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Registro raro de general que desafiou ordem de repressão na Praça da Paz Celestial vaza online

O general chinês Xu Qinxian foi julgado após se recusar a enviar tropas para reprimir manifestações estudantis na Praça da Paz Celestial em 1989

Registro feito durante a audiência de Xu Qinxian / Crédito: Reprodução/YouTube/王志安

Recentemente, um vídeo raro mostrando um general do Exército de Libertação Popular (EPL) que desobedeceu ordens para liderar suas tropas em Tiananmen e reprimir os protestos estudantis de 1989 foi divulgado online, proporcionando uma visão singular sobre os altos escalões militares durante um dos períodos mais tumultuados da história moderna da China.

A recusa do general Xu Qinxian em mobilizar o 38º Grupo do Exército, uma unidade de prestígio situada nas proximidades de Pequim, para entrar na capital se tornou parte da mitologia em torno dos eventos de Tiananmen ao longo das últimas três décadas.

O vídeo, com duração de seis horas, documenta a audiência de seu tribunal militar ocorrida no ano seguinte e revela o ato raro de rebeldia. Durante o depoimento, Xu declarou que não desejava se tornar “um pecador na história”.

Segundo Zhou Fengsuo, um dos líderes das manifestações de Tiananmen que hoje vive no exílio nos Estados Unidos, o material “confirma a lenda sobre Xu Qinxian“. Ele acrescentou: “Esta é a primeira vez que temos uma visão clara em primeira pessoa desse período”.

Descoberta importante

A origem do vídeo permanece desconhecida. Ele foi postado pela primeira vez online no mês passado e já acumulou mais de 1,2 milhão de visualizações em uma única conta do YouTube. Wu Renhua, um historiador do movimento Tiananmen e participante dos protestos, foi um dos primeiros a compartilhar a gravação. Ele revelou que o vídeo lhe foi fornecido sob a condição de manter a fonte em segredo.

Wu considera o material “talvez o dado mais importante que reuni em minhas três décadas de pesquisa” e acredita na autenticidade da gravação, já que muitos detalhes são corroborados por sua pesquisa anterior.

As manifestações que dominaram Pequim durante semanas na primavera de 1989 culminaram em um massacre sangrento nas primeiras horas de 4 de junho, quando tropas do EPL abriram fogo contra civis nas imediações da Praça Tiananmen (também chamada de Praça da Paz Celestial), uma área central da capital chinesa. Centenas, possivelmente milhares, de vidas foram perdidas e o evento continua sendo um dos tópicos mais sensíveis no regime do Partido Comunista Chinês (PCC). A discussão sobre o massacre é censurada e nunca houve um reconhecimento aberto ou oficial dos eventos e suas consequências.

No contexto da repressão militar, circularam rumores sobre dissidência dentro das forças armadas. Zhou mencionou que muitos soldados fardados estiveram presentes na Praça Tiananmen antes do dia fatídico para demonstrar apoio aos manifestantes.

No início das manifestações, Xu estava hospitalizado devido a cálculos renais. Contudo, em 18 de maio, recebeu ordens para deslocar seus 15 mil soldados para Pequim e impor a lei marcial. No vídeo do tribunal militar, ele expressou suas reservas com uma voz firme: “Eu disse que tinha uma opinião diferente sobre este assunto. Eu disse que este era um incidente político de massa e que deveria ser resolvido principalmente por meios políticos”.

Embora tenha se negado a cumprir a ordem, Xu transmitiu a mensagem aos seus superiores. Ele relatou ter alertado que se a lei marcial falhasse, o comandante responsável “poderia se tornar um pecador na história”.

Joseph Torigian, professor associado na American University e especialista em política da elite chinesa, observou que o vídeo ilustra como figuras seniores na China operam em ambientes políticos ambíguos. O testemunho de Xu revela sua luta interna sobre o significado da lealdade como general militar dentro do sistema dominado pelo PCC. Ele disse que estava “preocupado com o potencial para conflitos em larga escala ou derramamento de sangue”

Torigian ainda acrescentou que, mesmo que tivesse cometido um erro, “a lealdade de uma pessoa ao partido deve ser julgada pela sua implementação da linha ideológica e política do partido”, e que o presidente Mao e Deng Xiaoping falaram sobre a importância de o partido ouvir opiniões diferentes. Xu, por sua vez, “parece estar em conflito consigo mesmo sobre qual seria exatamente a resposta certa”.

Além disso, Xu questionou se a decisão de impor a lei marcial poderia realmente ter partido da Comissão Militar Central que lhe enviou a ordem. Ele sugeriu que uma questão tão séria deveria ser debatida pelo Congresso Nacional do Povo da China.

Desde o massacre, o PCC consolidou seu controle sobre o EPL e deixou claro que as forças armadas servem ao partido e não a qualquer outra autoridade. Torigian enfatizou: “O partido sabe e entende que sua última linha de defesa para a segurança e sobrevivência do regime é o EPL”.

A lealdade dentro do EPL continua sendo uma preocupação central para o PCC. Nos últimos meses, Xi Jinping, líder da China e comandante-em-chefe das Forças Armadas, purgou vários líderes militares seniores por supostas violações relacionadas à corrupção.

Após os eventos trágicos em Tiananmen, Xu foi expulso do PCC e condenado a cinco anos de prisão. Passou o restante de sua vida exilado fora de Pequim e faleceu em 2021 aos 85 anos, repercute o The Guardian.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.