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Pinturas rupestres da Era do Gelo encontradas na região basca seguiam um padrão

De acordo com estudo, pinturas rupestres produzidas entre 16 mil e 14 mil anos atrás obedeciam a um conjunto de regras visuais compartilhadas pelos artistas pré-históricos

Painel da caverna de Lumentxa (Lekeitio, País Basco), com duas figuras de bisões orientadas à esquerda e uma cabeça de cavalo orientada à direita - Crédito: Intxaurbe, I., Journal of Archaeological Method and Theory (2026)

Um novo estudo publicado no Journal of Archaeological Method and Theory sugere que as pinturas rupestres produzidas entre 16 mil e 14 mil anos atrás na região basca obedeciam a um conjunto de regras visuais compartilhadas pelos artistas pré-históricos. Assim, em vez de distribuírem figuras de forma aleatória nas paredes das cavernas, esses grupos organizavam as imagens segundo um sistema gráfico estruturado.

A pesquisa foi conduzida por Iñaki Intxaurbe, da EHU–Universidade do País Basco, que analisou mais de 500 representações de animais presentes em nove cavernas decoradas do período Magdaleniense encontradas na região da Baía da Biscaia, área estratégica que conecta a Península Ibérica ao restante da Europa Ocidental. O pesquisador utilizou técnicas de análise de redes e métodos estatísticos capazes de identificar padrões de associação entre os animais, sua posição nos painéis e a direção para a qual estavam voltados, a fim de investigar como essas figuras eram organizadas.

Ao final das observações, os resultados revelaram que determinadas espécies ocupavam posições centrais nas composições. Bisões, cavalos e íbex — espécie de cabra selvagem — apareciam repetidamente como os principais elementos dos painéis, enquanto outros animais eram distribuídos ao redor deles em posições secundárias. Entre esses protagonistas, os bisões se destacavam por ocupar, com frequência, o papel mais central dentro das redes analisadas. Ainda assim, Intxaurbe notou que cavalos e íbex também integravam o núcleo responsável pela organização visual das cenas.

Um padrão consistente

Como repercutiu o portal Archaeology News, além da disposição espacial, a orientação das figuras também seguia um padrão consistente. Os cavalos eram representados, na maioria das vezes, voltados para a direita, enquanto bisões e diversas outras espécies apareciam direcionados para a esquerda. Casos que contrariavam essa regra existiam, mas eram raros. Como essa organização se repetia em diferentes cavernas, os pesquisadores concluem que dificilmente ela foi fruto de escolhas individuais ou do acaso.

Para verificar a consistência dos resultados, os cientistas recorreram a diferentes modelos de análise. Eles construíram redes baseadas na frequência com que determinadas espécies apareciam juntas nos mesmos painéis, além de utilizarem árvores de expansão mínima, redes filtradas e outras ferramentas estatísticas. Independentemente da metodologia aplicada, os padrões permaneceram praticamente os mesmos, o que reforça a hipótese de que existia um sistema gráfico compartilhado entre os artistas da época.

Ressurgem hipóteses

As conclusões também reforçam hipóteses levantadas por arqueólogos décadas atrás. Estudos anteriores já haviam observado que muitos animais das cavernas eram retratados voltados para a esquerda, sugerindo a existência de convenções artísticas. Uma explicação antiga atribuía essa preferência ao fato de a maioria dos pintores ser destra. Contudo, a nova pesquisa enfraquece essa interpretação, já que os cavalos — uma das figuras mais frequentes na arte rupestre — costumam aparecer orientados para a direita.

Apesar de identificar regras claras na composição das pinturas, é importante dizer que o estudo em questão não pretende decifrar o significado das imagens. Segundo o autor, é provável que elas fizessem parte de um código gráfico compartilhado entre aqueles grupos humanos, cujo conteúdo simbólico acabou se perdendo ao longo dos milênios. O fato de apenas algumas cavernas apresentarem esse tipo específico de arte também sugere que esses locais possuíam uma importância especial para as comunidades que os utilizaram.

Banco de dados

Outro destaque da pesquisa é a disponibilização pública do banco de dados e dos métodos empregados na análise. Isso permitirá que outros especialistas comparem pinturas rupestres de outras regiões utilizando os mesmos critérios. Os autores afirmam ainda que a metodologia poderá ser aplicada ao estudo de sistemas antigos de escrita  e outros conjuntos de símbolos, permitindo investigar como diferentes elementos se relacionam e seguem padrões recorrentes.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.