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Pesquisadores identificam a mula mais antiga conhecida da Europa, na Espanha

Restos de mula mais antiga conhecida da Europa, com 2.700 anos foram encontrados ao lado de mulher parcialmente cremada em sítio arqueológico na Espanha

Restos de crânio de mula descoberto na Espanha / Crédito: Divulgação/F. Javier López Cachero

Cientistas identificaram no nordeste da Espanha os restos mortais da mula mais antiga já registrada na Europa Ocidental. O animal foi enterrado há cerca de 2.700 anos ao lado de uma mulher parcialmente cremada, segundo estudo publicado na edição de fevereiro do Journal of Archaeological Science: Reports.

Os dois foram sepultados em uma antiga cova revestida de pedras que originalmente funcionava como silo, no sítio arqueológico de Hort d’en Grimau. Embora os esqueletos tenham sido descobertos ainda em 1986, apenas análises genéticas recentes permitiram confirmar que um dos conjuntos de ossos pertencia a uma mula — um híbrido resultante do cruzamento entre um jumento macho e uma égua.

Esses animais, segundo os pesquisadores, “combinam a força física e o porte de um cavalo com a resistência e a frugalidade de um jumento”. No entanto, sua criação envolve desafios significativos. Como as mulas são, em geral, estéreis, sua obtenção depende de cruzamentos específicos e difíceis. Os povos antigos que as criavam precisavam treinar os garanhões “desde jovens para montar as éguas”, o que tornava o processo complexo e contribuía para o alto valor atribuído a esses animais ao longo da história.

Registros arqueológicos indicam que as mulas mais antigas conhecidas datam de mais de 4.000 anos e foram encontradas no Oriente Médio. De acordo com F. Javier López Cachero, arqueólogo da Universidade de Barcelona e coautor do estudo, em e-mail ao Live Science, essa tradição pode ter chegado à Península Ibérica por meio dos fenícios, povo marítimo originário do Oriente Médio que estava ativo na Espanha no período em que a mula viveu.

Para compreender melhor a vida do animal, os cientistas analisaram as proporções de isótopos presentes em seus ossos. Esses átomos, que variam no número de nêutrons, deixam vestígios químicos capazes de indicar padrões alimentares. Os resultados apontaram que a mula mantinha uma dieta rica em cereais cultivados. Paralelamente, uma avaliação anatômica revelou marcas compatíveis com uso frequente para montaria.

“A mula apresenta evidências claras de ter sido montada e bem alimentada, o que sugere que ela possuía um valor social considerável”, disse López Cachero.

Dúvidas remanescentes

Já a mulher encontrada na mesma sepultura tinha entre 20 e 25 anos no momento da morte. O estado de conservação dos restos mortais, porém, limita as conclusões sobre sua condição física ou a causa do falecimento. “Infelizmente, o estado dos restos mortais não permite avaliar a saúde da mulher nem determinar a causa da morte”, disse López Cachero.

As análises indicaram ainda que a jovem passou por um processo de cremação parcial antes do enterro. Seus restos estavam fragmentados quando foram depositados na cova, e não organizados de forma cuidadosa. Em contraste, o esqueleto da mula não apresenta indícios de ter sido submetido ao fogo. “A mula, no entanto, não apresenta sinais de cremação”, observou ele. “Esta continua sendo uma questão complexa.”

Na antiguidade, a presença de cavalos em sepultamentos humanos podia sinalizar o status de guerreiro. No entanto, no caso de Hort d’en Grimau, não há elementos suficientes para determinar por que a mulher foi enterrada ao lado da mula. “O tratamento funerário dos restos mortais é ‘não convencional’, e a ausência de objetos funerários impede qualquer conclusão definitiva sobre o status social da mulher”, disse López Cachero.

O achado amplia o conhecimento sobre a introdução e o uso de mulas na Europa Ocidental e levanta novas questões sobre práticas funerárias e relações entre humanos e animais na região há quase três milênios.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.