Notícias / Arqueologia

Cientistas recuperam DNA humano de paredes de cavernas pré-históricas

Pesquisadores encontram vestígios de saliva e suor de milhares de anos e abrem caminho para desvendar ancestralidade de populações antigas em Portugal e Espanha

Registro de coleta de pigmentos em caverna na Espanha / Crédito: Alberto Martínez Villa; de: Bossoms Mesa et al., Nature Communications (2026)

Uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu recuperar, pela primeira vez, DNA humano antigo diretamente de paredes de cavernas pré-históricas, demonstrando que material genético pode permanecer preservado nesses ambientes por milhares de anos. Os resultados foram publicados na terça-feira, 23, na revista Nature Communications e abrem novas possibilidades para investigar quem frequentou e utilizou esses espaços no passado.

A descoberta integra o projeto Art, conduzido por especialistas da Espanha e de Portugal, voltado ao estudo das pinturas rupestres mais antigas e à análise de sua composição química. Em parceria com cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, os pesquisadores ampliaram o escopo da investigação para incluir análises genéticas.

Teto policromado de Altamira / Crédito: Divulgação/Matthias Meyer

Detalhes dos estudos

Utilizando técnicas avançadas de extração e sequenciamento de DNA, a equipe examinou fragmentos de paredes pigmentadas e não pigmentadas, sedimentos, ossos e até mesmo uma rara ferramenta pré-histórica de aerografia utilizada para aplicar tinta. Ao todo, foram estudados 24 painéis de arte rupestre distribuídos por onze cavernas.

“Sabemos que algumas das pinturas rupestres foram aplicadas nas paredes das cavernas soprando ou esfregando pigmento na superfície”, afirma em comunicado Hipólito Collado Giraldo, arqueólogo e especialista em arte rupestre do Governo da Extremadura, na Espanha, que reuniu a equipe do projeto. “Dada a enorme sensibilidade das atuais técnicas de análise de DNA antigo, estávamos ansiosos para ver se esse tipo de contato poderia deixar vestígios de DNA na arte rupestre, permitindo-nos obter perfis genéticos dos criadores da arte.”

Os resultados revelaram vestígios de DNA humano antigo em uma crosta de calcita pigmentada da Caverna do Escoural, em Portugal, além de amostras não pigmentadas do mesmo sítio. Também foram encontrados indícios na Caverna de Covarón, no norte da Espanha, em áreas sem pigmentação próximas às pinturas.

Das 120 amostras analisadas, apenas cinco continham DNA mitocondrial humano antigo. Uma delas veio de uma superfície pigmentada da Caverna do Escoural; duas foram coletadas em áreas não decoradas mais profundas da mesma caverna; e outras duas foram obtidas ao lado de painéis rupestres em Covarón.

Segundo os pesquisadores, duas dessas amostras não apresentavam DNA de fauna associado, o que sugere fortemente uma deposição direta por seres humanos, possivelmente por meio de saliva, suor ou outros fluidos corporais. Já as demais continham material genético humano e animal, indicando uma deposição indireta causada por fatores ambientais, como movimentação de sedimentos ou ação da água.

“Embora não possamos conectar diretamente os vestígios de DNA humano antigo que encontramos à criação da arte rupestre, esta é a primeira evidência de preservação de DNA humano em paredes de cavernas por milhares de anos”, destaca a primeira autora do estudo, Alba Bossoms Mesa, pesquisadora de doutorado no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva.

As análises também permitiram traçar algumas características dos indivíduos identificados. Entre as cinco amostras positivas para DNA humano antigo, três apresentaram perfis predominantemente femininos, uma foi associada a um indivíduo masculino e outra não pôde ser determinada. No caso das amostras de Covarón, os resultados indicam vínculos genéticos com caçadores-coletores ocidentais, compatíveis com dados já conhecidos sobre populações pré-históricas da Península Ibérica.

Fragmento de calcita com pigmento descoberto em Portugal / Crédito: Divulgação/Alba Bossoms Mesa

Os cientistas também investigaram uma ferramenta de aerografia confeccionada a partir de osso de ave, encontrada na Caverna de Altamira e utilizada para aplicar pigmentos vermelhos nas paredes. A expectativa era encontrar traços de saliva dos artistas, mas nenhum DNA humano antigo foi detectado. De acordo com a equipe, a forte contaminação por material genético moderno e as limitações das amostras coletadas podem ter dificultado a identificação.

O estudo mostra que a preservação de DNA humano em paredes de cavernas é um fenômeno raro. Entre os 24 painéis analisados, apenas um apresentou material genético antigo diretamente associado à superfície decorada, além de dois pontos próximos a outros painéis.

A preservação de DNA humano em paredes de cavernas é altamente variável”, afirma Bossoms Mesa. “Mas, quando sobrevive, ele conta uma história poderosa.”

Para os pesquisadores, os resultados inauguram uma nova linha de investigação sobre a ocupação humana desses locais, permitindo estudar aspectos como sexo biológico e ancestralidade genética de indivíduos que passaram pelas cavernas há milhares de anos, repercute a Revista Galileu.

Não se trata apenas de arte rupestre”, afirma o arqueólogo Hipólito Collado Giraldo. “Trata-se de compreender como as pessoas utilizavam esses espaços e onde deixavam seus vestígios.”

Os autores destacam ainda que paredes de cavernas podem funcionar como verdadeiros arquivos genéticos, preservando evidências da presença humana muito tempo após o desaparecimento dessas populações.

“Isto é apenas o começo”, afirma o paleogeneticista Matthias Meyer. Segundo ele, pesquisas futuras deverão ampliar as análises para outros sítios arqueológicos, diferentes estilos artísticos e técnicas como estênceis de mãos e representações figurativas, o que poderá aproximar os cientistas da identificação genética de alguns dos autores da arte rupestre produzida há milênios.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.