Relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo pode ter dado vantagem evolutiva a primatas
Novo estudo sugere que relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo de primatas como bonobos e chimpanzés podem ter lhes garantido vantagem evolutiva

Os seres humanos não são os únicos que se envolvem em atividades sexuais entre invidívuos do mesmo sexo. Até o momento, cientistas documentaram aproximadamente 1.500 espécies, incluindo baleias, aves e peixes, participando desse tipo de comportamento.
E recentemente, uma revisão abrangente de centenas de espécies de primatas não humanos sugere que comportamentos homossexuais não são apenas comuns entre esses animais, mas podem também desempenhar um papel importante na formação de laços sociais e na sobrevivência em ambientes desafiadores. O estudo, publicado em 12 de janeiro na revista Nature Ecology and Evolution, indica que as atividades sexuais entre indivíduos do mesmo sexo podem oferecer uma vantagem evolutiva, especialmente em contextos sociais rígidos ou em condições adversas.
O que descobrimos mostra que o comportamento homossexual não é algo bizarro, aberrante ou raro. Está em toda parte, é muito útil, é muito importante”, afirma Vincent Savolainen, biólogo evolucionista do Imperial College London e coautor do estudo, em entrevista à NBC News.
Comportamento adaptativo
Pesquisas anteriores já demonstraram que primatas como macacos, bonobos e chimpanzés se engajam em comportamentos homossexuais. No entanto, até agora não havia sido realizada uma revisão abrangente dessas atividades entre todas as espécies de primatas não humanos, deixando dúvidas sobre suas possíveis funções.
Para avançar nesse entendimento, Savolainen e sua equipe analisaram 96 estudos publicados que observaram indivíduos do mesmo sexo se montando, tocando os genitais ou realizando outros atos sexuais. Esses trabalhos envolveram 491 espécies diferentes, das quais 59 apresentaram registros de comportamento homossexual. Os pesquisadores consideraram essas atividades comuns em 23 das espécies analisadas.
Além disso, o estudo revelou que as interações do mesmo sexo ocorrem com maior frequência em ambientes mais áridos, onde há escassez de alimentos e maior risco de predação. Espécies de primatas que possuem uma expectativa de vida mais longa, diferenças acentuadas entre machos e fêmeas ou hierarquias sociais mais rigorosas também mostraram uma tendência maior a engajar-se nesse comportamento.
Essas descobertas sugerem que o comportamento sexual homossexual pode ser adaptativo, especialmente entre animais com sistemas sociais complexos. A flexibilidade social pode auxiliar primatas a gerenciar conflitos, aliviar tensões e fortalecer seus vínculos sociais.
Se você quiser entender o comportamento de animais selvagens e complexos, precisa levar em conta o comportamento entre indivíduos do mesmo sexo”, ressalta Savolainen em entrevista à Scientific American. “Acredito que seja tão importante quanto o sexo reprodutivo, o cuidado com os filhotes, as lutas, a alimentação e assim por diante.”
Isabelle Winder, antropóloga evolucionista da Bangor University no País de Gales e que não participou da pesquisa, comenta à revista Nature que o artigo analisa um comportamento aparentemente raro entre os animais de maneira inovadora. A metodologia utilizada pode ser aplicada a pesquisas sobre luto, uso de ferramentas e linguagem simbólica, repercute a Smithsonian Magazine.
No entanto, os autores do estudo observam que suas conclusões podem não se aplicar diretamente aos humanos. Ao invés da escassez alimentar ou hierarquias sociais rígidas, as “pressões da vida social moderna” podem ter influenciado os comportamentos homossexuais nessa espécie.
Por outro lado, Josh Davis, escritor científico no Museu de História Natural de Londres e autor do livro ‘A Little Gay Natural History’ (‘Um Pouco de História Natural Gay’, em tradução livre), alerta contra especulações desse tipo. Ele explica ao Guardian que uma variedade de comportamentos queer é observada na natureza e as razões por trás deles provavelmente diferem amplamente.
“Os seres humanos são complexos e resultam de uma série de fatores diferentes, distintos dos demais animais, o que torna essas comparações e extrapolações extremamente controversas”, conclui Davis.