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Reconstrução digital revela rosto do ancestral ‘Pé Pequeno’

Cientistas reorganizaram ossos do crânio para revelar a face do "Pé Pequeno", hominídeo de 3,67 milhões de anos encontrado na África do Sul

Crânio de Little Foot (à esquerda), e reconstruções digitais / Crédito: Divulgação/Universidade Wits/Amelie Beaudet

Graças a avanços em técnicas de reconstrução digital, cientistas conseguiram recriar virtualmente o rosto de um ancestral humano primitivo conhecido como”Little Foot” (ou “Pé Pequeno”, em português), um fóssil com cerca de 3,67 milhões de anos. A nova visualização permite observar características faciais do espécime com um nível de detalhe inédito, ampliando o conhecimento sobre a evolução humana e sobre as relações entre antigos hominídeos.

O fóssil foi descoberto na década de 1990 pelo paleoantropólogo Ronald Clarke, após ele identificar quatro pequenos ossos em uma coleção do museu da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul. A partir dessa pista inicial, Clarke encontrou nas Cavernas de Sterkfontein, a noroeste de Joanesburgo, um esqueleto quase completo do ancestral apelidado de Little Foot. A escavação completa dos restos levou cerca de duas décadas de trabalho até ser concluída.

Com cerca de 90% de integridade, o espécime representa o esqueleto mais completo já encontrado do gênero Australopithecus, um grupo de ancestrais humanos com características semelhantes às dos chimpanzés. Esses hominídeos eram capazes de caminhar eretos sobre duas pernas, mas também mantinham habilidades de escalada em árvores, comportamento que poderia ajudá-los a escapar de predadores.

Segundo a Dra. Amélie Beaudet, pesquisadora honorária da Escola de Geografia, Arqueologia e Estudos Ambientais da Universidade de Witwatersrand, o esqueleto constitui uma evidência particularmente antiga da evolução humana no sul do continente africano. Ainda assim, estudar o crânio do espécime sempre representou um desafio para os pesquisadores.

Isso ocorreu porque o crânio de Little Foot sofreu deformações ao longo do tempo. O peso dos sedimentos da caverna onde os restos ficaram preservados acabou esmagando a estrutura, tornando inviável qualquer tentativa de reconstrução física tradicional.

Reconstrução digital

Para contornar esse problema, a equipe liderada por Beaudet recorreu à reconstrução digital. Os restos fossilizados foram enviados da África do Sul para a Inglaterra, onde passaram por um escaneamento de alta resolução no sincrotron Diamond Light Source, instalado no Harwell Science and Innovation Campus, em Oxfordshire.

A máquina utilizou raios X brilhantes e não destrutivos para examinar o interior do crânio. O processo resultou em mais de 9 mil imagens detalhadas e em grandes volumes de dados digitais. Em seguida, um supercomputador da Universidade de Cambridge processou as informações e gerou modelos tridimensionais dos ossos faciais, permitindo reorganizá-los virtualmente em suas posições originais.

O procedimento revelou, pela primeira vez, a parte superior do rosto do hominídeo, incluindo a região das órbitas oculares. “Apenas alguns fósseis de Australopithecus preservam um rosto quase completo, tornando Little Foot um ponto de referência raro e valioso”, disse Beaudet, autora principal do estudo publicado na segunda-feira no periódico Comptes Rendus Palevol , em um comunicado. “O rosto de Little Foot preserva regiões anatômicas importantes envolvidas na visão, respiração e alimentação, e seu crânio oferecerá elementos-chave adicionais para a compreensão de nossa história evolutiva.”

Depois de reconstruído digitalmente, o rosto de Little Foot foi comparado com três outros fósseis do gênero Australopithecus — um da África do Sul e dois da Etiópia — além de grandes símios modernos. Os resultados mostraram que o tamanho do rosto do espécime se situava entre o de um gorila e o de um orangotango, enquanto o formato apresentava semelhanças com orangotangos e bonobos.

Outro ponto que chamou a atenção da equipe foi o fato de o tamanho do rosto e as dimensões das órbitas oculares se aproximarem mais dos fósseis de Australopithecus encontrados na África Oriental do que de outros espécimes da África do Sul. Para alguns especialistas, isso reforça a complexidade da evolução dentro desse grupo.

“Tudo isso demonstra a complexidade dos padrões de variação no gênero Australopithecus e a proximidade deste com os grandes símios”, disse o Dr. Zeray Alemseged, professor de biologia e anatomia de organismos na Universidade de Chicago, em um e-mail à CNN. “Não é surpreendente, já que compartilham um ancestral comum.”

Ancestralidade

Os autores do estudo sugerem que a linhagem de Little Foot pode ter mantido relações mais próximas com hominídeos da África Oriental, enquanto populações do sul do continente teriam desenvolvido características faciais próprias ao longo do tempo.

“Em vez de encarar a evolução dos hominídeos primitivos como ocorrendo em regiões isoladas, o estudo apoia a ideia de que a África é uma paisagem evolutiva interconectada, com populações se adaptando às pressões ecológicas, mas permanecendo ligadas por meio de ancestrais comuns”, disse o coautor do estudo, Dominic Stratford, professor associado da Escola de Geografia, Arqueologia e Estudos Ambientais da Universidade de Witwatersrand, em um comunicado.

Para os pesquisadores, compreender a anatomia facial dos primeiros ancestrais humanos também pode oferecer pistas sobre a forma como esses hominídeos interagiam com seu ambiente. “Estudar o rosto pode fornecer informações sobre como nossos ancestrais e parentes interagiam com o ambiente”, escreveu ela em um e-mail. “Além disso, as características identificadas no rosto podem ser usadas para saber mais sobre as relações entre populações/espécies naquela época.”

Dúvidas

Apesar dos avanços, ainda existem debates sobre a classificação exata de Little Foot dentro da árvore evolutiva humana. O esqueleto é cerca de 50% mais completo que o famoso fóssil Lucy, descoberto na Etiópia em 1974, mas sua espécie permanece discutida.

Alguns pesquisadores sugerem que o espécime pertence a Australopithecus prometheus ou Australopithecus africanus, enquanto outros levantam a hipótese de que ele possa representar um ancestral humano até então desconhecido.

“Muitos pesquisadores, incluindo eu mesmo, estão céticos quanto à atribuição atual do Little Foot ao Australopithecus prometheus , em parte porque essa espécie é geralmente considerada a mesma que o Australopithecus africanus”, disse o Dr. Jesse Martin, autor principal de um estudo recente que sugere que o fóssil pertence a um ancestral humano desconhecido, em um e-mail.

Martin também apontou que a idade geológica do fóssil ainda gera divergências entre especialistas. “Portanto, acho que qualquer discussão sobre a trajetória evolutiva do formato craniano com base em uma data mais antiga para Little Foot é prematura”, disse Martin.

Segundo os autores do novo estudo, o objetivo principal da pesquisa foi compreender possíveis adaptações que moldaram os rostos dos hominídeos, e não resolver definitivamente a classificação do fóssil.

Nos próximos passos, a equipe pretende aplicar técnicas semelhantes para corrigir digitalmente deformações em outras partes do crânio, incluindo a caixa craniana, repercute a CNN. Esse processo poderá revelar novas informações sobre o tamanho do cérebro de Little Foot e, potencialmente, trazer pistas sobre as capacidades cognitivas de alguns dos primeiros ancestrais humanos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.