Restos humanos revelam vestígios da primeira pandemia
Achado arqueológico na Jordânia oferece evidências de mortes durante a Peste de Justiniano, a primeira pandemia documentada na história

Pesquisadores que escavavam um sítio antigo na cidade de Jerash, na Jordânia, encontraram uma vala comum repleta de restos humanos que fornece novas informações sobre a devastadora Peste de Justiniano, um surto que ocorreu entre os séculos VI e VII e é considerado a primeira pandemia registrada da História.
A descoberta ocorreu sob um antigo hipódromo romano, onde os arqueólogos identificaram um cemitério coletivo com centenas de corpos depositados rapidamente em um espaço confinado, algo que difere de cemitérios normais que se expandem ao longo do tempo. Os esqueletos pertencem a pessoas que morreram durante a pandemia descrita nos textos antigos, mas cuja causa nunca havia sido comprovada de forma conclusiva com evidências biológicas diretas.
A análise dos restos mortais revelou vestígios da bactéria Yersinia pestis, responsável pela peste bubônica, confirmando a presença desse patógeno justamente no epicentro do surto de Justiniano. A descoberta foi possível graças à extração de DNA antigo de dentes humanos preservados na vala comum, que mostrou que todos os indivíduos enterrados apresentavam cepas altamente similares da bactéria, indicando um surto rápido e devastador.
Primeira pandemia
A Peste de Justiniano começou por volta do ano 541 d.C. e se espalhou pelo Mediterrâneo e pelo Império Bizantino, causando um elevado número de mortes que provocou impactos sociais, econômicos e demográficos profundos na época. Os relatos históricos já mencionavam a mortalidade em massa, mas somente a partir da evidência genética recuperada dos restos humanos foi possível confirmar a participação da peste bubônica naquele primeiro surto pandêmico global.
O sítio arqueológico de Jerash é especialmente valioso porque permite conectar dados arqueológicos, genéticos e históricos para reconstruir como a pandemia afetou uma cidade real do mundo antigo. A deposição rápida dos corpos e o contexto de enterro coletivo revelam não apenas a magnitude da tragédia, mas também como as sociedades antigas tiveram de reagir diante de uma crise de saúde pública sem precedentes.
Além de confirmar a presença da bactéria causadora da peste no local e no período associado ao início do surto, o estudo dos restos humanos também fornece informações sobre quem eram essas pessoas, como viviam e como foram afetadas pela doença dentro de seu ambiente social e urbano — elementos que vão além dos relatos escritos e ajudam a humanizar e detalhar a experiência histórica de pandemias antigas.