciam o chamado Arco de Gibraltar.
Detalhes do estudo
Os resultados indicam que a Península Ibérica não se comporta como um bloco rígido. A colisão direta a oeste do Estreito de Gibraltar exerce pressão suficiente para provocar um giro gradual no sentido horário. “Acreditamos que isso possa afetar as tensões transmitidas para o sudoeste da Península Ibérica, empurrando-a do sudoeste e fazendo-a girar no sentido horário”, explica o pesquisador.
Para chegar a essas conclusões, os cientistas combinaram dados de satélite com registros sísmicos. As estações GNSS — sistema de posicionamento global de alta precisão — permitem medir deslocamentos da crosta de poucos milímetros por ano, valores considerados relevantes na escala geológica. A integração dessas informações buscou superar uma limitação temporal dos registros disponíveis.
“A maioria dos dados precisos de terremotos remonta apenas a 1980, e os dados precisos de satélite a 1999, enquanto as mudanças geodinâmicas são medidas em milhões de anos”, afirma Madarieta. Ao unificar diferentes conjuntos de dados, o estudo conseguiu ampliar a compreensão sobre o comportamento das tensões acumuladas na região.
A análise dos campos de tensão também aponta áreas onde podem existir estruturas tectônicas ainda não completamente identificadas. Segundo o autor, há pontos na Península Ibérica que apresentam deformações significativas, embora as falhas exatas responsáveis por esses movimentos ainda não tenham sido totalmente mapeadas.
O avanço no mapeamento dessas estruturas contribui para a avaliação do risco sísmico. A identificação de falhas ativas e o entendimento detalhado da deformação são considerados particularmente relevantes para regiões como os Pireneus Ocidentais e a faixa entre Cádiz e Sevilha, repercute o UOL.
Embora a Península Ibérica não esteja entre as áreas mais sísmicas da Europa, a energia tectônica na região parece estar distribuída por múltiplas estruturas menores. Eventos históricos, como o terremoto de Lisboa de 1755, demonstram que o território não é completamente estável, reforçando a importância de monitoramento contínuo e estudos detalhados sobre a dinâmica geológica local.