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Quadro roubado de museu italiano é devolvido após 50 anos

Desaparecida desde o ano de 1973, obra de arte datada do século 16 estava em posse de moradora de Norfolk, na Inglaterra

Detalhe da obra devolvida ao museu italiano
Detalhe da obra devolvida ao museu italiano - Divulgação/Art Recovery International

Um quadro da Madonna com o Menino, datado do século 16, que havia sido roubado de um museu na Itália e encontrado nas mãos de uma residente de Norfolk, Inglaterra, será devolvido ao seu legítimo proprietário. O retorno ocorre após meio século desde o furto.

Após anos de reflexão e convencimento por parte de um advogado especializado em arte, Barbara de Dozsa decidiu entregar a obra ao Museu Cívico de Belluno, que não tinha contato com a pintura desde 1973.

Conforme noticiado pelo jornal The Guardian em março, Barbara inicialmente resistiu à devolução do quadro, apesar de sua inclusão nas listas dos mais procurados por diversas forças policiais, incluindo a Interpol e os Carabinieri italianos.

A mulher sustentava sua reivindicação sobre a posse, argumentando que seu ex-marido, o falecido Barão de Dozsa, adquiriu a obra de boa-fé logo após o roubo em 1973. O quadro permaneceu em sua propriedade na antiga mansão do século 16, East Barsham manor, localizada em Norfolk.

A obra

Assinado pelo artista italiano Antonio Solario, conhecido como Lo Zingaro (o Cigano), o quadro é parte do legado artístico do século 16 e algumas das suas obras estão expostas na National Gallery em Londres.

A obra foi adquirida pelo município de Belluno em 1872 e foi uma das várias que foram subtraídas um século depois. Algumas delas foram recuperadas rapidamente na Áustria, onde o marido de De Dozsa adquiriu o Solario de uma fonte não revelada.

O paradeiro do quadro permaneceu desconhecido até 2017, quando Barbara tentou leiloá-lo em uma casa regional e ele foi reconhecido por uma pessoa vinculada ao museu de Belluno.

O quadro foi devolvido a De Dozsa em 2020, devido a atrasos causados pela pandemia de Covid-19 que impediram as autoridades italianas de fornecer os documentos solicitados pela polícia britânica.

Negociações

Durante esses anos, Christopher Marinello, um renomado advogado especializado em arte, trabalhou incansavelmente para convencer Barbara a tomar a decisão correta e restituir a pintura a Belluno.

No início, De Dozsa invocou a Lei de Limitações do Reino Unido de 1980, que estipula que uma pessoa que compra bens roubados pode ser reconhecida como proprietária legal se a compra não estiver relacionada ao furto após mais de seis anos.

Marinello apontou essa argumentação como “absurda”, destacando que o fato da pintura constar nos bancos de dados de arte roubada da Interpol e dos Carabinieri impossibilitava qualquer transação legal envolvendo a obra sem o risco de apreensão.

Ele é fundador da Art Recovery International, uma organização focada na recuperação de obras de arte roubadas ou saqueadas e tem escritórios em Londres, Veneza e Nova Iorque. Entre suas recuperações anteriores está uma pintura de Matisse que foi subtraída em 1987 do Museu de Arte Moderna de Estocolmo e permaneceu desaparecida por 25 anos até reaparecer em Londres.

No fim, Barbara concordou em devolver a pintura ao município de Belluno. Marinello expressou, segundo o The Guardian: “Ela restaurou minha fé na humanidade quando tantas pessoas que possuem obras de arte roubadas tentam mantê-las. Apesar dos direitos da vítima, as pessoas não têm mais simpatia e ela provou o contrário.”

Ele brincou: “Quando se trata de devolver arte roubada e fazer a coisa certa, posso ser irritantemente persistente. Mas no final das contas, foi uma decisão de Barbara de Dozsa fazer e ela escolheu sabiamente.”

Marinello também fez menção à Arte Generali, empresa seguradora que possibilitou a recuperação com uma doação para cobrir os custos logísticos envolvidos no processo. “Sem o apoio deles, essa recuperação nunca teria acontecido”, afirmou Marinello.

Outro quadro da Madonna com o Menino, pintado pelo artista italiano do século 19 Placido Fabris, está entre outras obras roubadas ainda desaparecidas em Belluno. Elas estão listadas no banco de dados de arte roubada dos Carabinieri.

Marinello apela ao público para entrar em contato caso avistem alguma dessas obras em coleções públicas ou privadas. Já Oscar De Pellegrin, prefeito de Belluno, declarou: “Devolver esta pintura à cidade significa devolver um fragmento da sua identidade, sua história e sua alma.”

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.