DNA de leões-das-cavernas revela algo impressionante sobre esses animais
Estudo recente analisou DNA presente nos restos mortais de doze leões-das-cavernas encontrados na Sibéria e resultado surpreendeu pesquisadores

Cientistas do Reino Unido recentemente analisaram o material genético de doze leões-das-cavernas (Panthera spelaea) encontrados na Sibéria e descobriram que esses animais se separaram dos leões modernos muito antes do que o estimado. Os resultados, publicados na revista Cell na última quarta-feira, 3, indicam que o fenômeno ocorreu há cerca de 1,5 milhão de anos.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores examinaram DNA extraído de fósseis recuperados em cavernas, margens de rios e áreas de permafrost no norte da Sibéria. Em seguida, compararam os genomas dos antigos felinos aos de 20 leões modernos provenientes da África e do sul da Ásia.
A análise revelou uma história evolutiva mais complexa do que se imaginava. Embora os leões-das-cavernas e os leões modernos tenham seguido caminhos distintos há cerca de 1,5 milhão de anos, os cientistas encontraram evidências de que as duas linhagens continuaram a cruzar ocasionalmente ao longo de dezenas de milhares de anos.
Os fósseis analisados tinham idades que variavam entre aproximadamente 17 mil e mais de 100 mil anos, sendo que, entre eles, estavam dois filhotes excepcionalmente bem preservados.
“Os leões das cavernas têm sido frequentemente retratados apenas como uma versão maior e mais robusta dos leões modernos”, disse David Stanton, principal autor da pesquisa e atualmente professor da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, de acordo com o portal Galileu.
No entanto, os resultados sugerem que as diferenças entre esses animais eram muito mais profundas. Os pesquisadores identificaram mutações exclusivas dos leões-das-cavernas que provavelmente alteravam o funcionamento de determinadas proteínas. Também encontraram um número elevado de modificações genéticas associadas a funções cerebrais, visão, crescimento corporal e desenvolvimento do sistema circulatório.
Comportamentos diferentes
Essas descobertas reforçam o que já havia sido sugerido por fósseis e pinturas rupestres. Evidências arqueológicas indicam que os leões-das-cavernas não apenas eram maiores que os leões atuais, mas também apresentavam comportamentos e adaptações ecológicas diferentes, desenvolvidos para sobreviver aos ambientes frios da Eurásia durante a Era do Gelo.
Apesar dessas distinções, os cientistas acreditam que os dois grupos não permaneceram completamente isolados. A pesquisa mostra que períodos de mudanças climáticas e expansão das geleiras favoreceram encontros entre populações de leões-das-cavernas e leões modernos.
Durante os momentos mais frios do passado, quando as camadas de gelo avançavam sobre grandes áreas do hemisfério norte, os leões-das-cavernas provavelmente migravam para regiões mais ao sul. Esse deslocamento teria permitido o contato com populações de leões modernos que habitavam áreas da Ásia Central e do sudoeste asiático.
Trocas genéticas
Os pesquisadores apontam que os leões modernos que viviam nessas regiões, hoje extintos, provavelmente foram a principal fonte da troca genética observada nos genomas analisados. Embora essa contribuição tenha sido relativamente pequena, ela deixou marcas detectáveis no DNA dos leões-das-cavernas.
Segundo o estudo, a presença de genes oriundos de leões modernos aumentava justamente nos períodos em que as geleiras atingiam sua maior extensão. Um dos exemplos mais notáveis foi encontrado em um leão-das-cavernas que viveu há cerca de 20 mil anos na Ásia Centro-Oriental. Os cientistas identificaram entre 3,2% e 4,4% de ancestralidade proveniente de leões modernos em seu genoma.
Outro aspecto revelado pela pesquisa é que os leões-das-cavernas mantinham uma forte conectividade genética em toda a Eurásia. Isso significa que diferentes populações espalhadas por milhares de quilômetros continuavam trocando genes regularmente, o que sugere uma impressionante capacidade de deslocamento por vastos territórios.