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Pinturas rupestres indígenas inéditas são encontradas na Amazônia

Descritas como “diferentes de tudo” por especialistas, pinturas rupestres indígenas foram encontradas na cidade de São Gabriel da Cachoeira

Fotografia de uma das Pinturas rupestres indígenas encontradas na Amazônia
Fotografia de uma das Pinturas rupestres indígenas encontradas na Amazônia - Créditos: Divulgação/Raoni Valle/Vozes da Amazônia Indígena

Duas pinturas rupestres indígenas inéditas foram encontradas em dois sítios arqueológicos no território indígena Baniwa, próximos à cidade de São Gabriel da Cachoeira e entre as fronteiras do Brasil com a Colômbia e a Venezuela.

Localizadas no Alto Rio Negro, do lado brasileiro, mais especificamente nas serras do rio Içana, as pinturas foram encontradas pelo projeto Vozes da Amazônia Indígena. O projeto iniciado em 2025 é coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. 

Embora a região, por difícil acesso, ainda esteja em fase de descrição primária, os cientistas já apontaram que as pinturas são diferentes de tudo o que já viram. Raoni Valle, coordenador em exercício do Curso de Arqueologia da UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará, disse ao UOL:

Não conseguimos olhar para elas e dizer com segurança: ‘isto é um veado’, ‘isto é uma pessoa’, ‘isto é uma planta’. Elas podem ser múltiplas coisas ao mesmo tempo, ou podem ser coisa nenhuma […] Elas são profundamente ambíguas.”

As pinturas rupestres indígenas

De acordo com Raoni, a arte encontrada é diferente de todas as outras que ele já estudou em outras regiões da Amazônia. Ou seja, devido a não semelhança com qualquer outro grafismo já listado em repertórios, a equipe ainda encontra dificuldades para nomear as artes rupestres encontradas.

Assim, possivelmente a relação entre o “visível e o invisível, entre a forma e o significado” dos povos indígenas desta região da Amazônia desafiará os moldes da ciência ocidental de pensar a produção de imagens.

Ademais, devido a cobertura de líquens, organismos de cooperação mútua entre algas e fungos, por cima da pintura, estima-se que a pintura rupestre indígena foi feita entre 4 e 8 mil anos atrás. Uma vez que, para a rocha não estar coberta com o  material orgânico seria necessário um período de seca na região.

Curiosamente, durante o Holoceno Médio, período datado entre 8.000 e 4.000 anos atrás, a Amazônia encontrava um clima muito mais seco e árido do que o atual.

Região, arte, ciência e preservação

Inclusive, a pintura rupestre, de acordo com os cientistas, apresenta um tipo de “simbiose entre a rocha e tinta”. Raoni Villa comentou:

Em alguns casos, as pinturas não são figuras delimitadas, mas sim superfícies inteiras de um bloco rochoso pintadas de vermelho, ou apenas a aresta de uma fratura natural realçada com tinta, em que o traço pintado não é um contorno, mas uma extensão da própria geologia”.

Embora as especificidades sejam um grande destaque das obras, os pesquisadores também destacam como revelam o conhecimento ambiental dos indígenas. Pois para produzir uma tinta dessas era necessário um profundo conhecimento em geologia, química e biologia. Devido a complexidade de se fabricar tinta com base em óxido de ferro em mistura com compostos vegetais.

De todo modo, a localidade revelou que provavelmente em outros abrigos rochosos da região, há a possibilidade de haver mais pinturas rupestres indígenas espalhadas. Raoni complementa:

Acreditamos que, nos próximos anos, falaremos não de dois, mas de dezenas de sítios com pinturas na Terra Indígena do Alto Rio Negro.”

Helena Lima, arqueóloga do Museu Goeldi e coordenadora do projeto, destacou a importância das descobertas para a preservação da floresta amazônica. Para a UOL disse:

Essa região guarda histórias milenares, que estão vivas na memória desses povos, na história oral que eles contam e nas próprias paisagens. Cada pedra, rocha e gruta têm um nome, um dono, uma forma de serem respeitadas. É por isso que os lugares que nós chamamos de sagrados são lugares de história, onde se desenvolveu a própria humanidade indígena desse local. Isso é muito importante.”

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: