Europa quer construir maior acelerador de partículas da história
Comitê do CERN incluiu o futuro acelerador de partículas Colisor Circular em seu plano estratégico para as próximas décadas

A comunidade científica europeia deu um passo decisivo rumo à construção daquele que poderá se tornar o maior acelerador de partículas já criado para estudar a matéria e o Universo. O Conselho da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) oficializou a inclusão do Futuro Colisor Circular (FCC, na sigla em inglês) na atualização da Estratégia Europeia para Física de Partículas, documento que define as prioridades da área para as próximas décadas. A decisão transforma um projeto discutido há anos em uma meta concreta para o futuro da física de altas energias.
O FCC foi concebido para suceder o atual Grande Colisor de Hádrons (LHC), o maior acelerador de partículas em operação no mundo. Inaugurado em 2008 na fronteira entre a França e a Suíça, o LHC possui 27 quilômetros de circunferência e entrou para a história ao possibilitar a descoberta do bóson de Higgs em 2012, uma das partículas fundamentais previstas pelo Modelo Padrão da física. O novo acelerador, porém, pretende ir muito além: terá cerca de 91 quilômetros de extensão, mais de três vezes o tamanho do LHC.
O custo estimado do empreendimento gira em torno de 15 bilhões de francos suíços, equivalentes a aproximadamente R$ 95 bilhões. O cronograma prevê que o LHC continue operando até a década de 2040, quando então o FCC começaria gradualmente a assumir o protagonismo das pesquisas em física de partículas.
Acelerador de partículas
O projeto será implementado em duas etapas. A primeira consiste na construção do FCC-ee, um acelerador destinado a promover colisões entre elétrons e pósitrons. Embora produza energias menores que as do LHC, esse sistema permitirá medições extremamente precisas do bóson de Higgs e de outras partículas fundamentais. Os cientistas esperam que essas observações revelem pequenas discrepâncias capazes de apontar para fenômenos ainda desconhecidos pela física atual.
Em uma segunda fase, prevista para a segunda metade do século, o túnel passará a abrigar o FCC-hh, um acelerador de prótons capaz de atingir energias de até 100 teraelétron-volts (TeV), aproximadamente sete vezes superiores às alcançadas atualmente pelo LHC. O objetivo é investigar regiões da física ainda inacessíveis, incluindo possíveis partículas relacionadas à matéria escura, uma substância invisível que, segundo os modelos cosmológicos, constitui grande parte da massa do Universo.
A decisão do CERN foi recebida com entusiasmo por boa parte da comunidade científica internacional, que vê no FCC uma oportunidade de manter a liderança europeia em pesquisas fundamentais. Ao mesmo tempo, o projeto já desperta debates sobre seus custos, impacto ambiental e consumo energético. Na França e na Suíça, consultas públicas começaram a discutir os efeitos da futura obra sobre as regiões que abrigariam o gigantesco túnel subterrâneo.
Para os defensores do empreendimento, contudo, o investimento segue a tradição de grandes projetos científicos que transformaram o conhecimento humano. Assim como o LHC permitiu confirmar a existência do bóson de Higgs, os pesquisadores acreditam que o FCC poderá responder perguntas fundamentais sobre a origem da massa, a natureza da matéria escura e os limites do Modelo Padrão. Em outras palavras, a máquina pode ajudar a revelar aspectos do Universo que permanecem ocultos mesmo após décadas de avanços científicos.